Modernização Fracassada: O Ressentimento Coletivo Como a Raiz do Terrorismo Islâmico


Em A Crise do Islã, Bernard Lewis traça um panorama histórico das relações entre o mundo islâmico e o Ocidente, buscando compreender as origens dos conflitos contemporâneos. Segundo o autor, o Islã foi, durante séculos, uma das civilizações mais poderosas e influentes do mundo, expandindo-se rapidamente após o século VII. Durante esse longo período, o Ocidente ocupava uma posição de relativa inferioridade.

 

Essa dinâmica começou a mudar a partir do século XVII, quando a Europa passou a se destacar pelos avanços científicos, econômicos e militares. O Império Otomano e outras potências islâmicas perderam força, gerando um sentimento de humilhação e ressentimento em parte do mundo muçulmano. Lewis aponta que esse declínio foi interpretado de maneiras diversas: alguns o atribuíram à decadência espiritual interna e ao afastamento dos preceitos religiosos; outros culparam a interferência ocidental, marcada pela colonização, pela imposição de valores e pelo apoio a regimes autoritários.

 

O autor argumenta que o conflito entre o Islã e o Ocidente não se resume ao campo político, mas envolve profundas tensões culturais e religiosas. A ascensão do terrorismo jihadista, nesse contexto, deve ser compreendida como fruto desse antagonismo histórico, agravado pelo fracasso de projetos de modernização secular - como o nacionalismo árabe e o pan-arabismo - que, inspirados no modelo ocidental, não conseguiram atender às expectativas de progresso e autonomia. Isso levou amplos setores da população a buscar soluções na fé e a abrir espaço para a ascensão de movimentos fundamentalistas.



 Lewis analisa ainda o ressurgimento da jihad em sua forma clássica, como guerra santa, agora reinterpretada por grupos radicais para justificar ataques ao Ocidente e a muçulmanos vistos como traidores. O autor dedica atenção à influência de intelectuais islamistas como Sayyid Qutb, cuja visão de enfrentamento total contra a "corrupção ocidental" moldou ideologicamente movimentos como a Al-Qaeda. Qutb teve seu pensamento amplificado por seguidores como Ayman al-Zawahiri, mentor de Osama bin Laden, contribuindo para a consolidação de um discurso extremista que atravessa fronteiras e desafia os esforços de diálogo e compreensão mútua.

 

Tradicionalmente, jihad no pensamento islâmico possui significados múltiplos. A chamada "maior jihad" refere-se ao esforço espiritual interno do muçulmano para aprimorar-se moral e religiosamente. Já a "menor jihad" é entendida como a luta armada legítima, voltada à defesa da fé e submetida a regras éticas rigorosas.

 

No entanto, Lewis mostra que grupos islamistas contemporâneos, como a Al-Qaeda, deturparam esse conceito, eliminando suas nuances. Para essas organizações, a jihad foi transformada em uma guerra total - não apenas contra o Ocidente, mas também contra muçulmanos considerados traidores ou apóstatas. O autor destaca que essa nova forma de jihad se afasta radicalmente da tradição islâmica clássica, tornando-se uma expressão de ódio político disfarçado sob uma retórica religiosa.



 Lewis observa ainda que a ausência de uma autoridade central no Islã facilita que qualquer grupo radical se autoproclame representante legítimo da fé e utilize o discurso religioso para justificar ações terroristas. Nesse contexto, o terrorismo moderno deixa de ser apenas uma tática política e passa a ser parte de uma visão messiânica, na qual o mundo islâmico deve ser "purificado" e o Ocidente, eliminado.

 

Para o autor, essa reinterpretação extremista da jihad rompe com as tradições históricas do Islã e é um fenômeno essencialmente moderno e alimentado por ressentimentos sociais, falhas políticas e tensões geopolíticas. Lewis conclui que compreender essa transformação é fundamental para lidar com os desafios do terrorismo contemporâneo e para separar o Islã tradicional da violência praticada em seu nome.

 

Outro aspecto discutido no livro é a subestimação do papel fundamental da religião no mundo islâmico, particularmente em relação aos movimentos islamistas e ao islamismo político. Ele argumenta que os formuladores de política externa dos EUA falharam em reconhecer que os movimentos islâmicos não eram apenas grupos políticos, mas também fenômenos profundamente enraizados em uma ideologia religiosa. Essa falta de sensibilidade cultural resultou em uma compreensão inadequada dos objetivos e das estratégias desses movimentos.

 

Lewis destaca que, ao contrário do Ocidente, onde há uma separação entre Igreja e Estado, o Islã tradicionalmente unifica religião, política e direito em um corpo único de normas. O Islã, portanto, sempre foi um sistema totalizante, onde a religião ocupa o centro das estruturas de poder, legislação e identidade coletiva.

 

Lewis também reconhece que, para muitas populações muçulmanas, especialmente as mais marginalizadas, a religião se tornou um símbolo de resistência cultural ao imperialismo ocidental, funcionando como um refúgio identitário diante das humilhações históricas. Ele critica o Ocidente por projetar suas próprias categorias - como secularismo, nacionalismo e racionalismo - sobre sociedades islâmicas, falhando em compreender suas lógicas próprias e fazendo decisões políticas baseadas em premissas equivocadas.


Por fim, Lewis argumenta que o radicalismo islâmico não pode ser entendido apenas a partir de fatores econômicos ou políticos, pois o Islã é mais do que um conjunto de crenças individuais; é uma estrutura de poder e identidade coletiva. O autor sugere que a radicalização islâmica se fortaleceu com a reinterpretação da jihad como uma chamada à violência global contra os inimigos do Islã. Para ele, a crise de segurança pós-11 de setembro não pode ser resolvida apenas com medidas militares, sendo necessário um entendimento mais profundo das motivações ideológicas e religiosas dos extremistas.

 

Outro tema de enorme interesse abordado no livro é o fechamento do ijtihad - o processo de livre interpretação do Alcorão e da sharia - e sua relação com as falências das reformas modernizantes nos países islâmicos. Lewis argumenta que essa cessação do questionamento e da interpretação criativa resultou em um dogmatismo teológico que, ao longo dos séculos, impediu a adaptação do Islã às mudanças sociais e políticas, tornando difícil a assimilação do mundo moderno.

 

O autor também examina as tentativas de modernização nos séculos XIX e XX, quando vários países islâmicos tentaram adotar modelos europeus, como constituições, códigos civis e sistemas educacionais ocidentais. No entanto, essas reformas frequentemente falharam ou foram implementadas de forma superficial, o que gerou desilusão com o Ocidente e fomentou o ressurgimento do fundamentalismo. Lewis observa que, além disso, surgiram tensões internas entre as elites laicizantes, que buscavam a adoção de modelos mais ocidentais, e as populações conservadoras, que defendiam a preservação das tradições islâmicas.


      Sayyid Qutb: pai do salafismo jihadista


Um exemplo clássico dessas tensões é a luta entre as elites laicizantes e as populações conservadoras no Egito durante o governo de Gamal Abdel Nasser. Nasser, ao implementar reformas de modernização e tentar se alinhar ao socialismo, enfrentou a resistência dos setores mais religiosos da sociedade, que viam tais reformas como uma ameaça à identidade islâmica. Outro exemplo ocorre no Irã, onde o xá Pahlavi, durante seu regime autoritário e modernizador, enfrentou uma crescente oposição dos clérigos xiitas e das massas conservadoras, que culminou na Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo aiatolá Khomeini.

 

Embora amplamente lida e influente entre formuladores de políticas, o livro gerou controvérsias significativas devido à sua visão de que o Islã seria inerentemente incompatível com a modernidade ocidental. A obra foi, assim, instrumentalizada politicamente por neoconservadores para justificar intervenções militares, como a Guerra do Iraque, e reforçar discursos belicistas.

 

Críticos apontam que, ao tratar o Islã de forma essencialista, Lewis acabou alimentando uma visão reducionista, que não leva em conta as múltiplas correntes e interpretações dentro da religião. Para alguns, sua análise contribuiu para a polarização e a justificativa de políticas intervencionistas no mundo muçulmano. Por outro lado, o livro também foi considerado uma ferramenta útil para jornalistas, formuladores de políticas e leitores alinhados ao espectro liberal-conservador, que o utilizaram para tentar entender o terrorismo islâmico e os desafios enfrentados pelo mundo islâmico na busca por sua identidade no cenário global.

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