Da Dissimulação à Assertividade: As Fases da Grande Estratégia Chinesa Para a Reconfiguração da Ordem Mundial




Em The Long Game: China’s Grand Strategy to Displace American Order, publicado em 2021 pela Oxford University Press, Rush Doshi entrega uma análise monumental, exaustivamente pesquisada e indispensável para compreender não apenas a ascensão estratégica da China, mas também o redesenho silencioso da geopolítica global que acompanha o despertar de uma civilização antiga.

O livro destaca-se pela precisão de sua metodologia e pela lucidez com que traduz o cálculo estratégico de Pequim em termos inteligíveis ao leitor ocidental. Doshi constrói sua narrativa com o rigor de um acadêmico e a sensibilidade de um historiador, costurando um mosaico de fontes primárias — discursos, relatórios, atas partidárias e artigos internos — que revelam o funcionamento íntimo de uma potência que pensa em séculos, não em mandatos eleitorais.

Essas fontes, muitas das quais raramente vistas no Ocidente, provêm do núcleo mais fechado do Partido Comunista Chinês (PCC): discursos de Deng Xiaoping, Jiang Zemin, Hu Jintao e Xi Jinping, documentos internos do Congresso Nacional do Povo, planos quinquenais que funcionam como mapas de ambição nacional, relatórios estratégicos de think tanks estatais, editoriais do People’s Daily e textos acadêmicos traduzidos diretamente do mandarim. Essa base documental confere à obra uma densidade rara — uma voz que soa como a própria China falando por si mesma, sem o filtro da interpretação ocidental.

A tese central de Doshi é direta, ainda que profundamente perturbadora: a China não é uma potência emergente em busca de reconhecimento, mas uma civilização em marcha, conduzida por uma grande estratégia de longo prazo que busca, primeiro, consolidar sua hegemonia no Indo-Pacífico e, depois, remodelar a ordem mundial segundo parâmetros próprios. Essa nova ordem — autoritária em sua essência e hierárquica em sua estrutura — privilegia a soberania estatal, a estabilidade política e o controle centralizado, rejeitando os ideais liberais de democracia, transparência e direitos humanos universais. É uma visão que inverte o paradigma da globalização ocidental: onde o Ocidente vê “liberdade”, Pequim vê “desordem”; onde o Ocidente enxerga “pluralismo”, a China detecta “fragmentação”.

Para Doshi, compreender essa lógica é entender que o poder chinês nasce de uma ferida histórica. O “século de humilhação” (1839–1949) — quando o país foi invadido, dividido e submetido a tratados desiguais — não é apenas um passado distante, mas a matriz psicológica da estratégia contemporânea de Pequim. É o eco das frotas britânicas na Primeira Guerra do Ópio, das tropas japonesas em Nanjing, e da fragilidade de uma nação que foi forçada a aprender a lição da vulnerabilidade. A queda da União Soviética, por sua vez, reforçou o alerta: o poder que se expõe em confronto direto com o Ocidente, ou que liberaliza seu sistema político antes de amadurecer economicamente, caminha para o colapso.

Dessa síntese de trauma e prudência emerge o cálculo frio do PCC — uma estratégia paciente, quase confucionista em seu ritmo, que avança passo a passo, disfarçada de pragmatismo econômico, mas movida por um impulso civilizacional de restauração. Pequim explora as distrações de Washington, seus ciclos eleitorais e divisões internas, enquanto ergue, sobre as ruínas da globalização liberal, os alicerces de uma nova ordem centrada em si mesma. Cada porto da Iniciativa Cinturão e Rota, cada investimento em infraestrutura, cada avanço tecnológico sob o lema “Made in China 2025” são degraus em direção ao “rejuvenescimento nacional” — um destino histórico projetado para culminar em 2049, no centenário da fundação da República Popular da China.

A análise de Rush Doshi é estruturada em torno de três fases estratégicas — blunting (1989–2008), building (2008–2016) e expansion (2016–presente) —, cada uma refletindo uma mutação nas percepções do Partido Comunista Chinês (PCC) acerca da balança de poder global, das oportunidades abertas pelas hesitações americanas e das condições internas da própria China. Essas fases, aplicadas às dimensões militar, econômica e político-institucional, revelam uma coerência que transcende conjunturas e administrações: tratam-se de movimentos graduais de uma civilização que pensa em séculos e se prepara, com paciência confuciana e astúcia estratégica, para disputar o controle da modernidade.

A primeira fase, blunting — o enfraquecimento deliberado da influência americana —, corresponde ao período pós-Guerra Fria, uma era de vulnerabilidade e introspecção para Pequim. O trauma de Tiananmen, em 1989, mostrou à liderança comunista que a estabilidade interna poderia ser tão ameaçadora quanto as forças externas. Dois anos depois, o colapso da União Soviética confirmou os temores de Deng Xiaoping: o poder pode se dissipar não por invasão, mas por abertura precipitada. Entre 1989 e 1991, a China viu espelhada na experiência soviética sua própria possível ruína — a de um Estado que liberaliza antes de consolidar seu domínio.

A memória do “século de humilhação” reforçava esse alerta. As Guerras do Ópio, a perda de Hong Kong, a ocupação japonesa e a fragmentação territorial compunham uma narrativa coletiva de suscetibilidade. Por isso, sob Deng, o PCC adotou a máxima taoguang yanghui — “esconder as capacidades e esperar o momento certo” —, um axioma estratégico que ecoa tanto o pragmatismo de Sun Tzu quanto o fatalismo da geografia. A China, cercada por montanhas, mares e potências rivais, não podia se dar ao luxo de uma confrontação prematura.

Durante essa fase de cautela, o regime concentrou-se em um único objetivo: o poder através da prosperidade. As reformas de mercado transformaram o país em uma oficina global, onde o trabalho barato e a disciplina social se combinaram a um Estado meticuloso em planejar sua ascensão. A entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001, foi um marco de integração — mas também de subversão silenciosa. A China inseriu-se na ordem liberal não para aceitá-la, mas para reescrevê-la de dentro. Subsídios estatais, barreiras não tarifárias, manipulação cambial, roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia tornaram-se instrumentos de acumulação nacional disfarçados de comércio legítimo.

Essa combinação de pragmatismo e nacionalismo criou uma forma de capitalismo com características imperiais. A riqueza acumulada financiou um projeto militar de longo alcance, voltado para impedir a supremacia americana no Indo-Pacífico. Foi nesse contexto que surgiram as chamadas “armas do assassino” (shashoujian): sistemas projetados para negar ao inimigo superioridade tecnológica e liberdade de movimento. Mísseis balísticos antinavio, como o DF-21D — o “matador de porta-aviões” —, anunciaram uma era em que a China poderia ameaçar as frotas americanas sem jamais declarar guerra. Estratégias de antiacesso/negação de área (A2/AD) transformaram o Mar do Sul da China em um labirinto defensivo de minas, submarinos e radares — um tabuleiro invisível de contenção.

O teste antisatélite de 2007, que espalhou milhares de fragmentos de metal pelo espaço, foi mais que uma demonstração de força: foi uma mensagem ao Pentágono de que o domínio americano sobre o espaço — e, por consequência, sobre a guerra moderna — poderia ser temporário. A China não precisava vencer uma guerra, apenas tornar a vitória americana impossível. Essa era a essência do blunting: dissuadir, desorientar, sobreviver.

Politicamente, a China projetava serenidade. Reintegrou Hong Kong em 1997 e Macau em 1999, reforçando a narrativa da recuperação da soberania nacional, enquanto mantinha Taiwan como a ferida aberta do projeto de reunificação. No plano externo, avançou com discrição, tecendo uma rede de alianças econômicas na Ásia Central, na África e na América Latina. Com promessas de investimentos sem exigências políticas, Pequim oferecia aos regimes pós-coloniais o que o Ocidente já não podia oferecer: respeito e recursos sem sermões sobre democracia.

A expansão chinesa na África — estradas na Etiópia, ferrovias no Quênia, barragens na Nigéria — foi, como descreve Kaplan em seus ensaios sobre impérios antigos, menos um gesto econômico e mais uma projeção civilizacional. A China não coloniza; ela conecta, financia, constrói e espera. Em troca, obtém acesso a petróleo, minerais raros e terras férteis, ao mesmo tempo em que molda a paisagem política de continentes inteiros. Assim, o blunting não foi um recuo, mas o prólogo silencioso de uma ofensiva que se tornaria global.

A segunda fase, a do building (construção, 2008–2016), foi catalisada pela crise financeira global de 2008 — um abalo sísmico que expôs as fragilidades ocultas das economias ocidentais e abriu fendas profundas na confiança americana. Para a China, foi o momento da revelação: o Ocidente, outrora o centro inconteste da modernidade, mostrava sinais de cansaço estrutural. O Partido Comunista Chinês (PCC) leu o colapso financeiro não apenas como um acidente econômico, mas como um prenúncio civilizacional — o indício de que o poder americano entrava em declínio relativo. A partir daí, a China começou a agir com a paciência estratégica de uma civilização que mede o tempo em dinastias, não em décadas.

Essa mudança marcou o fim da discrição estratégica e o início da construção ativa de poder: a edificação de novas arquiteturas institucionais, econômicas e militares destinadas a deslocar o eixo da ordem mundial. A Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), lançada em 2013, foi a expressão visível dessa ambição. Trata-se de uma teia colossal de infraestrutura que conecta mais de 140 países — pontes de concreto, portos de águas profundas, trilhos, gasodutos e cabos de fibra óptica — compondo um vasto sistema circulatório cujo coração pulsa em Pequim. Por trás das rotas e ferrovias, há algo mais: um redesenho silencioso das dependências globais, uma reconfiguração das cadeias de suprimento em torno do império manufatureiro chinês.

A BRI não é apenas um projeto econômico, mas uma declaração geopolítica. O Corredor Econômico China–Paquistão (CPEC), com seu acesso ao porto de Gwadar, às margens do Mar da Arábia e próximo ao Golfo Pérsico, projeta o alcance chinês sobre uma das regiões mais sensíveis do planeta. O porto de Hambantota, no Sri Lanka, arrendado à China por 99 anos após o não pagamento de dívidas, é outro símbolo: um ponto fixo em um mapa cada vez mais dominado por linhas vermelhas de influência. É o que críticos chamam de diplomacia da dívida, mas o termo é insuficiente para capturar a magnitude do que está em jogo — trata-se de uma nova arte de poder, na qual o crédito substitui as tropas, e as rodovias valem mais que os canhões.

Essas artérias econômicas criam dependências que se transmutam em influência política. Djibouti, no Chifre da África, tornou-se a primeira base militar chinesa no exterior, uma sentinela sobre o estreito de Bab el-Mandeb, onde o Mar Vermelho se afunila rumo ao Canal de Suez — uma das rotas mais estratégicas do planeta. Nas Maldivas, os investimentos chineses transformaram ilhas tropicais em pontos de ancoragem política. Em cada caso, o mapa da influência se adensa e o da liberdade de manobra dos EUA se contrai.

O outro pilar dessa fase foi a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), em 2015. Com ele, a China desafiou o monopólio financeiro do Ocidente, atraindo países como Reino Unido, Austrália, Alemanha, Coreia do Sul e Canadá — todos aliados tradicionais dos EUA — para um projeto que Washington tentou, em vão, dissuadir. O AIIB simboliza a astúcia diplomática de Pequim: oferece crédito sem exigências políticas, sem pregar reformas democráticas ou exigir transparência. Para muitos países em desenvolvimento, cansados das condicionalidades do Banco Mundial e do FMI, essa neutralidade aparente soa como libertação.

A consolidação da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), reunindo Rússia, Índia, Paquistão e os países da Ásia Central, ampliou o escopo dessa nova teia de poder. Enquanto a OTAN representa o legado militar da ordem liberal, a SCO é o embrião de uma geopolítica pós-ocidental — uma estrutura flexível, menos ideológica, mas não menos ambiciosa.

No campo militar, o Exército de Libertação Popular (ELP) começou a se modernizar com intensidade inédita. A frota naval chinesa expandiu-se rapidamente, com destroyers, fragatas, submarinos nucleares e o porta-aviões Liaoning, símbolo do renascimento marítimo chinês. No Mar do Sul da China, Pequim ergueu ilhas artificiais e as transformou em fortalezas — pistas de pouso, radares, mísseis, sistemas antiaéreos — tudo meticulosamente posicionado para negar acesso e projetar poder. É uma cartografia de ambição: recifes transformados em bases, mares inteiros convertidos em zonas de exclusão. Quando, em 2016, o Tribunal de Haia rejeitou as reivindicações chinesas, Pequim ignorou o veredito — um gesto que ecoa a autoconfiança de uma potência que já não pede licença à ordem internacional.

Paralelamente, a China avançou em direção à autossuficiência tecnológica. Com o plano Made in China 2025, lançado em 2015, o país delineou seu caminho para dominar setores estratégicos — semicondutores, inteligência artificial, 5G, computação em nuvem e vigilância digital. Empresas como Huawei, ZTE e Hikvision emergiram como símbolos de uma modernidade autoritária, exportando não apenas tecnologia, mas também um modelo de controle social embutido em códigos e algoritmos. Ao mesmo tempo, preparavam o país para resistir a sanções como as impostas à Huawei em 2019.

A terceira fase, a do expansion (2016–presente), sob a liderança consolidada e quase imperial de Xi Jinping, marca a passagem da paciência estratégica para a afirmação desinibida do poder. A China deixa de apenas reagir à ordem mundial e começa a moldá-la à sua própria imagem. O desafio à liderança global americana torna-se direto e irreversível. A era de Xi é, como escreve Doshi, o ponto de inflexão em que a China se vê não mais como potência emergente, mas como herdeira legítima de um destino civilizacional — uma potência que projeta seu alcance do Mar da China Meridional ao Golfo Pérsico, do Chifre da África ao Ártico.

No Mar do Sul da China, a militarização intensificou-se a um ponto de não retorno. Ilhas artificiais, outrora recifes esquecidos, tornaram-se bastiões fortificados, repletos de pistas de pouso, radares e mísseis. Submarinos nucleares e porta-aviões patrulham águas disputadas que se tornaram o epicentro da nova rivalidade entre as grandes potências. Cada manobra naval é agora uma coreografia de intimidação, um lembrete de que Pequim está disposta a testar a determinação americana — e, ao fazê-lo, medir a profundidade da decadência ocidental.

No coração dessa expansão está Taiwan — não apenas uma ilha, mas um símbolo. Xi Jinping descreveu a reunificação como uma “missão histórica” e “inegociável”. Taiwan representa o fim do “século de humilhação” e o renascimento de uma China indivisa, autônoma e centralizada. O primeiro arco insular, que se estende do Japão às Filipinas, é a muralha geográfica que separa o poder marítimo americano da ambição continental chinesa. Controlar Taiwan é romper essa muralha, abrir caminho para o Pacífico e projetar o poder naval chinês até as ilhas Marianas. O Estreito de Taiwan, por onde circula boa parte do comércio global de semicondutores, é, portanto, mais que uma rota — é a veia jugular da economia tecnológica do planeta.

Mas o mesmo símbolo que inspira a ascensão chinesa também encerra o risco de sua catástrofe. Um conflito por Taiwan poderia se transformar em uma guerra direta com os Estados Unidos — uma guerra que, como observa Doshi, testaria os limites do sistema internacional. Washington, amparado pelo Taiwan Relations Act de 1979, continua a prover Taipei com caças F-16, sistemas antimísseis Patriot e treinamento militar. O equilíbrio é tênue, sustentado por décadas de ambiguidade estratégica, que se torna cada vez mais difícil de manter diante da assertividade chinesa.

Economicamente, a China aprofundou a lógica do Made in China 2025, buscando não apenas competir, mas dominar as tecnologias que definirão o século XXI: inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, 5G, biotecnologia e veículos elétricos. Empresas como Huawei, ZTE, SMIC, BYD e DJI são as pontas de lança dessa cruzada tecnológica. As sanções americanas — como as restrições ao acesso aos chips da TSMC ou ao software da Google — apenas reforçaram a percepção de que o futuro da soberania reside na autossuficiência tecnológica. A disputa entre Washington e Pequim é, nesse sentido, uma luta pelo controle das infraestruturas invisíveis da modernidade.

A criação da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) em 2020 consolidou esse projeto de reordenação. Reunindo 15 países da Ásia-Pacífico — entre eles aliados tradicionais dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Austrália — a RCEP tornou-se o maior bloco comercial do mundo. Ao reduzir tarifas e harmonizar regras, ela tece uma teia de interdependência econômica centrada na China, substituindo a TPP abandonada por Washington em 2017. Enquanto os Estados Unidos se retraíam para dentro de si, a China ocupava o vácuo — discretamente, mas com método.

No campo diplomático, emergiu uma nova persona chinesa: a da “diplomacia do lobo guerreiro”. Em fóruns internacionais, nas redes sociais e nas conferências de imprensa, embaixadores como Zhao Lijian e Hua Chunying projetam um nacionalismo inflamado, uma confiança quase teatral. A retórica é dura, o tom desafiante, e a mensagem clara: a China não aceitará ser instruída pelo Ocidente. Essa postura responde não apenas a críticas sobre Xinjiang — onde mais de um milhão de uigures foram internados em campos de reeducação — ou sobre Hong Kong, onde a Lei de Segurança Nacional de 2020 desmantelou a autonomia política, mas a um ressentimento histórico que vê nas acusações ocidentais ecos do imperialismo passado.

A mídia estatal — CGTN, Xinhua, Global Times — opera como instrumento de projeção ideológica global, enquanto plataformas digitais como WeChat, Weibo e TikTok disseminam narrativas alinhadas ao Partido. O controle informacional, sempre um reflexo do poder interno, torna-se também um instrumento de política externa. Ao mesmo tempo, a China expande sua presença nas instituições multilaterais: ocupa cargos estratégicos na OMS, na ITU, e bloqueia resoluções críticas na ONU, apoiando o princípio de soberania absoluta e não interferência — valores que ressoam entre regimes autoritários e países céticos quanto à retórica liberal dos direitos humanos.

O modelo chinês, exportado por meio da tecnologia, oferece um tipo novo de influência. Sistemas de vigilância com reconhecimento facial, câmeras de “cidades seguras” e softwares de monitoramento social, vendidos a governos da África, América Latina e Sudeste Asiático, estendem o alcance do autoritarismo digital. Empresas como Hikvision e Dahua não vendem apenas equipamentos, mas a promessa de estabilidade — a ideia de que o controle pode substituir a liberdade sem comprometer o progresso. A China, assim, propõe não apenas uma ordem geopolítica alternativa, mas uma civilização de vigilância, na qual o Estado observa tudo e o cidadão se torna previsível.

Um dos conceitos mais reveladores no livro é o de poder estrutural — uma forma de poder silenciosa, mas implacável, que molda o ambiente no qual os outros estados são obrigados a se mover. Rush Doshi o define como a capacidade de projetar influência não por coerção nem por barganha, mas pela configuração das próprias estruturas, normas e instituições que regem o sistema internacional. É um poder que opera no subsolo da geopolítica, invisível à vista imediata, mas decisivo no longo prazo. Diferentemente do poder militar, que força a obediência e provoca resistência, ou do poder econômico, que compra lealdades de modo efêmero, o poder estrutural cria dependências mentais e institucionais — torna a influência parte da paisagem, tão natural quanto o relevo que molda os rios.

A China busca precisamente isso: não apenas vencer disputas, mas reescrever o código do sistema global. Cria instituições alternativas — o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) dos BRICS e a monumental Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) — que oferecem uma nova cartografia do poder. São estruturas que funcionam como vasos comunicantes de uma ordem paralela, onde países do Sul Global encontram capital, legitimidade e acolhimento sem as exigências morais do Ocidente. Nelas, não há condicionantes sobre direitos humanos, nem pressões por reformas democráticas. Há pragmatismo, continuidade e a promessa de estabilidade — valores que ecoam profundamente em regimes autoritários e economias frágeis.

O poder estrutural chinês não se limita à economia. Ele se manifesta também em táticas graduais, como o salami slicing no Mar do Sul da China — avanços pequenos, cumulativos e quase imperceptíveis, que evitam o choque direto, mas resultam em ganhos permanentes. O país constrói e militariza ilhas artificiais em recifes disputados como Fiery Cross e Mischief Reef, estabelecendo, fragmento a fragmento, uma nova realidade estratégica. Nenhum passo é grande o bastante para provocar uma resposta militar americana, mas o conjunto altera a geografia do poder marítimo. O mapa, mais uma vez, é destino: controlar o mar é controlar o comércio; controlar o comércio é controlar o tempo.

Essa estratégia de “avançar sem alarde” ilustra o modo como o Partido Comunista Chinês entende o poder — não como uma explosão de força, mas como o lento deslizamento das placas tectônicas da história. O ganho é cumulativo, e a vitória, quando chega, parece inevitável. O resultado é uma nova geopolítica da influência, construída não com exércitos, mas com acordos e dívidas; não com tratados públicos, mas com dependências silenciosas.

Ao mesmo tempo, a China articula uma narrativa ideológica poderosa: a da soberania absoluta e da não interferência. Essa mensagem encontra eco entre países do Sul Global, cansados do que percebem como o moralismo seletivo do Ocidente. Intervenções militares no Oriente Médio, sanções econômicas unilaterais e imposições de instituições como o FMI reforçam a percepção de que as normas liberais são apenas instrumentos de poder travestidos de universalismo. Pequim oferece uma alternativa — um modelo de estabilidade sem democracia, de crescimento sem liberdade.

Essa alternativa se projeta também pela tecnologia. A exportação de sistemas de vigilância, redes de “cidades seguras” e algoritmos de reconhecimento facial se tornou um novo vetor de poder. No Zimbábue, a tecnologia chinesa é usada para monitorar opositores políticos; na Venezuela, alimenta o sistema de “carteira da pátria”, que controla o acesso a benefícios sociais; no Paquistão, vigia as zonas urbanas em nome da segurança. Essas ferramentas, fornecidas por empresas como Hikvision e Dahua, consolidam o controle interno e criam uma dependência tecnológica que vincula governos autoritários à China em um pacto tácito de estabilidade e vigilância.

A influência chinesa, assim, torna-se estrutural no sentido mais profundo: ela redefine o próprio conceito de governança. Ao promover um modelo baseado na estabilidade estatal, na eficiência econômica e no controle político, Pequim desloca o eixo moral do sistema internacional. O que antes era visto como exceção — o autoritarismo eficaz — começa a parecer uma alternativa legítima à democracia liberal.

Doshi observa que a resposta americana à ascensão da China foi, em grande medida, um exercício de hesitação estratégica — uma sucessão de reações improvisadas, marcadas por otimismo ingênuo e falta de coesão interna. Desde o fim da Guerra Fria, Washington acreditou que abrir as portas da ordem liberal transformaria Pequim em um parceiro responsável. Essa crença, cultivada por administrações de Nixon a Clinton e Bush, repousava sobre a “hipótese do engajamento”: a ideia de que prosperidade econômica e exposição às normas ocidentais criariam, inevitavelmente, uma China democrática. Foi um erro de leitura monumental. O Partido Comunista Chinês não apenas resistiu à liberalização, mas utilizou a globalização como instrumento para fortalecer seu autoritarismo, moldando o capitalismo às suas próprias necessidades políticas.

A entrada da China na OMC em 2001 — celebrada em Washington como o triunfo da modernidade liberal — foi, na verdade, o ponto de inflexão que acelerou a transferência de riqueza, tecnologia e capacidade industrial do Ocidente para o Oriente. O regime chinês combinou subsídios estatais, manipulação cambial e barreiras comerciais em um projeto calculado de reengenharia econômica global. As fábricas americanas fecharam; os cinturões industriais tornaram-se desertos de concreto, enquanto megacidades chinesas floresciam às margens do Pacífico.

O “pivô para a Ásia”, proclamado por Obama, buscou corrigir essa assimetria. Era, em teoria, uma tentativa de reposicionar o poder americano no Indo-Pacífico — a nova arena decisiva da civilização global. O TPP seria o eixo econômico desse esforço, e as alianças com Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas e Vietnã, seu contrapeso estratégico. Mas o projeto morreu da mesma doença que tem afligido o império americano desde o Vietnã: fadiga imperial, divisões internas e uma opinião pública avessa a compromissos duradouros. Enquanto os EUA sangravam no Oriente Médio, a China fincava estacas no Mar do Sul, construindo ilhas e portos que funcionam como muralhas de uma nova ordem marítima.

Com Trump, a América trocou o idealismo pela retórica da competição. A Estratégia de Segurança Nacional de 2017 nomeou a China, finalmente, como aquilo que ela é: um “competidor revisionista”. Tarifa após tarifa, sanção após sanção, Washington tentou conter a máquina econômica chinesa. Mas a retirada da TPP, o isolacionismo econômico e a alienação de aliados minaram qualquer tentativa de formar uma frente coerente. A China, por sua vez, respondeu ampliando a RCEP, consolidando-se como o eixo comercial da Ásia.

Sob Biden, o tom mudou, mas a inquietação permaneceu. A Casa Branca busca reconstruir alianças e projetar uma imagem de cooperação democrática. O pacto AUKUS, com submarinos nucleares para a Austrália, e o Quad, com Japão, Índia e Austrália, expressam essa nova arquitetura de contenção. A iniciativa Build Back Better World pretende rivalizar com a Belt and Road, oferecendo infraestrutura sustentável em troca de influência moral. Mas boas intenções não constroem portos, e promessas não dragam canais: a BRI continua avançando, financiada por capitais rápidos e pragmatismo sem moralismo.

Washington tenta também travar a batalha invisível da tecnologia. O controle de semicondutores tornou-se o novo petróleo da era digital. O CHIPS and Science Act injeta bilhões em pesquisa e produção doméstica, enquanto alianças com Taiwan, Coreia do Sul e Japão — os vértices do “Chip 4” — buscam limitar o alcance chinês. A contenção agora se dá não com divisões blindadas, mas com cadeias de suprimento, códigos quânticos e satélites de vigilância.

Para Doshi, a sobrevivência da primazia americana depende de três pilares: um sistema robusto de alianças no Indo-Pacífico, investimento maciço em inovação tecnológica e a reafirmação moral dos valores liberais — democracia, direitos humanos e liberdade. Sem esses fundamentos, o século XXI será moldado não pela visão idealista de Wilson ou Roosevelt, mas pelo realismo paciente e disciplinado de uma civilização milenar que entende o tempo como aliado e não como inimigo.

Embora seja uma referência para todos os que buscam compreender o século XXI como um duelo silencioso de paciências, o livro de Rush apresenta algumas limitações importantes. O autor superestima a coesão do projeto chinês, negligenciando o fato de que a China é também um arquipélago de burocracias, facções, interesses regionais e empresas estatais cujas agendas raramente convergem. A execução da Belt and Road Initiative — de Hambantota a Jacarta, de Mombaça a Nairóbi — revela um mosaico de erros: má gestão, corrupção local, resistência popular, endividamento crônico. A muralha chinesa da influência global, quando observada de perto, mostra rachaduras.

Além disso, muitos episódios que o Ocidente lê como manobras calculadas — a repressão em Hong Kong, o caos inicial da COVID-19 em Wuhan, o confronto mortal no Vale de Galwan — podem ser, antes, sinais de improviso e vulnerabilidade. São momentos em que o império se vê confrontado com sua própria inércia administrativa. Em certo sentido, o poder chinês se expande não por sua perfeição, mas por sua escala — uma civilização que avança pela simples gravidade de seu tamanho e pela convicção de que o tempo sempre joga a seu favor.

Críticos observam ainda que Doshi enxerga o tabuleiro por lentes ocidentais, inflando a imagem da China como antagonista unitário e relegando a segundo plano outros vetores da complexidade global: o renascimento da Índia, a instabilidade do Oriente Médio, a ameaça nuclear latente. Há também a questão metodológica — a seleção de evidências que reforçam sua tese e minimizam contrapesos regionais, como a resistência de países do Indo-Pacífico à influência chinesa, materializada na estratégia do “Indo-Pacífico Livre e Aberto” e nas articulações com Washington e Tóquio.

Doshi enxerga, com razão, o poder estrutural como a forma mais duradoura de dominação. No entanto, talvez subestime a tenacidade da ordem liberal — um edifício corroído, mas ainda sólido, sustentado por instituições e valores que resistem como penhascos diante de uma maré ascendente. A OTAN, o Quad, o AUKUS, o Banco Mundial, o FMI e as Nações Unidas permanecem como os pilares de uma arquitetura global que, embora fatigada, continua a oferecer refúgio e previsibilidade.

Essa resistência manifesta-se em ações concretas: a exclusão da Huawei das redes 5G em países como Austrália, Reino Unido, Canadá e Índia; a cooperação crescente entre EUA e União Europeia em semicondutores, energia e cadeias críticas; e uma revalorização estratégica do Atlântico Norte como eixo moral e tecnológico do mundo.

O livro de Rush Doshi se apresenta como uma anatomia da ascensão chinesa, mas talvez confunda a coerência retrospectiva dos fatos com um suposto plano mestre. Como adverte Henry Kissinger, a história raramente se submete a estratégias lineares — ela é feita de contingências, improvisos e descontinuidades. E como observa John Mearsheimer, as grandes potências agem menos por cálculo perfeito do que por percepções imperfeitas de ameaça e oportunidade. A China avança, sim, mas também hesita; constrói, mas se contradiz; projeta a eternidade, mas é assombrada pelo peso de seu passado.

O poder chinês, que Doshi descreve com precisão quase cartesiana, é antes um processo fluido, sujeito às marés internas de sua economia, às tensões regionais e às vulnerabilidades de um regime que precisa parecer infalível para sobreviver. Sua estratégia global não é um roteiro, mas um mosaico em constante ajuste — onde pragmatismo e temor coexistem. A narrativa da “longa marcha rumo à hegemonia” talvez simplifique uma realidade mais complexa: a de um Estado que, ao mesmo tempo em que desafia o Ocidente, depende dele; que quer controlar o futuro, mas ainda luta para dominar o presente. Nesse contraste entre ambição e limite, entre disciplina e insegurança, reside o verdadeiro drama da política mundial contemporânea.



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