Drieu La Rochelle e o Cansaço do Mundo
"Ele
era como um fogo fátuo, que dança sobre os pântanos, uma clarão sem calor, sem
consistência, prometido à mais leve brisa. Ele brilhava para si só, na noite
onde estava perdido."
Alain Leroy,
protagonista de Le Feu Follet (1931), surge como a figura mais nítida
daquele niilismo íntimo que marcou a geração europeia devastada pela Primeira
Guerra. Veterano ferido em Verdun, Drieu La Rochelle reencontra em Alain não
apenas um duplo ficcional, mas o eco de uma experiência histórica em que os
valores que sustentavam a vida — patriotismo, religião, progresso — foram
reduzidos a cinzas. O niilismo de Alain não é tese, mas sensação: ele percebe a
existência como uma sucessão de gestos esvaziados, prazeres sem sabor, vínculos
que já não conseguem feri-lo nem consolá-lo. A vontade de morrer nasce menos de
um sofrimento abrupto que de uma lucidez fatigada, uma percepção fria de que,
após a tempestade da guerra, nada verdadeiramente renasceu. A paz, com sua
superfície burguesa e satisfeita, parece-lhe apenas outra forma de impostura. E
como recusar-se a participar de tal comédia não lhe abre qualquer saída, o
suicídio apresenta-se como o único gesto coerente que lhe resta: não um brado,
mas uma conclusão.
A jornada de Alain por uma Paris que oscila entre o brilho e a decomposição
revela essa coerência trágica. Cada encontro — com os amigos ricos que ostentam
sem viver, com intelectuais que pregam revolução entre taças de champanhe, com
mulheres para quem o desejo não chega a ser promessa — lhe restitui apenas
máscaras. Drieu constrói, assim, uma espécie de peregrinação às avessas: à
medida que Alain procura algum sinal de autenticidade, o mundo lhe oferece
apenas simulacros de vida. Há, nesta recusa silenciosa em integrar-se ao teatro
social, um derradeiro resto de dignidade, como se ele preservasse, mesmo na
derrota, um pudor diante da falsificação universal. A sociedade que sobreviveu
à guerra parece ter renunciado à verdadeira inquietude; vive, mas de um modo
que já não sabe justificar-se.
Nesse
percurso, o álcool e o ópio não são apenas elementos veristas, mas o eixo
simbólico que permite compreender a própria natureza do feu follet. O
fogo-fátuo, chama pálida que treme sobre os pântanos e atrai viajantes para a
morte, é metáfora precisa do brilho instável de Alain: uma luz súbita que não
aquece e que se alimenta de substâncias venenosas. O álcool, nas primeiras
horas, ancora uma euforia artificial, dá-lhe por instantes a impressão de
pertencer ao mundo dos vivos; mas cada copo o devolve a um fulgor cada vez mais
mortiço. O ópio, ao contrário, é o refúgio absoluto, o “fogo frio” que suspende
o tempo e silencia o desejo. Enquanto o álcool o empurra para uma sociabilidade
febril e falsa, o ópio o recolhe num recolhimento sem voz, num prenúncio de
nada.
A dialética entre vício e lucidez percorre toda
a obra: quanto mais tenta anestesiar-se, mais Alain entrevê a inanidade de tudo
que o cerca. Os tóxicos, que deveriam protegê-lo da verdade, acabam por
iluminá-la com maior crueldade. É significativo que, no instante final, ele
esteja sóbrio: a chama ilusória que o mantinha em movimento apaga-se justamente
quando ele aceita a própria extinção. Ópio e álcool não são, portanto, causas
do suicídio, mas sintomas de uma civilização que só sabe brilhar
artificialmente, consumindo-se em sua própria vaidade, refletindo num plano
íntimo o declínio moral de toda uma época.
A falência do intelectual moderno
A clínica de desintoxicação de Versailles, onde Alain passa seus dias numa
espécie de suspensão moral, é apresentada por Drieu como um microcosmo
revelador — quase um laboratório espiritual — da França do entre-guerras. Ali,
as figuras secundárias, longe de serem meros figurantes, corporificam a
variedade de respostas que a sociedade tenta dar ao seu próprio esvaziamento.
Há aqueles que fazem do tratamento médico uma religião substitutiva,
acreditando piamente que a disciplina do corpo poderá corrigir o desvio da
alma; o médico que observa Alain como quem avalia um caso clínico, mas evita
qualquer aproximação humana, sugere a hipertrofia técnica de uma época que
perdeu o senso de compaixão. Outros pacientes transformam o vício em anedota
elegante, recurso que lhes permite evitar a confissão íntima; conversam sobre
recaídas como quem comenta a meteorologia, neutralizando o drama por meio do
tom mundano. E existem ainda os que aceitam o tratamento como parte de uma
farsa necessária: sabem que nunca se curarão, mas participam do ritual como
quem deseja apenas sustentar a aparência de normalidade.
Drieu
organiza esses personagens como notas de um mesmo acorde melancólico: a clínica
não é um lugar de regeneração, mas de adiamento. Nada se resolve ali; tudo se
administra. E essa administração da alma — feita de horários, dietas, passeios
controlados, visitas supervisionadas — espelha a própria sociedade francesa
que, após a hecatombe da Primeira Guerra, tenta recompor-se não por um
ressurgimento interior, mas pela manutenção de formas desgastadas. Versailles,
com seus jardins disciplinados e seu silêncio de instituição, torna-se metáfora
de um país que prefere a ordem exterior à verdade interior. Ao colocar Alain
ali, Drieu sugere que sua lucidez, tão desconfortável quanto sua fragilidade, é
incompatível com esse esforço coletivo de mascaramento. A clínica é, portanto,
sua primeira exclusão: ele vê o que os outros não podem ou não querem ver.
É a partir
dessa exclusão que se compreende mais profundamente a crítica de Drieu à figura
do intelectual moderno. Alain é poeta, mas sua poesia está reduzida a vestígio;
é leitor, mas suas leituras já não alimentam a ação; é dândi, mas seu dandismo
não possui mais o poder de se opor ao mundo, apenas de afastar-se dele. Ele
observa tudo com um olhar que mistura ironia e cansaço, como se não houvesse
mais grandeza possível nem na adesão nem na revolta. Drieu vê nisso a falência
do intelectual tal como o século XIX o havia concebido: aquele que iluminava,
criticava, guiava. A modernidade transformou essa figura em espectador — e,
pior, em espectador impotente. Alain percebe a decadência burguesa, percebe a
vacuidade da retórica revolucionária, percebe a falsidade dos gestos de
amizade; mas nada pode fazer senão registrar silenciosamente o que vê. Sua
lucidez, que poderia ser força, torna-se estorvo: ele entende demais e, por
isso mesmo, já não acredita em nada.
Há uma relação íntima entre essa impotência e o mal-estar diagnosticado na
clínica. Se a instituição de Versailles administra a doença sem curá-la, o
intelectual moderno, representado por Alain, administra a lucidez sem
transformá-la em obra. Ele já não escreve porque intui que as palavras perderam
seu poder de repercussão; já não age porque percebe que a ação, esvaziada de
transcendência, converte-se apenas em desempenho social. Seu desdém pelo mundo
moderno é sincero, mas estéril: falta-lhe a chama positiva que poderia
reconfigurar o sentido da existência. Drieu vê nesse hiato entre percepção e
ação a grande tragédia interior de sua época — uma tragédia que, no caso de
Alain, desemboca na única decisão em que a ação volta a adquirir densidade: a
escolha da morte.
A
incapacidade de amar e a privação de necessidade
"O amor, a amizade, a arte, a ação — ele tinha tentado de tudo. Mas por
trás de cada coisa, encontrava o mesmo vazio. Era como morder uma fruta cuja
casca cede para descobrir que está podre por dentro."
As relações de Alain com as mulheres — Lydia, Cyrille, Dorothée — revelam-se
menos episódios sentimentais do que espelhos que o devolvem à sua própria
impossibilidade de aderir à vida. Cada uma dessas figuras parece oferecer-lhe
uma forma de ligação possível, e, no entanto, todas fracassam, não por falta de
afeto, mas porque Alain já não consegue crer na realidade de qualquer vínculo.
Lydia, cujo magnetismo é temperado por uma ligeira dureza, surge como a
promessa de uma vida intensa; mas essa promessa o intimida, como se a
vitalidade dela expusesse a sua própria incapacidade de se lançar para fora de
si. Cyrille, com sua leveza tentadora, não é menos inatingível: ela o atrai
justamente por aquilo que lhe escapa, e o sonho de um encontro pleno desfaz-se
no instante em que ele percebe que exigiria de si uma energia interior que não
possui mais. Dorothée, talvez a mais generosa, oferece-lhe um tipo de ternura
que poderia sustentá-lo; mas essa promessa de amparo o envergonha, porque lhe
lembra o quanto perdeu de autonomia e de desejo.
Drieu
mostra, nessas aproximações interrompidas, o mesmo movimento que percorre toda
a vida afetiva de Alain: a oscilação entre a fome de ligação e a recusa de
qualquer laço que o obrigue a permanecer. Ele deseja as mulheres porque, por um
instante, elas lhe dão a ilusão de que a vida ainda pulsa; mas, quando o
encontro se aproxima, um instinto profundo o afasta, como se temesse ser
chamado a recomeçar. O fracasso dessas relações não o conduz ao desespero
dramático, e sim a uma forma mais silenciosa e mais cruel de desistência: a
constatação de que já não há nada nele capaz de responder ao apelo do outro. O
suicídio, nesse sentido, não nasce da dor do abandono, mas da percepção de que
ele mesmo se tornou incapaz de amar e de ser amado. O mundo afetivo não o
rejeita; ele é que, numa espécie de retração interior irremediável, já não
consegue fazê-lo existir.
O mesmo
deserto se revela na relação de Alain com o dinheiro. Herdeiro que não precisa
trabalhar, ele vive numa ociosidade que, longe de significar liberdade,
converte-se em cárcere invisível. A independência financeira, que para muitos
seria promessa de possibilidades, para ele é privação de necessidade — e,
portanto, privação de sentido. O trabalho, que poderia impor-lhe um ritmo, uma
finalidade, uma pertença, é-lhe negado pelo próprio privilégio. Ele se vê
condenado a preencher dias que não pedem nada dele; e essa ausência de
exigência faz com que toda iniciativa pareça arbitrária, desprovida de
justificativa íntima. A vida, sem deveres, torna-se uma sucessão de horas
vazias que ele tenta preencher com álcool, conversas, passeios; mas essas
ocupações não constituem uma forma de ação, apenas um modo de passar o tempo.
Drieu sugere
que há, na ociosidade de Alain, algo semelhante ao que Pascal chamaria de
distração falhada: ele tenta fugir de si mesmo, mas não tem para onde ir. A
fortuna herdada não lhe abre horizontes; ao contrário, fecha-os, pois lhe
retira aquilo que, para muitos, constitui a raiz da dignidade humana — a
necessidade de construir-se na ação. A ausência de trabalho não é privilégio,
mas mutilação: Alain não tem a quem responder, não tem para quem trabalhar, não
tem nada que o solicite. Essa falta de solicitação torna-se insuportável
justamente porque o confronta com o próprio vazio. Ao possuir tudo o que
poderia desejar, ele descobre que aquilo que o salvaria não pode ser comprado:
um impulso interior que já não encontra em si.
Técnica
narrativa e linguagem simbólica
"Ele estava só. De uma solidão não como um rochedo no mar, mas como um
grão de poeira na imensidão do espaço. Não havia mais nenhum elo que o ligasse
a nada nem a ninguém."
A técnica narrativa de Drieu, em Le Feu Follet, opera num regime de
fragmentação que, longe de ser mero artifício formal, expressa a própria
impossibilidade de continuidade interior em Alain. Cada episódio de sua última
jornada surge como um bloco autônomo, uma vibração isolada — quase sempre
interrompida, desviada, perdida antes de alcançar uma plenitude de sentido. O
que poderia parecer um relato linear de errância pela cidade transforma-se, no
entanto, numa espécie de esboço trêmulo da vida interior: não acompanhamos
tanto o percurso de Alain por Paris quanto os escombros de sua consciência, que
se iluminam e se apagam com a mesma instabilidade do feu follet que dá
título ao romance.
Esse procedimento, ao mesmo tempo seco e febril, aproxima Drieu de certas
conquistas do modernismo, embora ele as utilize com uma sobriedade que lhe é
peculiar. A introspecção aqui não se dá pela vertigem da memória involuntária,
como em Proust, mas por uma lucidez que se torna quase intolerável. Em À la
recherche du temps perdu, a consciência mergulha para reencontrar, nas
dobras do passado, a promessa de uma continuidade reparadora; Drieu, ao
contrário, conduz Alain a uma percepção cada vez mais fria e desapiedada de sua
própria ruína. Cada lembrança, quando surge, não abre para a duração, mas
reforça a desagregação: não há madeleine que salve, apenas restos de noites,
mulheres, conversas, todas igualmente incapazes de conferir sentido ao
presente.
Tampouco
encontramos em Drieu a torrente de fluxo mental que caracteriza o monólogo
joyceano. Joyce expõe a mente em sua proliferação, em seu movimento contínuo e
proteiforme; Drieu, ao contrário, trabalha com intervalos, com silêncios, com
aquilo que Alain hesita em confessar até a si mesmo. Se há parentesco entre
eles, é apenas no propósito de deixar a consciência exposta; mas enquanto Joyce
exibe o excesso, Drieu revela a escassez. A mente de Alain não flui: ela se
retrai, se contrai, se recusa a expandir-se. É justamente esse deserto interior
que a fragmentação narrativa torna palpável.
Nesse
sentido, a técnica de Drieu é menos de desordem que de depuração. O que
permanece no texto é somente o essencial do movimento íntimo: hesitações,
frases interrompidas, súbitas percepções de lucidez que incidem sobre o mundo
exterior como lâminas finas. A Paris que Alain atravessa não é um cenário
pleno, mas uma superfície sobre a qual sua consciência projeta sombras e
recuos. A fragmentação estilística não descreve o caos, mas o deserto; não
traduz a confusão, mas a aridez. É um modernismo às avessas, que não busca o
enriquecimento da experiência subjetiva, mas sua desaparição progressiva.
Assim, ao
imergir o leitor na mente perturbada de Alain, Drieu não recorre a
ornamentações introspectivas nem a grandes experimentações formais, mas a um
método rigoroso de decomposição. Cada fragmento é como um sopro de consciência
destinado a extinguir-se no instante seguinte; e é justamente essa sucessão de
apagamentos que nos permite acompanhar Alain até o ponto extremo em que sua
lucidez o obriga a concluir o que a própria vida já não sustenta. A técnica
narrativa não se limita a representar a queda: ela a encena, passo a passo, até
que o leitor se veja conduzido àquele silêncio final que não precisa de
explicação, apenas de aceitação.
Há, em Le
Feu Follet, uma delicadeza de imagens que contrasta com a secura moral do
enredo, e é justamente nesse contraste que Drieu encontra a via para
transformar a história de Alain numa elegia. As metáforas flamejantes que
percorrem o romance — pequenas chamas que vacilam, brilhos súbitos que se
apagam antes de iluminar plenamente, clarões que denunciam mais o vazio ao
redor do que a presença de algo sólido — parecem querer dizer que a vida de
Alain não se desvanece apenas por esgotamento, mas porque jamais encontrou o
combustível necessário para arder por inteiro. O feu follet do título
não é apenas um símbolo, mas uma espécie de figura estrutural: a consciência de
Alain cintila, ilumina por instantes o mundo, depois recua, como se se
envergonhasse de sua própria intensidade.
Drieu, com essa economia de imagens ardentes,
não busca o efeito, mas a justa vibração. Não há exuberância verbal; há, antes,
uma chama fina, tímida, que insiste em se manifestar mesmo quando tudo parece
entregue ao cinza. Alain, caminhando pela noite parisiense, percebe reflexos de
luz nos copos, nos espelhos, nos olhos das mulheres; cada pequeno fulgor é como
um apelo, uma possibilidade de retorno ao mundo. No entanto, esses lampejos não
o aquecem; são clarões frios, incendiando apenas a superfície das coisas. A
imagem do fogo — fogo que nunca se torna chama inteira — exprime essa condição
liminar: Alain está sempre no limiar da vida, sempre à beira de acender-se, mas
condenadamente incapaz de manter-se aceso.
A poesia do romance reside justamente nisso: ao invés de dramatizar a queda,
Drieu acompanha a extinção com uma espécie de respeito silencioso, quase
ritual. As metáforas luminosas que ele emprega não exaltam o personagem, mas
conferem à sua derrota interior um brilho melancólico, como se sua passagem
pelo mundo merecesse, ao menos, uma última cintilação. A narrativa, assim,
torna-se menos uma descrição do suicídio que uma meditação sobre a fragilidade
da presença humana, sobre o instante que se acende e se apaga sem deixar
rastro. O lirismo não redime Alain, mas o envolve num halo que impede que sua
vida seja reduzida ao simples desespero. Há algo de elegíaco nessa chama
vacilante: ela celebra, precisamente por sua brevidade, aquilo que a existência
tem de mais irrecuperável — seu tempo que passa, sua luz que se consome, sua
derradeira chama que, ao extinguir-se, ilumina enfim a verdade de si mesma.
Engajamento político e pulsão de morte
"Ele não se matava por desespero, mas porque tinha concluído seu
raciocínio. A vida era uma equação que ele tinha resolvido. Todos os termos se
anulavam. Restava zero."
O dilema de Alain — essa oscilação dolorosa entre a inércia que o corrói e a
resolução súbita que o conduz ao gesto extremo — só se esclarece plenamente
quando o aproximamos das reflexões ensaísticas de Drieu sobre heroísmo e
decadência. Em vários de seus escritos, Drieu parece perseguir a ideia de que a
modernidade privou o indivíduo daquele impulso vital que ele associa ao
heroísmo: um movimento interior capaz de romper a letargia e conferir direção à
existência. Para Drieu, a decadência não é tanto a perda de força física ou
social, mas o enfraquecimento da vontade, o desgaste da energia que transforma
lucidez em ação. Alain encarna justamente essa forma silenciosa de decadência:
ele vê com dolorosa nitidez o vazio ao seu redor, mas permanece imóvel, como se
cada passo exigisse um esforço que sua alma já não pudesse suportar. E,
contudo, é precisamente essa imobilidade que prepara, paradoxalmente, o gesto
final. O suicídio, no romance, não surge como explosão, mas como cristalização
de um longo processo de paralisia. Há um instante em que Alain parece dizer a
si mesmo que, se a vida não pode ser retomada, ao menos pode ser concluída — e
essa conclusão, por mínima que seja, é ação. Drieu, com sua sensibilidade
ambígua ao heroísmo ferido, faz do suicídio uma decisão terrível, mas límpida,
como um último lampejo de vontade em uma existência esfacelada.
Mas é quase impossível abordar esse romance sem recordar a sombra que a
biografia política de Drieu projeta sobre ele. Seu colaboracionismo durante a
Ocupação transformou-o, para muitos, numa figura maldita, cuja obra seria
inseparável de suas escolhas. Pergunta-se, frequentemente, se Le Feu Follet
pode ser apreciado sem que essa biografia o contamine. A resposta talvez resida
menos na separação do que na distinção. A obra antecede o colaboracionismo e
pertence a uma fase em que Drieu ainda tentava compreender a ruína moral do
continente com instrumentos mais íntimos do que ideológicos. Há uma sinceridade
de ferida, um diagnóstico de exaustão espiritual que não depende de seus
futuros engajamentos, mas que certamente ajuda a explicá-los. Ignorar sua
trajetória política seria empobrecer a leitura; reduzi-lo a ela seria
mutilá-la.
O romance, contudo, possui sua própria respiração, sua própria melancolia, e
esta antecede — talvez até prenuncie — o desvio que viria mais tarde. Ler Le
Feu Follet não exige absolver Drieu nem condená-lo de antemão; exige apenas
reconhecer que sua obra nasce de uma alma que já se sabia à beira de colapso. A
política viria depois, como uma tentativa desesperada de restaurar, pela
ideologia, aquilo que ele não encontrara na vida íntima. Assim, o romance
permanece legível, sim, independentemente das escolhas posteriores do autor;
mas permanece também perigoso lê-lo como se essas escolhas não estivessem, de
algum modo, inscritas na própria textura moral do livro.





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