Entre o Crescimento e o Colapso: Os Riscos Estruturais do Modelo Chinês
Em Red Flags: Why Xi’s China Is in Jeopardy, George Magnus oferece uma análise magistral dos entraves que desafiam a trajetória da China como superpotência global. Com um olhar crítico, o autor disseca as fragilidades econômicas, demográficas e políticas que, sob o comando de Xi Jinping, expõem o país a riscos estruturais profundos. Magnus argumenta que o modelo de “economia de mercado socialista”, alicerçado em crédito abundante, investimentos estatais e exportações, enfrenta obstáculos crescentes na transição para um crescimento sustentado pelo consumo interno, ameaçado por dívidas colossais e ineficiências sistêmicas.
A China, há décadas, tem sido protagonista de uma trajetória de crescimento econômico sem precedentes. Desde as reformas de Deng Xiaoping, nos anos 1980, o país saltou de uma economia agrária e centralmente planejada para se tornar a segunda maior potência econômica do mundo. No entanto, sinais de esgotamento desse modelo vêm se acumulando, revelando desafios estruturais profundos que colocam em xeque a sustentabilidade do crescimento chinês nas próximas décadas.
O setor imobiliário, pilar do milagre econômico chinês, ilustra essa vulnerabilidade. Financiado por crédito fácil, o boom gerou especulação desenfreada e “cidades fantasmas”, enquanto a crise da Evergrande revelou os perigos de uma bolha financeira. Como muitas famílias têm sua riqueza atrelada aos imóveis, a queda nos preços reduz a confiança e o consumo interno, essencial para a nova fase econômica. O endividamento de governos locais, estimado em 92 trilhões de yuans (US$ 12,58 trilhões em 2023), e de empresas estatais (SOEs), que representam 74% do PIB, agrava o quadro. Plataformas de financiamento locais (LGFVs) e o “shadow banking” obscurecem o risco sistêmico, enquanto bancos estatais continuam a sustentar empresas ineficientes, adiando uma crise potencial.
A crise no setor imobiliário é mais do que uma recessão cíclica: é um sintoma de desequilíbrios estruturais e de um modelo esgotado de crescimento baseado em investimentos intensivos e especulação com ativos reais.
As SOEs, embora estratégicas, representam um calcanhar de Aquiles também abordado no estudo de Magnus. Sua baixa produtividade e acesso privilegiado a crédito drenam recursos que poderiam impulsionar o setor privado. Empresas como Yongcheng (carvão) e Huachen (automotivo) exemplificam as “empresas zumbis”, mantidas por empréstimos estatais apesar de prejuízos. A iniciativa “Made in China 2025” pressionou SOEs como a Tsinghua Unigroup a investir em semicondutores, acumulando dívidas insustentáveis. Paralelamente, a repressão ao setor privado, com multas a gigantes como Alibaba e restrições a bilionários como Jack Ma, reflete a priorização do controle estatal sobre a inovação, sufocando o empreendedorismo.
A tentativa da China de migrar para um modelo mais tecnológico e industrialmente sofisticado, por meio do plano Made in China 2025, busca romper com a dependência da produção de baixo valor agregado e posicionar o país como líder em áreas como robótica, semicondutores e inteligência artificial.
Entretanto, essa transição enfrenta obstáculos significativos tanto no plano doméstico quanto no cenário internacional. Internamente, a China ainda não consolidou um ecossistema de inovação verdadeiramente autônomo e pujante, com muitas de suas empresas permanecendo dependentes de tecnologias estrangeiras, especialmente nos setores de ponta. No exterior, o país lida com crescentes tensões comerciais com o Ocidente, que enfraquecem seu tradicional modelo orientado à exportação.
Nesse contexto, Pequim tem recorrido de forma cada vez mais sistemática a sanções comerciais retaliatórias como instrumento de pressão geopolítica. Após a exclusão da Huawei da infraestrutura de 5G australiana, por exemplo, o governo chinês impôs tarifas de até 218% sobre vinhos australianos. Medidas similares foram aplicadas ao Canadá, com restrições às exportações agrícolas após a prisão de Meng Wanzhou em 2018, e ao Japão, que enfrentou barreiras à exportação de frutos do mar após a liberação controlada de água da usina de Fukushima. Já a Coreia do Sul sofreu controles rígidos sobre materiais semicondutores em resposta ao alinhamento com as restrições tecnológicas impostas pelos EUA.
Esses episódios revelam como a China vem instrumentalizando o comércio internacional para fins políticos, o que, embora fortaleça sua postura assertiva, também acirra a desconfiança de potenciais parceiros estratégicos e compromete sua capacidade de manter competitividade global.
Outro ponto crítico é o perfil demográfico da China. O país enfrenta um envelhecimento acelerado da população. A força de trabalho encolhe, enquanto a população idosa aumenta, pressionando o sistema previdenciário e reduzindo o dinamismo do consumo. Isso coloca a China diante do chamado “pico de crescimento”, um momento no qual o bônus demográfico se transforma em fardo estrutural. Diferentemente de economias desenvolvidas que envelheceram depois de enriquecer, a China corre o risco de envelhecer antes de alcançar a plena renda per capita, o que limita sua capacidade de sustentar um crescimento seguro no futuro.
O envelhecimento populacional, um legado da política do filho único (1979-2015), compromete os anseios do Partido Comunista. Com a população diminuindo desde 2023, a China projeta que 30% de seus cidadãos terão mais de 60 anos até 2050, pressionando sistemas previdenciários e reduzindo a força de trabalho. A estrutura familiar “4-2-1” (quatro avós, dois pais, um filho) eleva a pressão para poupar, limitando o consumo. A superpopulação masculina, com 34 milhões de homens a mais, fruto de abortos seletivos, dificulta a formação de famílias, gerando tensões sociais e aberrações morais, como o tráfico de mulheres, um “mercado clandestino” acessado por poucos abastados.
Diante das fragilidades estruturais de sua economia e das incertezas externas que limitam o modelo de crescimento vigente, o governo chinês, sob Xi Jinping, tem promovido uma inflexão significativa também no plano político e institucional. Xi Jinping promoveu uma ruptura com a liberalização de líderes como Deng Xiaoping e Hu Jintao. A campanha anticorrupção iniciada em 2012, a maior da história, removeu milhares de oficiais, mas também eliminou rivais políticos, consolidando o poder de Xi. Sua visão, incorporada na Constituição como “Pensamento de Xi Jinping”, e a abolição do limite de mandatos reforçam um centralismo sem precedentes desde Mao Tsé-Tung.
A repressão se intensifica com vigilância digital: 600 milhões de câmeras de reconhecimento facial e o Sistema de Crédito Social monitoram cidadãos, punindo comportamentos “indesejáveis” com restrições a viagens e crédito. Em Xinjiang, a população uigur enfrenta detenções em massa baseadas em IA, enquanto Hong Kong perdeu autonomia após os protestos de 2019.
A censura na internet e a autocensura generalizada criam um clima de conformismo e atravancam a liberdade de expressão, trazendo consequências para a liberdade acadêmica — indispensável para uma nação que pretende tornar-se referência em inovação. A fuga de talentos agrava o problema: em 2023, 1,1 milhão de estudantes chineses estavam no exterior, muitos optando por não retornar, atraídos por melhores oportunidades. Embora a diáspora de 60 milhões desempenhe um papel econômico — em tese, um intercâmbio de conhecimentos — e de soft power, a perda de pesquisadores em áreas como IA e semicondutores prejudica setores estratégicos. Um relatório de 2022 mostrou que 30% dos especialistas em IA nos EUA são de origem chinesa, mas poucos regressam.
Essa guinada autoritária compromete a confiança de investidores e o dinamismo do setor privado. O ambiente de negócios torna-se mais imprevisível, com decisões muitas vezes orientadas por prioridades políticas em detrimento da racionalidade econômica. A crescente vigilância sobre dados, o controle de capitais e a perseguição a dissidentes enfraquecem a capacidade de inovação e a integração plena com o mercado global.
A desigualdade regional é outro desafio. Enquanto as províncias costeiras, como Guangdong, Jiangsu e Zhejiang, acumulam riqueza, atraem investimentos estrangeiros e se destacam em setores de alta tecnologia, vastas regiões do interior permanecem estagnadas, com infraestrutura deficiente, menor acesso a serviços públicos e baixa produtividade. Essa assimetria não apenas compromete a coesão territorial, mas também impõe um custo econômico crescente ao Estado, que precisa constantemente intervir para sustentar financeiramente províncias endividadas e com pouca autonomia fiscal.
Essas regiões menos desenvolvidas, muitas vezes dependentes de projetos de investimento público ineficientes, tornaram-se altamente vulneráveis ao endividamento por meio de veículos de financiamento locais (LGFVs). A falta de coordenação entre os níveis de governo e a ausência de mecanismos eficazes de avaliação de impacto agravam o desperdício de recursos, alimentando tensões políticas e sociais entre regiões beneficiadas e negligenciadas pelo progresso econômico.
O economista George Magnus observa que, sem reformas profundas para corrigir esses desequilíbrios, a China corre o risco de seguir o mesmo caminho do Japão nos anos 1990 — entrando em um ciclo de crescimento estruturalmente lento, marcado por estagnação, deflação e baixa confiança empresarial.
Red Flags é uma obra essencial. Sua análise, embasada em dados abundantes e conduzida por narrativas precisas, desafia a noção amplamente difundida de uma China invencível, expondo contradições estruturais que podem limitar, ou mesmo inviabilizar, sua trajetória rumo à liderança global. A leitura do livro é indispensável para aqueles que desejam compreender, sem reducionismos, as complexidades que definem a segunda maior economia do mundo e os riscos internos e externos que moldarão seu futuro geopolítico.
É particularmente relevante em um contexto em que parte da análise geopolítica brasileira tem sido marcada por projeções apressadas e enviesadas. Muitos analistas domésticos, motivados por simpatias ideológicas ou antipatias geoestratégicas, apostam de forma acrítica na inevitável superação dos Estados Unidos pela China, ignorando os profundos desafios institucionais, econômicos e sociais enfrentados pelo modelo chinês. Tal perspectiva, desprovida de rigor analítico, reduz a complexidade do cenário internacional a uma dicotomia simplista, negligenciando os obstáculos que tornam o projeto de hegemonia chinesa, ao menos por ora, uma construção frágil — mais próxima de uma miragem do que de um desfecho inevitável.


Comentários
Postar um comentário