"Putin's Wars": A Máquina de Guerra Russa Desmistificada




Mark Galeotti, em Putin’s Wars: From Chechnya to Ukraine, oferece uma análise abrangente, multifacetada e profundamente crítica das guerras conduzidas pela Rússia sob a liderança de Vladimir Putin, desde a Segunda Guerra da Chechênia (1999–2009) até a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. Longe de tratar esses conflitos apenas como eventos militares, Galeotti os interpreta como ferramentas estratégicas centrais na construção do regime putinista, servindo a três propósitos interligados: consolidar o poder interno, projetar influência geopolítica externa e forjar um legado histórico para Putin como restaurador da grandeza russa. Com uma abordagem que combina rigor analítico, contextualização histórica e desmistificação de narrativas ocidentais, o autor desmonta a imagem de Putin como um estrategista genial, apresentando-o como um tático oportunista cujas decisões, embora muitas vezes eficazes no curto prazo, revelam limitações estruturais e riscos crescentes no longo prazo. A obra, publicada em um momento de intensificação do conflito na Ucrânia, é uma leitura essencial para compreender a lógica do poder russo e suas implicações globais.

Inspirando-se na máxima de Clausewitz, Galeotti argumenta que as guerras de Putin não são meras operações militares, mas instrumentos políticos cuidadosamente orquestrados. Elas cumprem funções que ultrapassam o campo de batalha, servindo como mecanismos de governo que reforçam a coesão nacional, legitimam o autoritarismo e projetam a Rússia como uma potência revisionista. A Segunda Guerra da Chechênia (1999–2009) é interpretada por Galeotti como o laboratório inaugural do putinismo, em que Vladimir Putin — recém-nomeado primeiro-ministro — explorou o discurso antiterrorista para consolidar a “vertical do poder”, um sistema altamente centralizado em que todas as esferas políticas se subordinam diretamente ao Kremlin.

A campanha chechena foi marcada por níveis extremos de brutalidade, com bombardeios indiscriminados em áreas urbanas como Grozny, que transformaram a capital chechena em ruínas e mataram milhares de civis. O exército russo empregou táticas de varredura e represália coletiva em vilarejos suspeitos de abrigar insurgentes, muitas vezes cometendo execuções sumárias, desaparecimentos forçados e torturas sistemáticas. Centros de detenção como o infame presídio de Chernokozovo tornaram-se símbolos da repressão violenta. Essas ações não apenas visavam destruir a resistência separatista, mas também enviar uma mensagem clara de poder e impunidade do Estado.



Paralelamente, o Kremlin operou um rígido controle narrativo sobre o conflito. Jornalistas independentes foram impedidos de acessar zonas de combate, e a cobertura oficial apresentava a guerra como uma luta justa contra o terrorismo islâmico, apagando as dimensões políticas e étnicas do conflito. Casos emblemáticos de repressão à imprensa — como o assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, que denunciava os abusos cometidos na Chechênia — ilustram como o governo silenciava vozes dissidentes. A propaganda estatal moldou a imagem de Putin como um líder firme e patriótico, que havia restaurado a ordem após os anos de caos sob Yeltsin.

Esse padrão evoluiu nos conflitos subsequentes. A guerra na Geórgia (2008) foi um recado à OTAN, deixando claro que Moscou estava disposta a usar força para conter a expansão ocidental em seu entorno imediato. A anexação da Crimeia (2014) e o conflito no Donbas (2014–2022) consolidaram uma doutrina de guerra híbrida, baseada em operações militares ambíguas, desinformação e manipulação política. A intervenção na Síria (2015–) projetou a imagem da Rússia como potência global capaz de sustentar regimes aliados e desafiar a hegemonia ocidental no Oriente Médio. No entanto, a invasão da Ucrânia em 2022 marcou uma ruptura decisiva: abandonou-se a ambiguidade estratégica em favor de uma guerra convencional em larga escala, com implicações profundas e duradouras.

Segundo Galeotti, essa guerra manteve os mesmos objetivos políticos — mobilizar o nacionalismo interno e desafiar a ordem liberal internacional —, mas revelou os limites do modelo beligerante russo, ao gerar custos sem precedentes em múltiplas frentes. Do ponto de vista humano, estima-se que centenas de milhares de soldados russos tenham sido mortos ou feridos, enquanto cidades inteiras foram devastadas, e crimes de guerra atribuídos às tropas russas, como em Bucha e Mariupol, mancharam ainda mais a reputação do país. No plano econômico, a Rússia enfrentou sanções internacionais massivas, que congelaram reservas cambiais, isolaram bancos do sistema SWIFT, reduziram drasticamente o acesso a tecnologias ocidentais e provocaram uma retração industrial de setores estratégicos, especialmente os ligados à defesa e à alta tecnologia. No campo diplomático, a guerra levou à expansão da OTAN, com a entrada da Finlândia e da Suécia, reaproximou os EUA da Europa e provocou um isolamento internacional inédito desde a Guerra Fria, reduzindo significativamente o prestígio global da Rússia, inclusive entre parceiros tradicionais.

Um dos pontos mais originais da análise de Galeotti é a ênfase na função simbólica dos conflitos, que operam como espetáculos políticos cuidadosamente encenados para reforçar a legitimidade do regime. A propaganda estatal, apoiada por um sistema de mídia controlada, transforma as guerras em capítulos heroicos de uma narrativa histórica que conecta o presente à glória soviética, especialmente à vitória na Segunda Guerra Mundial. A anexação da Crimeia, por exemplo, foi apresentada como uma “reunificação histórica” com o povo russo, enquanto a intervenção na Síria foi vendida como prova da relevância global da Rússia. Esses eventos, amplificados por desfiles, monumentos e narrativas de heroísmo, criam um ethos militarizado que funde cidadania e patriotismo.



A retórica da “fortaleza sitiada” é central nesse processo. O Kremlin constrói a imagem de uma Rússia cercada por inimigos — OTAN, EUA, “liberais internos” — para justificar a repressão e mobilizar apoio popular. Inimigos simbólicos, como a “Ucrânia nazificada” ou o “Ocidente decadente”, são usados para desviar a atenção de problemas internos, como corrupção e estagnação econômica. Galeotti observa que essa manipulação emocional, sustentada por narrativas históricas distorcidas e pelo culto artificial a mártires e heróis, é tão importante quanto as vitórias militares, criando uma “guerra como performance política” que legitima o regime e eterniza o mito de Putin.

A militarização da política e da sociedade russas é um dos eixos centrais da análise de Mark Galeotti em Putin’s Wars: From Chechnya to Ukraine. O autor descreve como, ao longo dos anos 2000 e 2010, o regime de Vladimir Putin promoveu a ascensão de uma elite burocrática formada por membros das agências de segurança e defesa — os chamados siloviki, provenientes do FSB (Serviço Federal de Segurança), do GRU (inteligência militar) e do Ministério da Defesa. Esses atores, originalmente ligados ao aparato repressivo soviético, passaram a ocupar posições-chave no governo federal, no Judiciário, nas empresas estatais e em setores estratégicos da economia, como energia, transportes e infraestrutura.

Entre os exemplos mais notórios está Igor Sechin, ex-oficial da inteligência e figura próxima de Putin desde seus anos em São Petersburgo, que se tornou CEO da Rosneft, gigante estatal do petróleo. Outro é Sergei Shoigu, ministro da Defesa, que, apesar de sua formação técnica, tornou-se símbolo da politização da máquina militar. Para Galeotti, a crescente presença dos siloviki no coração do Estado russo impregnou o governo com uma mentalidade securitária, voltada à disciplina, à lealdade e à percepção constante de ameaças internas e externas. Essa lógica transformou a política russa em uma extensão da doutrina militar, na qual divergência é tratada como traição, e o inimigo está sempre à espreita.

Esse ambiente facilitou uma série de reformas militares iniciadas em 2008, que modernizaram as Forças Armadas: criaram-se brigadas mais móveis, houve a profissionalização parcial de tropas, investimento em capacidades cibernéticas e integração entre guerra convencional e operações de desinformação. Além disso, o regime promoveu a militarização simbólica da sociedade: programas como o Yunarmiya (Jovem Guarda) — organização paramilitar voltada para adolescentes — e a inserção da educação patriótica militarizada nas escolas russas buscaram moldar as novas gerações com valores de obediência, hierarquia e devoção à pátria. Rituais públicos como o Dia da Vitória (9 de maio) transformaram o culto à vitória soviética na Segunda Guerra Mundial em elemento estruturante da identidade nacional contemporânea, promovendo uma visão heroica e unívoca do papel militar russo na história.

Contudo, Galeotti é incisivo ao apontar que essa militarização apresenta contradições estruturais significativas. Apesar dos avanços nas unidades de elite — como a introdução de brigadas de resposta rápida e o uso de forças especiais em operações híbridas —, o Exército russo sofre com corrupção endêmica, sobretudo nas esferas administrativas e logísticas. Um exemplo alarmante foi revelado durante a invasão da Ucrânia em 2022: diversas unidades mobilizadas receberam equipamentos obsoletos, racionamentos de munição e uniformes de baixa qualidade. Descobertas de que coletes à prova de balas eram preenchidos com papelão ou de que kits médicos estavam vencidos desde a década de 1990 ilustram a fragilidade do sistema de fornecimento militar, fruto de décadas de desvio de recursos e superfaturamento em contratos militares.

Essa corrupção se entrelaça com as limitações logísticas da campanha ucraniana, que, como destaca Galeotti, comprometeram seriamente a eficácia operacional do Exército russo. As colunas de tanques russos que avançaram em direção a Kiev, no início da guerra, ficaram presas por semanas devido à falta de combustível, pneus danificados e cadeias de suprimento mal planejadas. Além disso, a ausência de coordenação entre as forças terrestres, aéreas e de artilharia mostrou que o modelo de comando centralizado — característico da doutrina soviética e mantido sob Putin — prejudicava a flexibilidade tática em campo. A resposta do Kremlin a essas deficiências foi recorrer cada vez mais a grupos paramilitares, como o Wagner, cuja atuação supriu as falhas do Exército regular, mas ao custo de tensões internas, violações do direito internacional humanitário e perda de controle político sobre os meios de força — como evidenciado pelo motim liderado por Yevgeny Prigozhin em 2023.

Galeotti critica a forma como o Ocidente interpretou as ações russas no âmbito internacional. Um dos maiores equívocos, segundo ele, foi a leitura equivocada do artigo publicado em 2013 por Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior russo. Nesse texto, Gerasimov refletia sobre como as guerras modernas estavam se transformando, com crescente uso de instrumentos não militares, como guerra informacional, protestos orquestrados e pressão econômica — elementos que ele via como práticas ocidentais recentes, sobretudo nos conflitos no Oriente Médio e na chamada “Primavera Árabe”. Ao contrário do que muitos analistas do Ocidente imaginaram, Gerasimov não estava propondo uma nova doutrina de guerra russa, mas sim descrevendo o que considerava ser o modelo operacional das potências ocidentais, particularmente dos Estados Unidos.

O erro do Ocidente foi transformar essa reflexão analítica em uma suposta “doutrina Gerasimov”, vista como um plano russo articulado, sofisticado e sistemático para travar guerras híbridas contra o mundo liberal. Essa ideia — amplamente difundida em think tanks, relatórios militares e na mídia internacional — superestimou a coerência estratégica do Kremlin e projetou sobre a Rússia uma racionalidade que ela frequentemente não possui. Para Galeotti, essa “doutrina” nunca existiu como um documento oficial ou uma orientação doutrinária nas Forças Armadas russas, mas virou um mito funcional: serviu como atalho interpretativo para os medos ocidentais, facilitando explicações simplificadas para ações russas complexas, fragmentadas e muitas vezes improvisadas.

Exemplo disso foi o alarme causado em capitais ocidentais após a campanha na Crimeia, interpretada como parte de um plano detalhado de expansão híbrida — quando, na verdade, a operação resultou de improvisação tática, janela de oportunidade geopolítica e cálculo de curto prazo, mais do que de uma visão estratégica de longo alcance. Do mesmo modo, os ataques cibernéticos e a desinformação promovida por agências como a Internet Research Agency, embora eficazes, foram conduzidos por estruturas paralelas, muitas vezes descentralizadas e sem integração clara com o alto comando militar ou uma doutrina unificadora.

Ainda assim, Galeotti reconhece que a Rússia aprendeu a operar com pragmatismo nesse território híbrido, adaptando-se aos contextos locais, explorando falhas de resposta do Ocidente e combinando diferentes instrumentos de poder — mas sem a coesão ou o planejamento deliberado que a ideia de uma “doutrina Gerasimov” sugere. O verdadeiro perigo, segundo o autor, não está em uma estratégia russa genial e invisível, mas na capacidade de Moscou de improvisar eficazmente em meio à desordem, explorando a hesitação e a fragmentação das democracias liberais.

Os conflitos na Geórgia, na Crimeia e no Donbas são apresentados por Galeotti como marcos na consolidação de uma doutrina geopolítica russa que rejeita os princípios da ordem liberal internacional e afirma a Rússia como uma potência civilizacional autônoma. A guerra na Geórgia (2008) funcionou como um teste das capacidades militares russas e um aviso direto à OTAN sobre os limites da expansão ocidental no espaço pós-soviético. A anexação da Crimeia (2014) redefiniu fronteiras pela força, rompendo com os acordos do pós-Guerra Fria, ao passo que o conflito no Donbas foi mantido como uma zona de instabilidade permanente, destinada a enfraquecer a soberania ucraniana e a bloquear sua integração plena com o Ocidente.

Esses episódios foram sustentados por uma retórica que reivindica o direito da Rússia de proteger populações russófonas e de exercer controle sobre esferas de influência históricas, em aberto desafio aos princípios multilaterais de soberania e autodeterminação. Trata-se, segundo Galeotti, de uma visão imperial e revisionista, ancorada na ideia de que a Rússia possui uma missão especial no sistema internacional e não deve se submeter a regras universais impostas por potências ocidentais.

No entanto, a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022 representa uma ruptura com a lógica anterior, baseada na ambiguidade e na guerra híbrida. Ao adotar uma estratégia de guerra convencional e objetivos maximalistas — como a mudança de regime, a suposta “desnazificação” e a “desmilitarização” da Ucrânia —, o Kremlin abandonou o pragmatismo tático que havia caracterizado a política de Putin nas duas décadas anteriores. Para Galeotti, esse movimento se revelou um grave erro de cálculo estratégico.

Esse erro teve múltiplas causas. Em primeiro lugar, Moscou subestimou a resistência nacional ucraniana, acreditando que o governo de Kyiv entraria em colapso em poucos dias, que as Forças Armadas seriam desorganizadas e que parte da população acolheria os russos como libertadores — suposições que se mostraram profundamente equivocadas. Em segundo lugar, houve uma séria falha de avaliação quanto à resposta ocidental: o Kremlin não previu a unidade da OTAN, o envio massivo de ajuda militar à Ucrânia nem o impacto devastador das sanções econômicas internacionais.

Galeotti chama atenção, ainda, para o papel central da desinformação interna na formação dessa decisão desastrosa. O regime putinista, ao longo dos anos, fechou-se em uma bolha de lealdade e autoengano, na qual os serviços de inteligência passaram a fornecer relatórios filtrados para não desagradar a cúpula, e os tomadores de decisão operavam com base em uma visão distorcida da realidade. A centralização extrema do poder em torno de Putin dificultou o debate interno, eliminou contrapesos institucionais e fez com que o Kremlin acreditasse na própria propaganda, especialmente nas narrativas de que a Ucrânia era um Estado falido, tomado por nazistas e totalmente dependente do Ocidente.

Dessa forma, o que era para ser uma campanha relâmpago transformou-se em um conflito prolongado, de alto custo humano, militar, econômico e diplomático, expondo as limitações estruturais da Rússia e corroendo o prestígio do regime. Galeotti interpreta esse desfecho como um ponto de inflexão: uma guerra que, longe de consolidar a grandeza da Rússia, expôs as vulnerabilidades do modelo putinista, marcado por autoritarismo, isolamento decisório e desprezo pela realidade empírica.

O legado de Putin, embora ancorado na imagem de restaurador do orgulho russo, é ambíguo: suas guerras, antes símbolos de força, agora expõem a vulnerabilidade de um sistema que apostou tudo em uma vitória improvável.

Putin’s Wars é uma obra magistral que combina análise histórica, política e militar para oferecer uma visão nuançada do regime de Putin e de suas guerras. Galeotti desmonta mitos, como a “doutrina Gerasimov” e a imagem de Putin como estrategista infalível, enquanto expõe as fragilidades e contradições do poder russo. O livro é denso, exigindo familiaridade com o contexto geopolítico, mas sua clareza e profundidade o tornam acessível a leitores interessados em política internacional. Para estudiosos, jornalistas e policymakers, é uma referência indispensável, que não apenas explica as motivações e estratégias do Kremlin, mas também alerta para os riscos de subestimar ou superestimar suas capacidades. Em um mundo marcado por conflitos híbridos e polarização, a análise de Galeotti é um convite à reflexão crítica sobre a natureza da guerra no século XXI.





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