A Nova Esquerda e o Culto Gnóstico da Desconstrução
"Este livro é um ataque à Nova Esquerda, não em nome de qualquer alternativa política, mas em nome da verdade. A característica mais marcante dos pensadores aqui discutidos é a sua indiferença para com a verdade, a sua crença de que uma proposição pode ser justificada não pela sua correspondência com a realidade, mas pela sua função em promover um 'fim emancipatório'."
Há livros que nascem como exercícios de crítica e há livros que se ergueram, quase involuntariamente, como diagnósticos espirituais de uma época. The Thinkers of the New Left pertence a essa segunda linhagem. Roger Scruton, com sua atenção vigilante às fissuras culturais do Ocidente, declara desde as primeiras páginas seu propósito: compreender a constelação intelectual que, desde meados do século XX, procurou remodelar o imaginário político, moral e estético das sociedades liberais. Não se trata, para ele, de um mero inventário de ideias; é antes uma tentativa de sondagem daquilo que poderíamos chamar de um ethos mental, de uma atmosfera moral que envolve os nomes e os conceitos da chamada Nova Esquerda.
O termo, em Scruton, não designa um movimento homogêneo, mas um conjunto de autores — de Sartre a Foucault, de Marcuse a Althusser — unidos menos por um sistema coerente do que por uma disposição afetiva, um impulso interior que os leva a desconfiar das instituições herdadas, das normas sedimentadas, das hierarquias naturais. A crítica central de Scruton recai precisamente sobre essa disposição: uma vontade de subverter antes de compreender, uma ânsia de dissolução que toma a história como tribunal e não como lar.
É nesse ponto que o autor mobiliza o conceito de ressentimento, extraído, ainda que discretamente, do vasto vocabulário nietzschiano. Mas Scruton o emprega não como acusação psicológica, e sim como chave hermenêutica. O ressentimento, tal como ele o descreve, opera como um lento veneno: infiltra-se na linguagem, deforma a percepção do real, substitui a análise pelo desejo de ajuste de contas. Para Scruton, a Nova Esquerda lê o mundo como se toda estrutura social fosse uma trama de poderes ocultos, como se toda permanência fosse um disfarce de opressão. Há, nessa leitura, uma recusa da gratuidade, daquilo que Steiner, em suas próprias meditações, chamaria de o “milagre do óbvio”: o fato de que algumas coisas existem sem pedir desculpas. O ressentimento converte esse milagre em suspeita; converte também a imperfeição humana em culpa histórica. Daí a prosa inflamada, quase penitencial, de certos teóricos que buscam no capitalismo, na religião ou na tradição a origem de todos os males contemporâneos. Scruton lê neles menos um programa político e mais uma teodiceia invertida, na qual o mundo deve ser julgado continuamente, e o que existe deve sempre se justificar diante de um ideal irrealizado.
Essa inversão conduz à terceira e talvez mais profunda crítica elaborada por Scruton: a ideia de que a Nova Esquerda procurou substituir a teologia por uma política de salvação. Onde antes havia a confissão da culpa e a busca por uma redenção transcendente, surge agora a convicção de que a libertação pode ser arquitetada pela crítica, pela desconstrução das instituições, pelo desmantelamento das estruturas simbólicas que sustentam a vida comum. Scruton não condena a esperança — sabe, como poucos, que a imaginação humana necessita de horizontes. O que ele denuncia é a troca dos limites pela promessa de totalidade, a tentação de transformar a política em um mecanismo absoluto de purificação. A consequência, segundo ele, é uma estranha forma de secularização: não a que se limita a retirar a religião do espaço público, mas a que instala no coração da vida política um messianismo difuso, uma convicção de que a história pode ser redimida pela intervenção humana, e que o dissenso é apenas um ruído, não uma condição da liberdade.
Engajamento em detrimento da verdade
Há, em The Thinkers of the New Left, uma inquietação que atravessa todas as páginas e que confere ao livro sua gravidade moral: a suspeita de que parte significativa da intelligentsia contemporânea tenha abandonado a antiga e austera disciplina da verdade para abraçar um compromisso político que transforma a própria atividade intelectual em instrumento de militância. Scruton, atento ao modo como as palavras perdem suas raízes quando manipuladas por um zelo ideológico, observa que o método científico deixa de ser uma via de descoberta e passa a servir como um repertório de justificativas. Não se pergunta mais “o que é?”, mas “a que lado isto serve?”. A experiência, outrora cultivada como limite e correção das fantasias do pensamento, é rearranjada seletivamente para sustentar a narrativa que se deseja. Do mesmo modo, a análise filosófica — essa ferramenta que, desde os gregos, buscou distinguir, refinar, abrir caminhos — torna-se uma dialética de combate, uma técnica de deslegitimação. A crítica, em vez de gesto liberador, resseca-se em ortodoxia moral. Scruton acusa, sem grosseria mas com firmeza, que o triunfo do compromisso político não apenas estreita os horizontes do pensamento, mas desnatura a própria possibilidade de diálogo: quando a verdade cede lugar à lealdade ideológica, toda divergência parece traição.
Essa deformação do intelecto prepara o terreno para outra tendência que Scruton examina com precisão: a noção de autenticidade ou libertação, tão valorizada pelos pensadores da Nova Esquerda. Tal noção, que ecoa vagamente Rousseau e certos românticos tardios, aparece como promessa de que o indivíduo poderá libertar-se das convenções, das normas e das instituições que o envolvem. Mas Scruton vê, nessa promessa, um perigo. A autenticidade absolutizada converte-se numa soberania do eu que rejeita qualquer mediação, como se toda forma social fosse uma prisão. Ele contrapõe a isso uma concepção mais orgânica de ordem legítima, fundada não na espontaneidade irrefletida, mas na lenta construção de vínculos. Tradições, costumes, instituições jurídicas e políticas — essas estruturas, para Scruton, não são inimigas da liberdade; são suas condições. A libertação que ignora tais condições pode destruir o que há de mais precioso na vida civil: o frágil equilíbrio entre autonomia pessoal e responsabilidade compartilhada. A obsessão pela autenticidade rompe o tecido social, pois exige que o indivíduo seja sempre autor de si mesmo, desobrigado do passado e das formas herdadas de convivência. Em tal cenário, a liberdade torna-se, paradoxalmente, impossível, pois nada sustenta a continuação do mundo comum.
É nesse contexto que surge o diagnóstico mais severo do livro: a chamada cultura do repúdio. Sob esse nome, Scruton descreve um clima intelectual em que o passado é visto como uma coleção de culpas e toda autoridade é suspeita por princípio. Trata-se de uma postura ritualizada: repudiar, antes de compreender; denunciar, antes de examinar. A cultura do repúdio erige-se como método e como moralidade. Nas universidades, ela se manifesta de modo particularmente visível. Currículos são reorganizados segundo critérios que privilegiam a suspeita; autores clássicos são relegados ou apresentados apenas como sintomas de uma estrutura de poder; disciplinas que outrora cultivavam o estudo lento e paciente convertem-se em laboratórios de militância; e a dissidência intelectual, mesmo quando moderada, torna-se objeto de vigilância ou desprezo. Scruton vê nisso não uma mera mudança de gosto acadêmico, mas a consolidação de uma hegemonia. A cultura do repúdio funciona como filtro: seleciona, legitima, distribui prestígio. É graças a ela que certas ideias circulam com autoridade presuntiva, enquanto outras são enterradas sob as acusações de irrelevância ou imoralidade. Sua força não reside na argumentação, mas no clima que estabelece — um clima em que questionar o dogma é arriscar-se ao ostracismo. O que resulta dessa hegemonia é um empobrecimento deliberado da herança intelectual. A universidade, que deveria ser lugar de hospitalidade para ideias divergentes, converte-se em tribunal. E o tribunal não julga — repudia.
Jean-Paul
Sartre – O Existencialista que Fez Pacto com o Totalitarismo
"Sartre
comprometeu-se com uma visão da liberdade humana tão radical que qualquer
constrangimento, inclusive o da lógica e da moralidade objetiva, era visto como
uma forma de 'má-fé'. No entanto, esta mesma doutrina levou-o a uma submissão
servil às piores tiranias do século XX. A sua filosofia não era um guia para a
ação, mas uma desculpa para ela, uma maneira de disfarçar o compromisso
político covarde como um ato de liberdade metafísica suprema."
A figura de Sartre ocupa, na crítica de Scruton, uma posição sui generis: ela é
simultaneamente o emblema de um prestígio intelectual quase incontestado no
pós-guerra e o indício de um mal-estar profundo na cultura filosófica europeia.
Ler Sartre, para Scruton, é contemplar a metamorfose da filosofia em
performance; é observar a lenta dissolução de um rigor ontológico herdado de
Husserl e Heidegger numa retórica do engajamento que, em seu zelo missionário,
sacrifica o pensamento à causa. The Thinkers of the New Left retorna
incansavelmente a esse ponto: a convicção de que a obra de Sartre, sobretudo a
partir de L’Être et le Néant, inaugura uma espécie de humanismo heroico
que, longe de libertar o espírito, o submete a uma dramaturgia moral e
política.
As objeções de Scruton ao existencialismo sartriano não são meramente
ideológicas; são, antes, metafísicas. Ele vê no princípio da absoluta liberdade
defendida por Sartre — aquela liberdade que define o homem como ser-para-si,
condenado a escolher e a projetar-se incessantemente — uma afirmação ontológica
sem lastro. A denúncia é contundente: ao declarar que a existência precede a
essência, Sartre converte a liberdade em um absoluto vazio, incapaz de
fundamentar qualquer normatividade real. Não há, para Scruton, coerência na
tentativa de derivar imperativos éticos e compromissos históricos de uma
liberdade tão abstrata que se torna ela própria uma ficção. A ontologia
sartriana, ao dissolver a estrutura intencional da consciência em puro ato de
negação, flutua sem solo, presa a categorias fenomenológicas inadequadas para
suportar a carga ética e política que o autor lhes impõe.
Scruton
também insiste que a aproximação de Sartre ao marxismo baseia-se em um equívoco
estrutural. O existencialismo, fundado na radical contingência individual, não
pode, sem violência conceitual, servir de justificativa para uma teleologia
histórica de tipo marxista. Quando Sartre tenta conciliar a liberdade soberana
do sujeito com a necessidade dialética da história, o resultado, segundo
Scruton, é um híbrido filosófico que não respeita as leis internas de nenhum
dos dois sistemas. Surge daí o que o filósofo inglês descreve como uma espécie
de moralismo revolucionário, no qual a “má-fé” deixa de ser apenas uma
categoria psicológica e passa a ser imputada aos inimigos políticos. É nesse
movimento que Scruton identifica a corrupção do método filosófico: a análise
conceptual torna-se instrumento de denúncia, e a ontologia converte-se em
armamento retórico.
A crítica se
aprofunda quando Scruton examina o engagement, essa palavra que, para
Sartre, sintetiza o dever do intelectual na sociedade. Ele enxerga no
engajamento sartriano uma abdicação da vocação contemplativa da filosofia e sua
substituição por uma política de filiação moral. Ao filósofo não cabe mais descrever
o real, mas transformá-lo — e transformá-lo sob a bandeira de um imperativo
revolucionário cuja legitimidade nunca é filosoficamente interrogada. A lógica
da responsabilidade histórica, tal como formulada por Sartre, encena uma
espécie de teologia secular, no interior da qual o intelectual assume o papel
de profeta ou juiz. Em última análise, para Scruton, é a própria distinção
entre filosofia e propaganda que se dissolve, inaugurando o que ele vê como a
patologia central da Nova Esquerda.
Não é apenas
a posição política que incomoda Scruton, mas o tom: um pathos moral que ele
julga incompatível com a disciplina interior exigida pela filosofia. Sartre, ao
insistir na primazia da ação sobre a contemplação, teria contribuído para uma
cultura intelectual que privilegia gestos performativos e condenações públicas,
em detrimento da paciência conceitual. Sua influência, portanto, não seria
apenas doutrinária, mas pedagógica: teria moldado gerações para quem a crítica
deixou de ser uma investigação da verdade e tornou-se um instrumento de
mobilização.
Assim, a
leitura scrutoniana de Sartre se converte em diagnóstico de um fenômeno maior:
a transformação da filosofia europeia pós-guerra em um laboratório de
justificativas morais para projetos políticos radicais. A fusão entre
existencialismo e marxismo — improvável, mas historicamente eficaz — é
emblemática de uma época que substituiu o amor pela verdade pelo culto da ação.
A obra de Sartre aparece, então, como o grande espelho quebrado de uma cultura
que, ao exaltar a liberdade absoluta, perdeu de vista a realidade concreta da
responsabilidade, da tradição e da ordem. É nesse ponto que se concentra a
crítica mais profunda: a suspeita de que, ao renunciar ao rigor da metafísica,
Sartre abriu caminho para uma filosofia que não mais descreve o mundo, mas o
repudia em nome de um ideal cuja justificação permanece sempre por vir.
Louis Althusser – O Cientificista da Revolução sem Sujeito
"No universo althusseriano, não há agentes, apenas portadores
(Träger) de funções estruturais. O ser humano, outrora o herói da história
marxista, é reduzido a um efeito do sistema, um fantasma nas máquinas do
capitalismo. Esta não é uma teoria, mas uma abdicação da teoria, uma recusa em
enfrentar a questão mais fundamental de todas: a da ação humana e da
responsabilidade."
A leitura que Scruton faz de Althusser em The Thinkers of the New Left
apresenta-se como um confronto entre dois modos inconciliáveis de compreender a
vida intelectual: de um lado, a tentativa althusseriana de conferir ao marxismo
o estatuto de ciência rigorosa, isolada das hesitações da consciência humana;
de outro, a defesa scrutoniana de uma filosofia que não abdique da
responsabilidade moral do sujeito. Althusser é, nesse panorama, menos um
adversário doutrinário do que o sintoma mais acabado de uma ambição moderna:
substituir o entendimento humano por sistemas autorreferenciais, purificados de
qualquer referência à experiência concreta. Scruton se posiciona contra essa
higiene conceitual que, a pretexto de cientificidade, extirpa da vida histórica
a presença do agente humano.
O primeiro alvo de sua objeção é o estruturalismo marxista enquanto projeto
epistemológico. Scruton vê no método de Althusser uma transposição mal
assimilada das categorias do estruturalismo linguístico para o terreno da
política e da economia. A ideia de que a história poderia ser lida como um
conjunto de estruturas determinantes — sem centro, sem sujeito e sem teleologia
explícita — é, para ele, uma abdicação de todo senso fenomenológico. O homem,
reduzido a efeito das estruturas, perde sua densidade moral e sua capacidade de
responder pelos atos que realiza. A filosofia althusseriana, ao proclamar a
“morte do sujeito”, oferece ao militante moderno um álibi metafísico: não há decisões,
apenas efeitos; não há culpa, apenas determinações. Scruton reconhece nesse
gesto uma espécie de niilismo mascarado, que dissolve a responsabilidade
individual enquanto proclama uma ciência da história.
Esse ponto o conduz a sua crítica mais persistente: o cientificismo.
Althusser pretende fundar um marxismo “teórico”, purgado de toda contaminação
humanista. Mas Scruton identifica nesse desejo de pureza uma fraude
intelectual. A retórica da ciência — a insistência em conceitos como “prática
teórica”, “ruptura epistemológica”, “objetos reais” — encobre o fato de que
nenhuma demonstração empírica é realmente oferecida. A teoria não se curva aos
dados; antes, legisla sobre eles. A filosofia é convertida em técnica de
legitimação, não em investigação. O cientificismo althusseriano, na visão de
Scruton, não é a vitória do rigor, mas a áurea mística do jargão. E, pior, é um
cientificismo que se pretende revolucionário, mas que permanece isolado das
exigências metodológicas das ciências naturais. Althusser fala como físico, mas
age como teólogo.
Quando Scruton aborda a teoria dos aparatos ideológicos de Estado, o tom
adquire uma clareza ainda mais irônica. A noção de que instituições tão
diferentes quanto escolas, igrejas, mídia, família ou sistemas jurídicos possam
ser agrupadas sob a mesma categoria funcional — todas trabalhando, de modo mais
ou menos consciente, na reprodução das relações de produção — parece-lhe um
artifício metodológico que sacrifica a complexidade do mundo social a uma
fantasia classificatória. Para Scruton, os AIEs falham tanto empiricamente
quanto logicamente. Falham empiricamente porque supõem uma homogeneidade de
funções e intenções que não se verifica na realidade: é absurdo, segundo ele,
interpretar a escola como simples reprodutora ideológica sem reconhecer sua
variabilidade institucional, suas disputas internas, sua contingência
histórica. Falham logicamente porque fazem da ideologia um conceito tão
elástico que tudo pode ser descrito como ideológico e, portanto, nada é
realmente explicado.
Além disso, Scruton insiste que o modelo althusseriano incorre em uma forma
velada de determinismo. Ao afirmar que os sujeitos são interpelados pela
ideologia — constituídos como sujeitos pela operação dos AIEs —, Althusser
elimina qualquer interioridade psicológica ou moral. O sujeito é apenas um
ponto de aplicação da estrutura. Mas, para Scruton, essa teoria é
estruturalmente circular: a ideologia explica o sujeito, e o sujeito confirma a
ideologia; o Estado reproduz as condições de produção porque a ideologia assim
determina, e a ideologia predomina porque o Estado a reproduz. Nada entra, nada
sai. A história torna-se um sistema fechado, imune à crítica empírica.
Essa circularidade, aliada ao cientificismo, produz o que Scruton considera um
dos maiores perigos do pensamento althusseriano: o desaparecimento do real sob
a profusão de abstrações. A filosofia deixa de iluminar o mundo e passa a
substituí-lo. As estruturas falam no lugar dos homens, as ideologias agem no
lugar dos indivíduos, e a ciência revolucionária ocupa o espaço onde antes se
dava a argumentação racional. Scruton observa que, nesse universo rarefeito, o
filósofo já não descreve o social — ele o decreta. Não surpreende, então, que
Althusser tenha se tornado, para muitos intelectuais da Nova Esquerda, o
paradigma de um pensamento que se protege de toda refutação ao se declarar
ciência da história: uma ciência sem experimentos, sem dados e sem sujeitos.
Ao reduzir o homem a função e a história a mecanismo, o estruturalismo marxista
dissolve aquilo que, para Scruton, constitui o núcleo da vida moral: a
capacidade de responder, com palavras e atos, pelo próprio destino. É essa
renúncia ao sujeito — e a tudo que o acompanha, culpa, promessa,
responsabilidade — que faz de Althusser, aos olhos de Scruton, não apenas um
adversário, mas um dos grandes arquitetos da cultura da repúdio: uma
cultura que renuncia ao mundo vivido em nome de sistemas impecáveis, mas
incapazes de significar.
Ronald Dworkin – O Jurista da Moralidade Indefectível
“O direito não é, em primeira instância, um sistema de princípios, mas
de autoridade. A sua função primária é resolver disputas e manter a ordem
social, não realizar sonhos filosóficos. A visão de Dworkin convida os juízes a
governarem como filósofos-reis, substituindo a sabedoria da lei comum pelas
modas passageiras da teoria moral.”
O capítulo dedicado a Ronald Dworkin transcende a mera controvérsia jurídica e
se desdobra como uma disputa sobre a própria natureza da autoridade e da ordem
política. A tensão central, para Scruton, reside no modo como Dworkin eleva os
direitos individuais à condição de vértice normativo absoluto — uma espécie de
tribunal moral anterior e superior ao texto legal, às práticas
institucionalizadas e à sabedoria acumulada no tecido da tradição jurídica. A
teoria dos direitos como “trunfos” não é um aperfeiçoamento democrático
do liberalismo, mas um deslocamento do direito para uma esfera teológica e
maximizadoras, sustentada por categorias morais que não se submetem ao
escrutínio das formas históricas de convivência.
O que Dworkin chama de law as integrity — o princípio segundo o qual o
direito deve ser interpretado como o melhor esforço moral de uma comunidade
para justificar suas decisões passadas — é lido por Scruton como um gesto de
profunda ambivalência: ao mesmo tempo em que apela ao passado, o ultrapassa; ao
mesmo tempo em que reivindica continuidade, a subordina ao juízo moral de um
intérprete cuja autoridade não deriva da história da lei, mas de uma
autoconsciência ética que pretende falar em nome dela. Em sua crítica, Scruton
deixa transparecer a convicção de que a tradição jurídica não é um repositório
de erros acumulados, mas a sedimentação de tentativas humanas de instituir
limites e reconhecer deveres. A lei, para ele, não é primeiramente um
instrumento de emancipação, mas uma moldura de contenção. E é justamente essa
moldura que Dworkin, ao absolutizar os direitos, enfraquece.
O desconforto de Scruton está menos na defesa dworkiniana das minorias e mais
na epistemologia moral que a sustenta. Ele vê em Dworkin um herdeiro tardio do
racionalismo iluminista: alguém que acredita ser possível extrair, por
introspecção moral, um catálogo de direitos fundamentais que, por sua natureza
intrínseca, deve reger a vida pública, ainda que contra o consenso histórico de
uma comunidade. A noção de que tais direitos possuem uma força moral anterior
ao próprio processo legislativo soa a Scruton como um idealismo político
mascarado de teoria jurídica. A lei deixa de ser um produto cultural para
tornar-se dedução moral. Uma cultura, que sempre se dá como imperfeita e
falível, passa a ser julgada por parâmetros cuja origem não encontra alojamento
claro na experiência histórica.
Nesse antagonismo, vê-se a distância entre um conservador que procura na
tradição uma gramática da coexistência e um filósofo liberal que procura na
moralidade um fundamento último da legitimidade. Scruton interpreta Dworkin
como alguém disposto a subordinar os acordos tácitos, os costumes e mesmo a
estabilidade institucional a uma ética de direitos subjetivos cuja
universalidade é mais suposta do que demonstrada. A crítica é sintomática de
sua visão mais ampla: para ele, o direito perde sua força civilizadora quando
deixa de ser um vínculo social e passa a ser um campo de reivindicações
ilimitadas, cada uma delas reclamada como se fosse manifestação de uma verdade
moral pré-política.
Se essa leitura de Dworkin é justa ou deformada por seu conservadorismo é outra
questão, e talvez a mais delicada. Há em Scruton uma espécie de melancolia da
ordem: a crença de que a autoridade jurídica — essa lenta e difícil tecitura de
práticas que dão forma ao nosso senso de limite — não deve ser violentada por
teorias que pretendem avançar além do que uma comunidade, com suas falhas e
hesitações, pode realmente sustentar. Sua interpretação de Dworkin reflete,
portanto, não apenas um desacordo intelectual, mas uma defesa apaixonada da
moderação que o direito, quando enraizado na tradição, pode exercer sobre os
impulsos moralizantes da política. A crítica é menos factual do que
temperamental: nela, Dworkin aparece como o arauto de um liberalismo sem
fronteiras e Scruton como o guardião de uma ideia de ordem que só floresce
quando o passado não é tratado como um erro a ser superado, mas como um
patrimônio a ser cuidadosamente interpretado.
Michel Foucault – O Arqueólogo das Sombras e da Vontade de Nada
Há, no capítulo que Scruton dedica a Michel Foucault em The Thinkers of the
New Left, uma espécie de confrontação entre duas ontologias inconciliáveis:
de um lado, a crença scrutoniana de que a vida moral requer um centro de
gravidade — instituições, regras, hábitos, uma textura histórica que confira
contorno ao exercício da liberdade; de outro, a genealogia foucaultiana,
empenhada em mostrar que tais centros são artifícios contingentes, efeitos de
relações de força que se ocultam sob o verniz da racionalidade. O
distanciamento entre esses dois horizontes produz a crítica mais densa de
Scruton: a convicção de que Foucault dissolveu, com brilho literário e
virtuosismo arqueológico, os fundamentos mesmos a partir dos quais seria
possível argumentar sobre a justiça, a lei e a verdade.
A primeira objeção de Scruton reside na conjunção foucaultiana entre poder
e saber. A afirmação de que não há conhecimento que não seja atravessado
pelo poder — e, inversamente, que todo poder produz seu regime de verdade —
parece-lhe uma generalização perigosa. Ao converter toda forma de discurso em
instrumento disciplinar, Foucault, segundo Scruton, elimina a possibilidade de
distinguir entre persuasão e coerção, entre argumento e imposição. A crítica
não é apenas epistemológica; é moral. Se todo discurso é poder, então nenhuma
reivindicação de verdade pode ser tomada com seriedade. Todo gesto hermenêutico
dissolve-se em suspeita. Scruton reconhece a força analítica dessa hipótese,
mas a considera incapaz de assegurar a diferença entre o diagnóstico e a
cumplicidade: se o historiador revela um dispositivo de poder, ele não escapa a
ele; apenas o reinscreve em outro regime discursivo.
É neste ponto que surge a acusação de niilismo. Para Scruton, Foucault opera
uma espécie de transmutação sombria da tradição nietzschiana. A genealogia
deixa de ser método de esclarecimento e torna-se máquina de erosão. Ao narrar a
história das instituições — prisão, clínica, hospital, sexualidade — como
constelações móveis de práticas disciplinadoras, Foucault remove qualquer
fundamento normativo que permita julgar tais instituições. Não se trata, na visão
de Scruton, de denunciar uma injustiça, mas de revelar que a própria ideia de
justiça pertence ao mesmo conjunto de dispositivos. A suspeita generalizada,
elevada a princípio metodológico, destrói a possibilidade de crítica moral que
não seja imediatamente desconstruída como outra expressão de poder. O que
resta, então, é um mundo sem lugar para a transcendência ou para um critério
que se afaste do jogo das coerções. Scruton lê nisso um niilismo elegante: uma
prosa que fascina, mas que recusa qualquer horizonte em que a verdade não seja
apenas efeito.
Essa suspeita quanto ao caráter normativo do pensamento foucaultiano leva
Scruton a um julgamento severo sobre a aplicabilidade política de sua obra. Se
o poder está em toda parte, se cada discurso é uma estratégia de dominação,
então a ação política não tem sentido último: ela apenas substitui um regime
disciplinar por outro. O ativismo inspirado por Foucault — seja nos estudos de
gênero, seja na crítica das instituições penais — não possui, segundo Scruton,
bases conceituais que o autorizem; apoia-se em convicções morais que Foucault
aparentemente dissolveu. A genealogia, nesse sentido, não emancipa, mas
desestabiliza; não constrói, mas dispersa. Há, em Scruton, a impressão de que o
filósofo francês desejava uma política da resistência sem jamais formular um
critério de legitimidade para a própria resistência.
Jacques Derrida – O Engenheiro da Implosão Lógica
No exame que Scruton faz de Jacques Derrida, são expostas vísceras que
transcendem a crítica habitual ao pós-estruturalismo. Não se trata apenas de
discordar de um método ou de denunciar a proliferação de jogos semânticos que
caracterizam a desconstrução; trata-se de advertir para um perigo mais
profundo: a substituição da busca pelo significado por uma espécie de fé na
dissolução permanente. Scruton lê Derrida como alguém que, ao desconfiar de
toda hierarquia, de toda oposição binária e de todo vestígio da chamada metafísica
da presença, faz da linguagem um labirinto sem centro e, portanto, sem
saída. Où est le monde?, perguntaria Steiner. Scruton, menos lírico, mas
igualmente inquieto, reformula a pergunta: onde está a realidade comum que
sustenta uma comunidade política?
Segundo Scruton, a rejeição derridiana das oposições — presença/ausência,
fala/escrita, literal/figurado — não é uma operação meramente filosófica. Ela
se converte, no plano político, numa suspeição generalizada contra todas as
estruturas que dependem de alguma estabilidade semântica: a lei, o costume, a
autoridade e a própria ideia de verdade compartilhada. Derrida, ao afirmar que
qualquer texto contém em si a semente de sua própria subversão, retira do
discurso público a possibilidade de um solo comum. A hermenêutica infinita
dissolve o acordo mínimo sem o qual nenhuma polis subsiste. Não é, para
Scruton, apenas que Derrida mina o fundamento da filosofia tradicional; é que
ele mina um pressuposto civilizacional: a confiança de que ao falar podemos
significar, ao legislar podemos fixar, ao interpretar podemos estabelecer
limites.
Scruton vê nessa tendência um equívoco político mascarado de virtude crítica. A
desconstrução, ao denunciar as oposições binárias como instrumentos de poder,
supõe que toda ordem é apenas a cristalização de uma violência original.
Portanto, qualquer estabilidade — inclusive a jurídica ou cultural — aparece
como opressão disfarçada. Aqui o filósofo conservador antevê um perigo
imediato: se toda estrutura discursiva carrega o pecado da exclusão, então
nenhuma instituição é digna de lealdade. Para Scruton, essa recusa de
distinções firmes oculta um ressentimento contra a própria ideia de
continuidade histórica, um desejo de libertação total que, ao rejeitar as
condições formais do entendimento, acaba por rejeitar também as condições do
viver em comum.
Ao mesmo tempo, Scruton percebe que a prosa de Derrida — sinuosa, alusiva, por
vezes deliberadamente evasiva — pretende encarnar a própria impossibilidade da
presença. Embora demonstre uma sensibilidade filológica notável, Derrida a
coloca a serviço de uma espécie de epistemologia do suspiro, na qual
todo significado foge no instante em que o tocamos.
É precisamente essa suspensão indefinida que suscita objeções filosóficas mais vitais.
Scruton argumenta que, ao negar a possibilidade de significados relativamente
estáveis, Derrida também nega, inadvertidamente, a possibilidade de
responsabilidade moral. Se toda interpretação pode ser revertida, se todo
enunciado pode ser invertido por sua própria lógica interna, que sentido resta
para a imputação, para a promessa, para o compromisso? Uma comunidade política
não vive apenas de textos; vive de atos que produzem obrigações. Mas, se a
desconstrução reduz tais atos a mais um capítulo na interminável novela da
diferença, então a própria ideia de dever se dissolve no horizonte do
interminável.
Há, claro, nuances que Scruton não explora — a tentativa derridiana de resgatar
uma ética da hospitalidade e do acolhimento, a consciência de que toda
instituição produz limites e exclusões inevitáveis. Contudo, para Scruton,
essas nuances não compensam o estrago causado pela suspeita generalizada. A
desconstrução, ao invés de alargar a compreensão, produz uma espécie de anemia
cultural: nada permanece, nada pode ser afirmado sem um asterisco, nada é
suficientemente sólido para sustentar a continuidade de um povo.
Assim, a
crítica de Scruton a Derrida não é apenas uma disputa sobre métodos
filosóficos. É um lamento — severo, mas não inteiramente destituído de angústia
— diante de uma tradição intelectual que, ao rejeitar a presença, termina por
rejeitar também a comunidade que necessita dela. A política da desconstrução,
vista por Scruton, é a política de um mundo que perdeu a confiança em suas
próprias palavras. E, nesse ponto, ele encontra talvez a sua discordância mais
profunda: para o conservador britânico, a civilização repousa não sobre a
dúvida infinita, mas sobre a promessa de que, apesar de todas as falhas, ainda
podemos falar uns com os outros sem que o chão se abra sob nossos pés.
Gramsci -
O Santo Padroeiro da Revolução Cultural Permanente
Quando se debruça sobre Gramsci, Scruton revela uma espécie de desconforto
intelectual que lembra o gesto de quem examina um sistema cujas engrenagens
funcionam demasiado bem. Ele sabe — e isso concede desde o primeiro momento —
que o pensador italiano foi um dos poucos herdeiros do marxismo capazes de
compreender a cultura não como reflexo da história, mas como a matéria de que a
própria história é feita. Nesse deslocamento, Scruton enxerga tanto um lampejo
de genialidade quanto o início de uma longa sombra. Talvez seja essa dupla
consciência que dá ao capítulo um tom de vigilância: o conservador percebe que
está diante de um adversário que estudou a fundo o terreno que ele próprio
julga essencial para a vida em comum.
A ideia de hegemonia cultural, tão repetida e tão desvirtuada nas décadas
seguintes, aparece em Scruton como uma constante advertência. Para Gramsci, não
basta controlar a economia ou a política; é preciso moldar a forma como uma sociedade
pensa, sente, interpreta o real. A hegemonia não é um decreto, mas uma
impregnação. Ela se infiltra no vocabulário, nos hábitos, nas imagens
históricas que passam por “naturais”. Em Gramsci, o verbo ser passa a
ser lentamente substituído pelo verbo pertencer: não se descreve uma
instituição, situa-se a sua função na luta por significados.
Scruton identifica nessa operação um perigo profundo. Para o conservadorismo, a
cultura é um acúmulo de gestos sedimentados, uma obra coletiva que ninguém
planejou e cujo valor está justamente no fato de não ter sido planejada.
Gramsci, ao contrário, trata a cultura como campo estratégico. Nada permanece
inocente. A sala de aula, a liturgia, o romance, o jornal, o modo como se
articula uma frase — tudo se torna índice de uma disputa por ascendência moral.
Scruton vê aí uma ruptura epistemológica: se tudo é política, então nada o é em
sentido estrito. A própria possibilidade de uma vida civil, com dimensões que
não precisam se justificar politicamente, se dissolve.
A crítica se torna mais severa quando Scruton examina as consequências
históricas dessa virada. O marxismo clássico aguardava a crise; Gramsci ensinou
a fabricá-la no plano simbólico. As décadas seguintes, para Scruton, parecem
confirmar essa estratégia: não mais as barricadas, mas os currículos
universitários; não mais os comissários, mas os especialistas em linguagem; não
mais o partido, mas a atmosfera intelectual que condiciona o que se pode ou não
pensar.
Scruton concentra-se nos riscos: Se toda tradição é entendida como artifício,
se cada instituição é reduzida à função de reproduzir poder, nada resta que
mereça confiança. A herança cultural — para ele, um dos pilares da vida
civilizada — torna-se suspeita por definição. Gramsci inaugura, assim, um tipo
de hermenêutica desconfiada que, décadas depois, se converterá na norma das
humanidades acadêmicas.
Esse ponto conduz a uma tensão que nem Scruton nem Gramsci resolvem plenamente.
Se a cultura é o campo decisivo da política, então o conservadorismo deveria
disputar esse campo com igual vigor; mas fazê-lo seria contrariar sua própria
natureza, que prefere defender a continuidade a manipulá-la. Scruton recusa
essa simetria. Ele teme que, ao aceitar o jogo gramsciano, o conservadorismo
perca precisamente aquilo que o define.
Mas seria injusto ignorar que Scruton, ao denunciar o projeto gramsciano,
também ilumina aspectos negligenciados pelo próprio Gramsci. A teoria da
hegemonia, tão poderosa em identificar os mecanismos pelos quais ideias se
cristalizam, pouco diz sobre o valor intrínseco dessas ideias. Gramsci descreve
como se formam consensos; diz menos sobre como julgá-los. Scruton insiste nesse
ponto: a luta cultural não pode substituir a avaliação moral e filosófica dos
conteúdos. Uma cultura
não se sustenta apenas por sua capacidade de se impor, mas pela legitimidade
dos significados que oferece.
Raymond Williams – O Pastor da Cultura Popular Redentora
Em sua leitura de Raymond Williams, Scruton não encontra um adversário menor,
mas um autor cuja inteligência crítica se move com a paciência de um filólogo e
a persistência de um militante. Williams representa a passagem da teoria
cultural inglesa — antes marcada por uma atenção artesanal às formas de vida —
para uma orientação claramente comprometida com a reforma moral e política da
sociedade. O que perturba Scruton é precisamente essa interpenetração: o gesto
de interpretar a literatura, as artes e mesmo os pequenos hábitos da vida
cotidiana como expressões de um poder ideológico que deve ser revelado e, em
seguida, superado. A cultura, nesse enquadramento, deixa de ser uma herança a
ser compreendida e se torna um território a ser transformado.
Há, aqui, uma divergência filosófica fundamental. Williams parte do pressuposto
de que nenhuma ordem simbólica é neutra; toda narrativa dominante obscurece
formas de vida marginalizadas e naturaliza relações sociais contingentes.
Scruton admite que tal percepção tem mérito, mas vê nessa hermenêutica da
suspeita uma erosão progressiva da confiança que sustenta a continuidade
cultural. Para ele, Williams dissolve as distinções entre cultura e política de
maneira tão sistemática que, ao final, já não restam espaços de significado que
não estejam submetidos ao crivo da crítica ideológica. A consequência é um
empobrecimento espiritual: se tudo é expressão de poder, nada pode reivindicar
autoridade legítima.
A crítica de Scruton se intensifica quando examina a noção de estrutura de
sentimento proposta por Williams. Ele reconhece a sutileza do conceito, mas
o interpreta como tentativa de submeter até as formas afetivas — o pathos
silencioso que atravessa épocas e obras — a uma matriz histórica que lhes
retira transcendência. A literatura torna-se para Williams uma espécie de
barômetro sociológico. Scruton vê aí um perigo: quando até a experiência
estética se torna documento político, perde-se aquilo que a torna singular,
isto é, a capacidade de exceder as circunstâncias.
Scruton também contesta a ambição democrática de Williams. A defesa de uma
cultura “comum”, supostamente libertada das hierarquias tradicionais, lhe
parece um projeto que termina por nivelar por baixo. A tradição — que possui
seus excessos, mas também sua sabedoria condensada — é tratada como obstáculo.
Williams substitui a lente da continuidade pela da luta, a da hermenêutica pela
da reforma. Para Scruton, essa operação tem custo alto: rompe a possibilidade
de se reconhecer valor intrínseco em formas culturais que não se prestam
imediatamente à política.
Rudolf Bahro – O Ecoprofeta que Repetiu o Credo da Utopia Verde
Rudolf Bahro, o paradigmático dissidente da Alemanha Oriental, é um sintoma da
persistente ilusão utópica. Sua obra, A Alternativa, não ofereceu uma
crítica real ao "socialismo existente", mas sim uma redução
ideológica dele, exigindo uma pureza inalcançável. Movido pelo ressentiment
do intelectual contra o poder burocrático, confundiu libertação com a
verdadeira liberdade baseada em instituições. Ele apenas substituiu o fracasso
da economia marxista por um novo messianismo com faceta ecológica e cultural.
Bahro, vindo da experiência do socialismo real e profundamente marcado pelo
desencanto com seus mecanismos de dominação, formula uma crítica ecológica que
procura refundar a política sobre bases espirituais e comunitárias. Para
Scruton, entretanto, essa tentativa de síntese entre ecologia e socialismo
continua a carregar o núcleo utópico que, a seu ver, já demonstrou seus limites
e perigos.
O ponto de fricção é claro: Bahro aspira a uma transformação civilizacional que
reoriente o sujeito moderno, disciplinado pelo consumo e pela técnica, em
direção a uma convivência mais austera com o mundo natural. Scruton vê nisso um
impulso quase religioso — o desejo de redenção coletiva — transvestido de
projeto ecológico. Ele não nega a urgência ambiental, mas resiste à ideia de
que a solução possa surgir de uma conversão ideológica massiva. A natureza,
para Scruton, não é fundamento normativo absoluto; é limite. E o respeito a
esse limite exige prudência, não entusiasmo soteriológico.
Ao diagnosticar a crise ecológica como sintoma de uma alienação estrutural,
Bahro sugere que a emancipação exigiria não apenas reforma institucional, mas
alteração do imaginário coletivo. Scruton considera essa análise demasiadamente
totalizante: ela transforma o problema ambiental em espelho de todos os vícios
da modernidade e, ao fazê-lo, tende a justificar formas de reorganização social
que sacrificam liberdades concretas em nome de uma harmonia futura.
Outro aspecto criticado por Scruton é a confiança de Bahro em estruturas
comunitárias amplas, capazes de substituir tanto o Estado tecnocrático quanto o
mercado. Para Scruton, tais comunidades, quando concebidas como instrumento
político, correm o risco de repetir o erro dos experimentos socialistas: passam
a exigir conformidade. A ecologia, nesse registro, torna-se não orientação
ética, mas doutrina. Scruton insiste que a conservação do mundo natural deve
emergir de vínculos locais — pertencimento, lealdade, responsabilidade
compartilhada — e não de projetos de engenharia moral. É a diferença entre um
cuidado que nasce do lar e outro que nasce do manifesto.
O contraste entre os dois autores também envolve a relação com a técnica. Bahro
tende a interpretar o avanço tecnológico como ameaça estrutural à autonomia
humana e ao equilíbrio ecológico. Scruton, embora cético quanto ao fetichismo
do progresso, recusa a noção de que a técnica em si encarne uma lógica
destrutiva. Para ele, o problema não é a ferramenta, mas a ausência de
instituições enraizadas que orientem seu uso. Em outras palavras, Bahro denuncia
o sistema; Scruton denuncia a fragilidade dos freios culturais.
A crítica culmina na acusação de que Bahro, apesar de sua rebelião contra o
socialismo real, não se liberta do impulso redentor que perpassa grande parte
da esquerda europeia do século XX. Sua ecologia política, ao propor uma
reorganização profunda da sociedade, acaba por reiterar a crença de que a
salvação virá de uma transformação total. Scruton, ao contrário, insiste na
incompletude constitutiva da ordem humana: não há sistema que absorva as
tensões entre liberdade e pertencimento, progresso e conservação. A ecologia,
quando vista por essa lente, deixa de ser promessa e volta a ser tarefa —
modesta, contínua, local.
Ao final, o desacordo entre Bahro e Scruton não é apenas sobre políticas
ambientais, mas sobre o alcance moral das ideias. Bahro busca reconstruir o
mundo; Scruton, habitá-lo com cuidado. A tensão entre essas duas imaginações
políticas mostra que as crises de nossa época são também crises de linguagem:
palavras como natureza, comunidade e salvação alternam
seus significados conforme o horizonte filosófico que as recebe.
R. D. Laing – O Libertador dos Loucos contra o Mundo Burguês
A leitura que Scruton faz de R. D. Laing, em Thinkers of the New Left, é
menos uma refutação pontual do psiquiatra escocês do que uma crítica ao
imaginário intelectual que o tornou possível. Ele vê em Laing — sobretudo em The
Divided Self e The Politics of Experience — a tentativa de converter
o sofrimento psíquico em metáfora política, deslocando a esquizofrenia para o
plano de uma rebelião espiritual contra uma sociedade entendida como
estruturalmente opressora. Scruton nota que Laing, ao reinterpretar a psicose como
uma espécie de travessia iniciática, confere ao insano uma aura de
vidente; aura esta que, segundo ele, serve mais às pulsões românticas da Nova
Esquerda do que às necessidades reais do tratamento clínico. A psiquiatria,
nessa leitura lainguiana, deixa de ser uma disciplina terapêutica e torna-se um
palco para a denúncia moral das instituições modernas.
A objeção de Scruton é filosófica antes de ser técnica. Ele identifica em Laing
uma recusa ritual à noção de normatividade, como se qualquer tentativa de
separar o delírio da lucidez implicasse submissão ao “sistema”. Para Scruton,
essa recusa tem consequências graves: dissolve o solo conceitual que permite
distinguir entre autonomia e desintegração psíquica. Ao negar a legitimidade da
categoria de doença mental, Laing entrega a subjetividade ao fluxo
indiferenciado das experiências, entendidas como equivalentes em valor. Essa
equiparação não é libertadora; é uma abdicação das responsabilidades mais
profundas do espírito humano — a responsabilidade de responder pelo próprio
discurso, pela permanência da pessoa ao longo do tempo, pelas formas estáveis
que permitem à vida adquirir sentido.
É aqui que a crítica a Laing se entrelaça com a crítica maior à Nova Esquerda.
Scruton acusa o movimento de cultivar uma desconfiança sistemática contra todas
as formas de ordem, como se cada estrutura — familiar, jurídica, linguística —
fosse apenas uma máscara de dominação. A psicose, convertida em gesto de
insubordinação, oferece à Nova Esquerda uma imagem extrema de sua própria
aspiração: romper com os limites do mundo herdado. Laing torna-se assim um
símbolo conveniente, porque oferece uma legitimação existencial para o
anti-institucionalismo: se o louco vê aquilo que a sociedade recusa ver, então
a transgressão deixa de ser risco e se torna revelação.
Scruton
insiste, contudo, que essa leitura transforma o indivíduo perturbado em
instrumento ideológico. Em sua interpretação, Laing captura momentos de
sofrimento autêntico — a ruptura do sujeito, a dissociação, a perda da
confiança no real — e os projeta dentro de uma narrativa romântica do “homem
alienado”. A patologia deixa de ser um fenômeno clínico concreto, vivido por
pessoas reais que precisam de cuidado, para se tornar um teatro metafísico. O
sujeito, já frágil, é convidado a ver sua angústia como uma acusação contra o
mundo, e não como um apelo por reconstrução interior. Não há, para Scruton,
gesto mais cruel: substituir a esperança terapêutica por uma estética da
desintegração.
Nesse ponto, a crítica surpreende por sua
tonalidade quase compassiva. O argumento de Scruton, em sua raiz, não é o de um
conservador que defende instituições por hábito, mas o de alguém que acredita
que a saúde psíquica depende de forma — de limites, de vínculos, de uma
gramática do eu. A Nova Esquerda, atraída pela rebeldia que Laing dramatiza,
toma a fragmentação como modelo de autenticidade, e assim confunde a quebra com
a libertação. Scruton sugere que certa parte dessa intelligentsia prefere o pathos
da ruptura ao trabalho lento da cura, porque a ruptura parece prometer um mundo
novo, enquanto a cura exige aceitar a condição humana como ela é: imperfeita,
limitada, vinculada ao passado.
A crítica de Scruton a Laing funciona como um pequeno espelho da crítica maior
ao meio que o consagrou. A psiquiatria transformada em hermenêutica
revolucionária, a doença erigida em metáfora política, a dissolução da
normatividade celebrada como clarividência — tudo isso expressa, para Scruton,
um movimento cultural que procura na desordem uma espécie de graça secular.
Contra isso, ele sustenta que a verdadeira dignidade do sujeito não está na
expansão ilimitada de suas experiências, mas na capacidade de ordenar o vivido
segundo critérios que permitam responsabilidade e reconciliação.
Immanuel
Wallerstein – O Geógrafo Cósmico da Desigualdade Programada
A leitura que Scruton faz de Immanuel Wallerstein, em sua crítica à teoria do
sistema-mundo, revela menos um embate metodológico do que um desencontro de
pressupostos acerca da própria inteligibilidade da história. Para Wallerstein,
o capitalismo não é apenas um modo de produção; é um horizonte civilizacional
que articula centros, periferias e zonas semiperiféricas num fluxo desigual de
trabalho, lucro e poder. Scruton, porém, vê nesse modelo uma espécie de
cartografia mitológica: uma narrativa que pretende explicar tudo — desde a
formação dos Estados modernos até os impasses pós-coloniais — mediante um único
princípio de organização. Ele acusa Wallerstein de oferecer, sob o verniz
analítico, um esquema teleológico que reduz a particularidade dos eventos à
repetição de um mecanismo estrutural.
Contudo, ao rejeitar essa visão como excessivamente sistemática, Scruton corre
o risco de subestimar aquilo que dá força duradoura à proposta de Wallerstein:
a percepção de que o capitalismo, em sua circulação global, não apenas integra
mercados distantes, mas reconfigura sensibilidades, ritmos de vida,
expectativas, a própria textura do cotidiano. É verdade que Wallerstein tende a
estetizar a desigualdade, descrevendo a periferia como se fosse figura num
drama cósmico. Mas há, em seu diagnóstico, um reconhecimento incômodo: a
modernidade econômica cria dependências estruturais que não podem ser
dissolvidas pela mera iniciativa individual ou por reformas locais. Scruton,
fiel à sua desconfiança dos grandes sistemas explicativos, insiste na autonomia
das instituições nacionais, na força formativa das tradições, na
responsabilidade moral dos agentes. Ele teme que a teoria do sistema-mundo
dissolva essas dimensões num fluxo impessoal de “forças históricas”.
A objeção
filosófica aqui é clara. Para Scruton, uma teoria que absorve o sujeito
histórico na maquinaria do “capitalismo global” comete uma espécie de
desumanização teórica — uma recusa implícita a considerar que sociedades e
indivíduos respondem diferentemente às pressões econômicas, que a liberdade
humana se manifesta justamente na capacidade de resistir a condicionamentos
aparentemente inexoráveis. Wallerstein, ao contrário, descreve a longa duração
como um cenário onde essa liberdade é frequentemente marginal, quase uma
anomalia. Para ele, as estruturas sistêmicas possuem uma inércia que ultrapassa
a volição individual; e Scruton lê isso como uma abdicação metafísica, um
convite a que aceitemos uma visão do mundo na qual a ação humana é relegada ao
insignificante.
Mas há um
ponto no qual a crítica de Scruton parece hesitar, talvez sem o admitir. Ao
rejeitar o alcance explicativo da teoria do sistema-mundo, ele por vezes
minimiza o fato — empiricamente irrecusável — de que o capitalismo se tornou a
primeira ordem econômica verdadeiramente planetária, capaz de impor, ainda que
de modo desigual, um conjunto de práticas, de ritmos produtivos, de exigências
logísticas que ultrapassam fronteiras culturais. Quando Scruton descreve o
capitalismo como uma acumulação de iniciativas locais que, por acaso,
adquiriram escala global, ele enfraquece a percepção da assimetria histórica
que Wallerstein insiste em trazer à luz: a de que alguns países puderam
expandir-se justamente porque outros foram sistematicamente subordinados às suas
exigências.
Essa
subestimação, porém, não deriva de ignorância, mas de uma opção filosófica.
Scruton escolhe olhar para o mundo a partir das continuidades civilizacionais —
a transmissão de formas, a lenta sedimentação de significados, o enraizamento
de práticas simbólicas. Wallerstein, por sua vez, vê no capitalismo a força
que, ao mesmo tempo, arranca essas raízes e cria novas dependências. O conflito
entre ambos não é apenas político; é de cosmovisão. Scruton defende um mundo no
qual a ordem humana emerge de tradições duráveis; Wallerstein descreve um mundo
em que essas tradições são capturadas e redirecionadas por dinâmicas econômicas
que transcendem qualquer contexto particular.
Talvez a pergunta mais incômoda, e que a crítica de Scruton deixa em suspenso,
seja esta: seria possível compreender a modernidade sem reconhecer que o
capitalismo exerce, de fato, uma espécie de gravidade histórica? Uma força
invisível que, como as órbitas celestes, delimita trajetórias mesmo quando não
determina cada movimento? Ao insistir na autonomia das comunidades políticas,
Scruton devolve à história a densidade moral que Wallerstein tende a esvaziar.
Mas ao resistir a reconhecer o alcance global das pressões econômicas que
moldam essas mesmas comunidades, pode terminar por oferecer um quadro
excessivamente elegíaco, mais atento ao valor da herança do que às fraturas ou
deformações que a modernidade impôs sobre ela.
Entre ambos,
permanece o dilema clássico: como conciliar a vastidão estrutural do
capitalismo com a responsabilidade dos agentes individuais? Scruton privilegia
a segunda, Wallerstein a primeira. E talvez a força da disputa esteja
exatamente aí — no atrito entre uma visão que busca salvar o humano e outra que
tenta compreender a história em escala planetária.
Jürgen
Habermas – O Sonhador da Razão sem Corpo e sem História
"Habermas
tenta resgatar o projeto do Iluminismo com sua noção de 'razão comunicativa'.
Mas essa é uma fundação de areia. A sua 'situação ideal de fala' – um domínio
de diálogo livre de coerção – é uma abstração tão utópica e irrealizável quanto
a sociedade sem classes de Marx. Ela não tem poder para se instanciar no mundo
real de interesses conflitantes e lealdades particulares que constitui a vida
política real."
Na abordagem de Scruton a Jürgen Habermas, revela-se uma tensão muito mais do
que um dissenso metodológico: trata-se de uma diferença de horizonte
espiritual, de expectativa quanto ao que a razão humana pode efetivamente
realizar na tessitura da vida coletiva. Desde as primeiras páginas em que trata
do pensador alemão, Scruton concede a Habermas uma distinção raramente
oferecida aos demais representantes da Nova Esquerda: a de que ele ao menos
tenta salvar a ideia de razão. Enquanto outros autores acolhidos nesse
inventário crítico de Thinkers of the New Left se entregam à denúncia ou
ao gesto iconoclasta, Habermas aparece como alguém que busca reconstruir aquilo
que a própria Escola de Frankfurt desmantelara — uma racionalidade não
instrumental, capaz de orientar práticas sociais e reivindicações morais. Mas
esse reconhecimento inicial, quase deferente, não impede Scruton de ver no
projeto habermasiano um rigoroso equívoco intelectual.
O ponto de partida da divergência é a teoria da ação comunicativa.
Habermas vê na linguagem não apenas um meio de transmissão, mas uma arena
normativa onde pretensões de validade são testadas e onde sujeitos racionais,
dispostos ao entendimento, podem chegar a consensos não coercitivos. Para
Scruton, esse cenário, por mais sedutor que seja, tem o odor característico das
construções utópicas: nasce da suposição de que o dissenso humano pode ser
dissolvido no cadinho do discurso, desde que os participantes adotem uma
postura desinteressada e orientada pelo melhor argumento. Esse é, para Scruton,
o equívoco antropológico por excelência. A vida humana, insiste ele, não é
movida em primeiro plano por pretensões de validade, mas por enraizamentos,
lealdades, pertenças que antecedem o diálogo e que não se submetem, sem dano, à
prova discursiva constante.
Seu
conservadorismo se torna aqui uma forma de atenção fenomenológica. A sociedade
não é, nessa perspectiva, um espaço vazio que aguarda o preenchimento por
normas justificadas racionalmente; é um organismo histórico que acumula
sedimentações e que se estabiliza justamente por não depender inteiramente do
acordo explícito dos agentes. Habermas vê nesse dado histórico o risco de
legitimar arbitrariedades, tradições cegas, dominação velada. Scruton responde
que romper a continuidade histórica em nome do discurso puro é privar a
sociedade do solo que a sustenta. A razão que Habermas quer promover é, para
Scruton, uma razão desenraizada — uma razão que ignora o peso da herança
simbólica e institucional sem a qual o próprio ato de comunicar não encontraria
abrigo ou referência.
A crítica
filosófica se adensa quando Scruton examina a proposta de uma ética
discursiva. Para Habermas, a validade moral nasce da possibilidade de
justificar normas perante todos os afetados, numa situação ideal de simetria
comunicativa. Scruton vê nessa idealização um jogo perigoso: uma sociedade que
tentasse submeter todas as suas normas a esse tipo de crivo acabaria por
dissolver a distinção entre o que deve ser discutido e o que simplesmente deve
ser respeitado. A autoridade institucional, a gratidão intergeracional, a
legitimidade do que foi transmitido — tudo se tornaria objeto de contestação
interminável. O resultado, ao invés de uma sociedade mais livre ou mais
razoável, seria uma sociedade fatigada, destituída de confiança, perpetuamente
suspensa num estado de revisão infinita.
Em certo sentido, Scruton acusa Habermas de um excesso de pureza. Em
outros teóricos da Nova Esquerda, a crítica se dirige à corrosão da razão; em
Habermas, paradoxalmente, dirige-se ao seu excesso de ambição. O ideal de uma
razão comunicativa capaz de ordenar a vida social segundo critérios de validade
universal converte-se numa máquina de abstração que perde contato com o
trágico, com a contingência e com a natureza encarnada das comunidades reais. A
“situação ideal de fala” é tomada por Scruton não como um horizonte regulador
plausível, mas como uma metáfora que, quando hipertrofiada, obscurece tudo o
que na vida humana não é transparente à discussão.
Ainda assim, Scruton reconhece que Habermas não se entrega ao niilismo ou ao
cinismo intelectual que ele identifica em Adorno, Marcuse ou Foucault. Há, na
arquitetura habermasiana, um esforço para escapar ao negativismo que consumiu
boa parte da Escola de Frankfurt. Mas esse esforço, para Scruton, tropeça
justamente naquilo que pretende superar: ao construir uma razão quase
transcendental, que exige condições discursivas raramente encontradas no mundo
efetivo, Habermas acaba por erigir uma normatividade sem corpo, uma forma de
racionalidade que paira acima da vida social ao invés de brotar dela.
A distância
entre ambos não é pontual; é estrutural. Habermas pensa a sociedade como um
processo de argumentação contínua. Scruton a concebe como uma continuidade
histórica que argumenta apenas em certos momentos cruciais e que, fora deles,
vive daquilo que não precisa ser discutido. Habermas deposita sua esperança na
comunicação livre de coerções. Scruton deposita a sua na autoridade que se
legitima pela antiguidade e pelos gestos silenciosos da comunidade. Se o
primeiro imagina uma ética fundada no consenso, o segundo vê o consenso como
algo que nasce do hábito, da convivência, não da deliberação abstrata.
A crítica
final de Scruton não é apenas teórica, mas civilizacional. Ao propor um modelo
discursivo de racionalidade, Habermas inadvertidamente fornece, segundo ele,
munição à própria cultura da contestação permanente que alimenta a Nova
Esquerda. Mesmo quando tenta ser moderado, Habermas acaba reforçando a suspeita
contra tradições, autoridades e instituições que não se ajustam ao padrão
discursivo exigido. Desse modo, torna-se — ainda que contra sua intenção — um
aliado indireto na erosão do mundo que Scruton gostaria de preservar.
György Lukács – O Esteta que Jurou Fidelidade ao Partido
“Em Lukács, encontramos pela primeira vez a característica mais marcante e
mais depressiva do pensamento da Nova Esquerda: a crença de que a 'verdade' não
é uma correspondência com a realidade, mas uma expressão do ponto de vista de
classe.”
“Em Lukács, vemos a semente filosófica do totalitarismo que floresceria tão
tragicamente no século XX. A sua filosofia não é um convite ao diálogo, mas uma
declaração de guerra intelectual contra todos que ousam discordar."
Ao abordar György Lukács em Thinkers of the New Left, Scruton adota
uma postura que combina perplexidade, crítica e um certo lamento pela
trajetória de um intelectual cuja sensibilidade literária, em circunstâncias
outras, poderia ter produzido um pensamento estético mais livre e menos
prisioneiro do dogma. Há, no retrato que traça, algo da decepção de quem
contempla um talento vigoroso submetido ao jugo de uma metafísica histórica que
é tão rígida quanto ilusória. Lukács aparece, assim, como o caso paradigmático
do escritor que, seduzido pelo canto do materialismo dialético, transforma a
literatura em uma província da teleologia marxista.
Um dos pontos centrais da crítica de Scruton é a adesão de Lukács ao realismo
socialista. Scruton ressalta que essa adesão, longe de ser uma escolha
apenas estética, constitui uma capitulação filosófica: ao exigir da literatura
que sirva como antecipação da consciência histórica do proletariado, o realismo
socialista impõe ao ato criativo um horizonte de obrigatoriedade moral e
política que o despoja de sua liberdade intrínseca. Lukács, na leitura de
Scruton, submete a forma literária a um tribunal ideológico. A imaginação deixa
de ser o espaço onde o mundo se revela na pluralidade de seus ritmos para
tornar-se um corredor estreito, no qual apenas personagens e situações
alinhadas à lógica da luta de classes merecem existência legítima. Scruton vê
nisso uma redução empobrecedora — uma espécie de mimesis invertida, onde o
objeto não é mais o real, mas o “real concluído” que a dialética promete.
Essa crítica estética repousa sobre uma objeção filosófica mais profunda: o materialismo
dialético de Lukács. Scruton considera que, ao transformar a realidade
social numa sequência necessária de etapas que culminam no comunismo, o
pensador húngaro substitui o juízo crítico pela confiança irrefletida numa
narrativa histórica providencial. A categoria de “totalidade”, tão cara a
Lukács, é interpretada por Scruton como uma forma de absolutização que dissolva
a contingência, o trágico, o singular. A história, nessa concepção, não é um
campo aberto onde a ação humana revela sua incalculabilidade: é uma máquina que
já conhece o seu fim. E, diante dessa máquina, escritores e filósofos não são
chamados a compreender, mas a confirmar.
A rejeição
de Scruton ao sistema lukacsiano adquire, então, um caráter ético. Uma teoria
que exige fidelidade a uma história que ainda não se deu torna-se, para ele,
uma forma de servidão voluntária. O problema não está apenas na falsificação da
arte, mas na falsificação da própria vida. A dialética converte-se num dogma
que legitima repressões, “pedagogias políticas” e vigilâncias culturais. O
intelectual, nesse contexto, torna-se aquele que educa o mundo para um futuro
que ele próprio decretou inevitável. Scruton vê nisso o perigo maior: a fusão
entre filosofia e profecia.
O tratamento
de Lukács, portanto, sintetiza a crítica mais ampla de Scruton à Nova Esquerda.
Trata-se, em última instância, de denunciar a tentação de subordinar a cultura
— e, com ela, a liberdade — a um projeto redentor que promete explicar tudo e
salvar tudo. Lukács é o símbolo dessa tentação: um homem capaz de grandeza
intelectual, mas que escolheu a doutrina em vez da dúvida, o esquema dialético
em vez da complexidade irrepetível das obras literárias e das vidas humanas.
Assim, a
recusa de Scruton ao realismo socialista e ao materialismo dialético não nasce
apenas de uma discordância política, mas de uma fidelidade profunda à autonomia
da arte e à contingência da condição humana. E é nessa fidelidade que ele
encontra a falha decisiva de Lukács — não a de ter acreditado numa revolução,
mas a de ter sacrificado a verdade literária a um futuro imaginado, tornando-se
um ministro da totalidade quando poderia ter sido apenas, e mais livremente, um
leitor do mundo.
Theodor Adorno & Max Horkheimer – Os Gnósticos Contra o Demiurgo
“Adorno e
Horkheimer não conseguiam conceber que as pessoas pudessem encontrar alegria,
significado ou consolo genuínos nas formas de arte que elas próprias escolhiam.
A sua visão pressupõe que as massas são uma entidade passiva e estúpida,
facilmente manipulada pelos barões da mídia, e que apenas uma pequena elite –
uma elite da qual, naturalmente, eles próprios faziam parte – é capaz de
discernir a verdadeira arte e, portanto, a verdadeira liberdade.
A sua análise é, na verdade, uma forma de ressentimento. A cultura de massa,
com sua energia democrática e sua recusa em se curvar aos cânones da alta
cultura modernista, era uma afronta à sua autoridade auto-proclamada como
árbitros do gosto e da verdade. A 'Dialética do Esclarecimento' é, assim, não
uma libertação, mas um lamento pela perda de autoridade da intelligentsia, um
tratado de despeito mascarado de teoria radical."
Ao tratar Adorno e Horkheimer em Thinkers of the New Left, Scruton
parece mover-se com a ambivalência de quem reconhece, ainda que à distância, a espessura
filosófica dos autores da Dialética do Esclarecimento, mas recusa com
firmeza o arcabouço metafísico que sustenta suas conclusões.
Depreende-se de sua leitura uma tensão entre admiração e repulsa: admiração
pelo rigor e pela amplitude cultural dos frankfurtianos; repulsa por aquilo que
ele identifica como uma lógica de suspeita que se volta, indiscriminadamente,
contra a própria civilização que a tornou possível. A análise da Indústria
Cultural ocupa, nesse diagnóstico, um lugar central. Para Scruton, a tese
adorniana de que o entretenimento moderno converte-se num mecanismo de
dominação espiritual não passa de uma generalização hiperbólica, que reduz a
complexidade das práticas culturais a uma função única: a de perpetuar a
alienação.
A crítica e parte do pressuposto de que Adorno e Horkheimer, ao descreverem a
cultura como um produto serializado, esquecem que até mesmo a arte produzida
sob o signo do mercado conserva zonas de autonomia, de graça inesperada, de
resistência íntima à homogeneização. A “passividade” do consumidor é tomada,
segundo os luminares da Escola de Frankfurt, como um dado absoluto, e não como
um fenômeno que exige gradações e distinções. Essa simplificação estaria ligada
ao pessimismo radical da Dialética do Esclarecimento, obra que lê a
razão iluminista como matriz de opressão, como força que, ao matematizar o
mundo, prepara o terreno para a barbárie política. Scruton contesta essa
genealogia da violência moderna: não é a razão, diz ele, que conduz ao
totalitarismo, mas a recusa de suas limitações prudenciais — uma recusa que ele
identifica, ironicamente, tanto no stalinismo quanto nas filosofias negativas
que pretendem denunciá-lo.
A objeção filosófica mais profunda mira o que Scruton entende como a
autocontradição constitutiva do projeto frankfurtiano. Se toda cultura — alta
ou baixa — é contaminada pelo capitalismo tardio e se toda racionalidade é
cúmplice da dominação técnica, de onde falam Adorno e Horkheimer? Qual
fundamento lhes permite emitir juízos normativos? Para Scruton, a crítica da
razão instrumental, ao negar qualquer ponto de apoio transcendental ou
imanente, dissolve também a própria possibilidade de crítica. Seria uma
filosofia que arranca a escada depois de subi-la, sem perceber que continua dependente
dela. A negatividade adorniana, tão célebre, torna-se então uma forma de
ascetismo estético que desconfia de toda consolação, inclusive das que ela
mesma mobiliza.
No campo
social, Scruton julga insuficiente a concepção de “Indústria Cultural” por sua
recusa em distinguir entre manipulação e oferta de sentido. Para ele, Adorno e
Horkheimer leem o entretenimento como uma maquinaria total, sem reconhecer a
pluralidade de usos, apropriações e distâncias irônicas que os indivíduos
constroem em relação a ele. A crítica, ao absolutizar a coerção simbólica,
perde de vista a liberdade prática e a espessura moral da vida cotidiana. E, ao
fazê-lo, repete, segundo Scruton, a velha tentação gnóstica: a ideia de que
apenas alguns poucos enxergam o nexo real de opressão, enquanto a massa
permanece envolta numa falsa consciência intransponível.
Quanto à Dialética
do Esclarecimento, Scruton detecta nela um ressentimento contra a herança
ocidental que beira a iconoclastia. É como se o Iluminismo, em vez de ser uma
etapa ambígua da história europeia, fosse a origem demoníaca de todos os
fracassos modernos. A crítica, aqui, assume um tom quase teológico: os
frankfurtianos transformariam a razão numa entidade culpada, a ser purificada
por uma negatividade que nada promete e nada constrói. Scruton vê nisso um
gesto de niilismo elegante, que seduz pelo estilo, mas empobrece a experiência
humana ao negar a legitimidade das tradições, da autoridade intelectual e dos
vínculos comunitários.
John Kenneth
Galbraith – O Economista da Prosperidade Suspeita
O tratamento
que Scruton dedica a John Kenneth Galbraith, em Thinkers of the New Left,
é exemplar do modo como o autor britânico lê, com uma espécie de ironia
metodológica, os grandes intérpretes do capitalismo tardio. Galbraith, figura
de autoridade quase incontornável na economia política norte-americana, é para
Scruton um sintoma — mais do que um teórico — da tendência moderna a substituir
a análise rigorosa por uma retórica de suspeita. O que incomoda Scruton não é
apenas a crítica galbraithiana à suposta assimetria entre corporações gigantes
e consumidores atomizados, mas o tom de inevitabilidade histórica com que essa
crítica é apresentada. Galbraith, ao falar de tecnoestrutura, de uma
burocracia gerencial que operaria acima da lógica concorrencial, parece a
Scruton ressuscitar, sob outra gramática, o velho argumento socialista de que o
mercado é intrinsecamente incapaz de ordenar a vida econômica.
Scruton observa que Galbraith não apenas denuncia; ele insinua que o
capitalismo se tornou uma ficção confortável demais para aqueles que dele se
beneficiam. A “economia da afluência”, expressão que Galbraith consagrou, é
lida por Scruton como uma imagem sedutora, mas conceptualmente desleixada:
afluência para quem? Em quais condições? À custa de que tipo de liberdade? Há,
no juízo de Scruton, uma desconfiança profunda em relação à facilidade com que
Galbraith, armado de estatísticas impressionantes e frases de refinado
acabamento estilístico, infere conclusões amplas sobre a suposta obsolescência
do mercado. Scruton vê nisso não uma crítica econômica, mas um moralismo
secularizado, herdeiro distante das denúncias puritanas da ostentação.
A objeção filosófica maior, contudo, está em outra camada. Galbraith imagina —
ou assim Scruton o lê — que a racionalidade econômica pode e deve ser
substituída por uma racionalidade política: comissões públicas, regulação
ampliada, formas de controle coletivo capazes de domar a potência das grandes
corporações. É aqui que Scruton reage com veemência. Pois, para ele, a complexidade
dos mercados não é um defeito a ser corrigido por arquiteturas tecnocráticas; é
justamente a condição da liberdade moderna. Desacreditar o mercado, tratá-lo
como uma espécie de superstição burguesa, abre caminho para o que Scruton
considera um erro recorrente da intelligentsia: imaginar que a razão humana,
devidamente educada, pode substituir o tecido vivo das trocas espontâneas.
E, no entanto, seria injusto dizer que Scruton ignora os méritos de Galbraith.
Há em sua crítica um reconhecimento implícito de que o economista captou, com
raro talento literário, o desconforto moral de uma sociedade saturada de bens.
Scruton não nega esse mal-estar; ele apenas recusa a conclusão de que a
resposta esteja fora do mercado. Galbraith vê manipulação, propaganda, desejos
fabricados em série. Scruton, mais sóbrio, sugere que essa leitura desconsidera
a extraordinária capacidade humana de escolha, de resistência e até de ironia
frente aos apelos da publicidade.
O que
finalmente divide os dois pensadores é a crença — ou a ausência dela — na
autolimitação dos indivíduos. Galbraith imagina que a economia moderna conduz,
quase mecanicamente, à passividade. Scruton, fiel a uma antropologia
conservadora, insiste que a responsabilidade pessoal não se dissolve tão
facilmente. Se há consumo excessivo, isto não é prova da falência do mercado,
mas do risco inerente à liberdade. E liberdade, com seus perigos e promessas,
não é para Scruton um bem negociável.
Assim, sua
crítica a Galbraith não é apenas uma defesa do livre mercado; é, antes, uma
defesa da própria ideia de ordem civilizacional fundada em escolhas dispersas,
em tradições que se consolidam não por decreto, mas por hábitos, preferências e
afeições. De certo modo, Scruton lê Galbraith como um moralista desencantado
que vê no capitalismo um teatro de ilusões. Scruton devolve o olhar e vê, onde
Galbraith vê engano, a tragicomédia humana em sua forma mais reconhecível —
falível, mas livre.
Jacques Lacan – O Oráculo da Linguagem Inabitável
"A intelligentsia francesa do pós-guerra estava preparada para
o coup de théâtre que Lacan forneceu. Mergulhada numa cultura de
queixa, e persuadida de que a ordem burguesa era uma massa de ilusões
repressivas, estava pronta para aquele que iria levantar o véu do inconsciente
e mostrá-lo não como um lugar de impulsos pouco recomendáveis, como Freud
sugerira, mas como o local de uma luta metafísica, na qual o sujeito do desejo
é simultaneamente o produto e a vítima da linguagem."
A desconfiança de Scruton diante de Jacques Lacan — e, por extensão, da
psicanálise estrutural — segue o arco maior de sua crítica às correntes
intelectuais que desertaram do “mundo comum”, isto é, daquele espaço no qual
linguagem, intenção e referência ainda mantêm uma relação reconhecível. Lacan,
com seu engenho verbal e sua obstinada opacidade, simboliza para Scruton um
desvio deliberado da responsabilidade filosófica. A psicanálise lacaniana, ao
vestir-se da gramática estruturalista e da matemática simbólica, busca conferir
a seus enunciados a aparência de uma ciência esotérica, quando na verdade —
pensa Scruton — dissolve o sujeito em uma rede de jogos linguísticos que deixa
pouco espaço para a agência, para o erro, para a culpa e, sobretudo, para a possibilidade
de reconciliação interior.
Em Thinkers
of the New Left, Lacan surge quase como uma figura barroca, envolta em
arabescos conceituais que prometem revelar o fundamento inconsciente do desejo,
mas que, na leitura de Scruton, funcionam mais como uma cortina de fumaça. Há
no texto lacaniano uma voltagem retórica que lembra, pela intensidade, certas
seitas gnósticas: somente os iniciados podem atravessar a floresta de
neologismos, essa interminável dança entre o Real, o Imaginário e
o Simbólico. Scruton, fiel a uma tradição filosófica que exige clareza
como forma de honra intelectual, vê nisso não apenas obscurantismo, mas uma
recusa da responsabilidade de dizer.
A objeção é
mais profunda do que uma acusação de estilo. O que incomoda Scruton é o modo
como Lacan, ao redefinir o inconsciente como uma estrutura de linguagem — “o
inconsciente é estruturado como uma linguagem”, diz o axioma tantas vezes
repetido — transforma o sujeito em uma espécie de efeito gramatical. Para Lacan
não há um eu substancial que possa responder por seus atos; há apenas o
deslizamento interminável do significante. Aqui, Scruton identifica o
parentesco direto com a desconstrução derridiana: a palavra nunca repousa, o
sentido é sempre diferido, toda identidade é provisória e toda estabilidade
conceitual é suspeita. O que Derrida opera nos textos, Lacan opera na psique.
Ambos parecem dizer que nenhuma forma de vida simbólica possui legitimidade
suficiente para se erguer sem tremores.
Há, ainda, um ponto mais delicado. Para Scruton, a desconstrução e o lacanismo
compartilham um impulso quase teológico: uma tentativa de decifrar a gramática
última do ser, mas conduzida por uma via que abdica do real. É como se ambos
dissessem que o mundo não pode ser tomado em sua presença imediata; é preciso,
antes, suspeitar dele, desmontá-lo, expor seus mecanismos internos. Mas essa
suspeita, levada ao extremo, torna-se autorreferente: tudo é texto, tudo é máscara,
tudo é discurso. A subjetividade, reduzida a uma ficção lingüística, perde sua
textura moral.
Scruton insiste que a opacidade lacaniana não é um acidente, mas um sintoma. A
psicanálise, que em Freud ainda buscava a reconciliação — a dolorosa travessia
daquilo que nos oprime, rumo a uma clareza possível — converte-se, em Lacan, em
uma celebração do enigma. É como se a cura fosse impossível, porque o próprio
sujeito é impossível. Essa recusa da inteligibilidade ecoa, para Scruton, a
recusa desconstrutiva de qualquer fundamento. É um gesto que abandona a
promessa do logos e abraça, com júbilo, a vertigem do indeterminado.
Assim, sua
crítica a Lacan não é um ataque isolado, mas um capítulo de uma objeção mais
ampla à forma como parte da esquerda intelectual substituiu a preocupação
concreta com o humano por uma exaltação hermética do signo. Scruton, sempre
atento à dignidade da vida ordinária, vê no lacanismo um afastamento do mundo
que fala. E o mundo — insiste ele — continua a falar mesmo quando os teóricos
se fecham na torre de vidro das abstrações.
Gilles Deleuze & Félix Guattari – Os Hagiógrafos da Libido
Ingovernável
"Quando,
nas obras de Lacan, Deleuze e Althusser, a máquina de disparates começou a
debitar as suas frases impenetráveis, das quais nada podia ser entendido exceto
que todas tinham o 'capitalismo' como alvo, parecia que, finalmente, o Nada
havia encontrado a sua voz."
É com certa apreensão — e talvez com uma dose de fascínio desconfiado — que
Scruton se aproxima de Gilles Deleuze e, por extensão inevitável, de Félix
Guattari. O estilo desses autores, tão distante da arquitetura argumentativa
tradicional e tão próximo de uma música sem tema fixo, desperta em Scruton não
apenas desacordo, mas um tipo de estranhamento ontológico. Em Anti-Édipo
e nos textos que orbitam a parceria, o desejo é descrito não como falta, não
como carência freudiana à procura de objeto, mas como produção incessante,
fluxo maquínico, potência sem rosto. Trata-se de uma tentativa de reescrever a
economia psíquica em termos de uma física do impulso. Para Deleuze e Guattari,
a vida do espírito não está presa à árvore genealógica de papéis familiares;
ela se espalha em rizomas, movimentos laterais e subterrâneos que
ignoram o tronco e suas hierarquias.
Scruton vê nesse deslocamento uma recusa frontal de tudo aquilo que, desde
Aristóteles, supúnhamos ser a forma natural da ordem humana. O rizoma,
esse emblema da desterritorialização, torna-se metáfora de um sujeito que não
quer, ou não pode, encontrar repouso. A ontologia rizomática ameaça dissolver a
narrativa do pertencimento, exatamente porque não admite raízes: apenas
conexões momentâneas, linhas de fuga, expansões que recusam a permanência. Há,
aí, um eco das vanguardas que convertiam o caos em método; mas Scruton nota
que, enquanto as vanguardas artísticas ainda buscavam um ponto de contato com o
mundo — alguma espécie de redenção estética — Deleuze e Guattari parecem
empenhados em abolir a noção de mundo estável.
Em Anti-Édipo, essa abolição é conduzida como um ataque jubiloso ao
edifício psicanalítico. Freud, para os autores, havia aprisionado o desejo no
cárcere do Édipo. É preciso libertá-lo, deixá-lo correr como uma corrente
elétrica. Scruton suspeita, porém, que essa “libertação” não seja senão uma
forma de niilismo mascarado: ao destruir os quadros simbólicos nos quais o
desejo se reconhece, Deleuze e Guattari acabam por negar ao sujeito qualquer
forma de residência interior. A fuga permanente converte-se em incapacidade de
habitar. Esse é, para Scruton, o gesto típico da Nova Esquerda: a recusa da
forma, a dissolução da estrutura, o desprezo pelas instituições que, embora
imperfeitas, sustentam a continuidade da vida humana.
O livro, lê
Scruton, é atravessado por uma espécie de entusiasmo febril pela desordem. O
desejo — apresentado como máquina desejante — não busca harmonia, mas
produção, acoplamento, ruptura. Tudo se transforma em fluxo inconsciente, e a
própria sociedade é vista como sistema repressivo que tenta conter forças
“anárquicas” primitivas. Scruton observa que essa antropologia se aproxima perigosamente
de um vitalismo sem meditação, onde a criatividade não é mais o resultado de um
espírito disciplinado, mas de uma erupção espontânea, quase biológica.
Uma das
críticas mais contundentes que Scruton dirige a Deleuze e Guattari vem
justamente dessa suspeita de que Anti-Édipo funciona como panfleto
metafísico de uma rebeldia estrutural: a recusa de toda mediação, de toda
autoridade, de toda forma de institucionalidade. A psicanálise tradicional, ao
menos em seu ideal, tentou organizar o caos pulsional e integrá-lo na vida do
adulto. Rejeitar esse projeto, para Scruton, não é apenas discordar de Freud: é
anunciar que a própria ideia de maturação está corrompida pela sociedade
repressiva. O que fica é uma exaltação do infantil, do fragmentário, do
excitável.
Portanto, na
leitura de Scruton, existe uma afinidade profunda entre o “desejo maquínico” e
o anti-institucionalismo da Nova Esquerda. O desejo, liberado de qualquer
estrutura, torna-se metáfora política: o indivíduo que rejeita o Édipo é também
aquele que rejeita o Estado, a tradição, a autoridade. A crítica, aqui, alcança
seu ponto mais filosófico: Scruton argumenta que o desejo sem forma não cria
comunidade; cria apenas tempestades de subjetividade inconclusa. A gramática
moral, que depende de compromissos estáveis, esfarela-se sob o impacto dessa
ontologia do fluxo permanente.
A recusa do Édipo converte-se em recusa do mundo. E é esse gesto, sempre
repetido sob múltiplas máscaras, que ele identifica como um dos impulsos
centrais da Nova Esquerda: a ânsia pela dissolução, celebrada como redenção.
Edward Said – O Guardião das Feridas Imaginadas do Oriente
A leitura que Scruton faz de Edward Said — e, sobretudo, de Orientalism
— inscreve-se naquele esforço característico de seu pensamento: desmontar
críticas à cultura ocidental que lhe parecem não apenas excessivas, mas
estruturalmente viciadas. O livro de Said tornou-se o grande catecismo de uma
sensibilidade acadêmica que vê na Europa uma máquina incansável de dominação
simbólica. A palavra orientalismo, nesse contexto, não se refere apenas
a um campo de estudos, mas a um pecado original. Said transforma, segundo
Scruton, o próprio ato de interpretar o Oriente num gesto suspeito, quase
criminoso, de apropriação intelectual. A denúncia não recai sobre obras
específicas; recai sobre a própria possibilidade de conhecimento.
É aí que
Scruton vê o primeiro desvio filosófico. A crítica de Said, ao insistir que
toda representação do “Outro” é marcada por relações de poder, desloca o
problema do domínio empírico para uma espécie de teorema moral. Em vez de
perguntar se um dado estudo é criterioso, rigoroso ou limitado, Said julga que
tais estudos são irremediavelmente moldados pela estrutura de poder que os
engendra. O a priori da culpa substitui a avaliação do conteúdo. Para
Scruton, isso significa dissolver o método histórico em psicologia política;
transforma-se o arquivo num tribunal e o pesquisador num réu.
A afirmação de que o Ocidente “inventou” o Oriente parece-lhe uma acusação que
se autodestrói: se toda descrição do outro é invenção interessada, então também
o diagnóstico de Said sofre do mesmo vício. Ao denunciar o “discurso
orientalista”, Said participa inevitavelmente dele, recodificando-o como
denúncia. É o círculo hermenêutico transformado em armadilha.
No núcleo da crítica de Scruton está esta objeção: Said confunde crítica
literária com sociologia do poder, e, nesse movimento, acaba por ignorar a
plausibilidade factual de muitos dos estudiosos que condena. A tradição
orientalista, longe de ser uma fantasia imperial homogênea, inclui filólogos,
historiadores, linguistas, viajantes, alguns movidos por curiosidade estética,
outros por rigor científico. Reduzir esse conjunto multiforme a instrumento
colonial é, para Scruton, um tipo de iconoclastia intelectual que sacrifica a
verdade histórica a uma narrativa acusatória. Orientalism, nesse
sentido, torna-se menos obra de erudição do que manifesto moral.
Mas a
crítica de Scruton não se limita ao passado da filologia orientalista. Seu alvo
maior é o efeito cultural do livro: a legitimação de uma sensibilidade para a
qual toda tradição ocidental é vista como dispositivo de poder. A consequência,
diz ele, é a paralisia interpretativa: se todo ato de compreensão do outro é
suspeito, resta apenas a afirmação ressentida de identidades incomunicáveis. A
universidade, sob essa atmosfera, transforma-se num palco em que grupos
competem por denunciar opressões históricas, real ou imaginárias, enquanto o
estudo desinteressado das culturas se torna cada vez mais difícil.
Há,
finalmente, uma divergência filosófica mais profunda. Said parece supor que a
assimetria entre observador e observado invalida o conhecimento; Scruton
insiste que toda relação humana contém assimetrias, e que a tarefa da cultura é
justamente atravessá-las. A representação do outro — inevitavelmente parcial —
é também possibilidade de encontro. Eliminar essa possibilidade em nome da
pureza política seria, a seus olhos, abolir a própria ideia de civilização. Desse
modo, sua crítica a Said, embora severa, é também lamento: a substituição da
curiosidade pelo ressentimento, da filologia pela vigilância moral, da crítica
pela suspeita infinita. Em The Thinkers of the New Left, esse lamento
transforma-se em diagnóstico de uma época que, ao punir o olhar, empobrece o
mundo.
Alain Badiou – O Matemático da Verdade Miraculosa
A leitura que Scruton faz de Alain Badiou repousa sobre uma desconfiança ampla,
visceral, diante da tentativa contemporânea de submeter a filosofia a um
vocabulário matemático erigido como ontologia absoluta. A ambição badiousiana
de declarar que “a matemática é a ontologia” — que o ser enquanto ser coincide
com o conjunto, com as operações formais da teoria dos conjuntos — parece a
Scruton uma espécie de monismo abstrato, um gesto grandioso que, ao
procurar conferir à filosofia uma precisão geométrica, termina por expulsar
dela tudo aquilo que a constitui como reflexão sobre a experiência humana. É
como se Badiou, ao elevar o formalismo ao estatuto de fundamento do real,
convertesse a própria vida em uma exceção irrelevante, algo que só importa
quando pode ser traduzido no jargão algébrico de um sistema que se quer
incontestável.
Scruton vê
nisso não apenas uma escolha metodológica, mas uma fuga deliberada da tradição
filosófica que reconhece o entrelaçamento entre ser e linguagem, entre
mundo e valor. O ser, em Badiou, não é vivido: é calculado. A ontologia
torna-se uma espécie de matemática dos anjos, sem carne, sem história, sem
aquela densidade do real que faz da filosofia um campo em que o humano se arrisca
e se interroga. A abstração, quando total, não ilumina: dissolve.
É nesse cenário que emerge o conceito de evento, tão central ao
edifício badiousiano. O evento é aquilo que rompe o regime do ser, que irrompe
como pura novidade, inaugurando verdades que exigem fidelidade. Para Scruton,
porém, essa teoria do evento carrega uma ambivalência perigosa. Ela promete
redenções seculares, epifanias laicas que substituem a graça por uma espécie de
militância ontológica. O acontecimento revolucionário — político, amoroso,
científico — adquire um halo quase messiânico. A fidelidade ao evento
torna-se, assim, uma ética que dispensa prudência, continuidade, moderação:
virtudes que, para o pensamento conservador, são indispensáveis à preservação
de uma ordem civil. Badiou convoca seus discípulos a permanecer fiéis ao
irrompimento, a uma ruptura que exige uma dedicação quase sacrificial. Scruton
vê nisso o eco familiar de outros projetos que também prometeram uma renovação
completa do mundo, e que tantas vezes desembocaram no terror político.
Há ainda um
ponto filosófico mais profundo: Badiou procura fundar o universal no
acontecimento, mas esse universal nasce de uma decisão arbitrária, subjetiva,
que transforma o indivíduo em guardião de uma verdade cuja legitimidade não
pode ser verificada por critérios racionais comuns. A verdade badiousiana não é
argumentada: é afirmada, sustentada pelo fervor da fidelidade. Para Scruton,
essa substituição do diálogo pelo compromisso absoluto roça o dogmatismo, ainda
que envolto em linguagem matemática. O formalismo não purifica — apenas mascara
o salto de fé.
Latente em Badiou, se conserva intacto um ardor pelo absoluto sem Deus. O risco
é que a filosofia se transforme, novamente, num conjunto de promessas
escatológicas disfarçadas de teoria. A matemática, então, deixa de ser
instrumento de rigor para se tornar aura de autoridade. O evento, pensado como
ruptura total, deixa de iluminar a história e passa a exigir dela uma
obediência incondicional.
Slavoj Žižek – O Hegeliano Circense da Revolução Adiada
No modo como Scruton lê Slavoj Žižek, uma espécie de fascínio desencantado,
como quem observa um ilusionista demasiado consciente de seus truques. Ele
reconhece no filósofo esloveno um talento raro para manipular referências — de
Hitchcock a Lacan, de Hegel a atos falhos da cultura pop — e, ainda assim,
suspeita que essa torrente de alusões esconde um vazio teórico cuidadosamente
disfarçado. O riso, sempre à espreita nas performances de Žižek, parece a
Scruton menos um recurso estilístico do que uma defesa: rir antes que o
argumento seja escrutinado; dissolver o conceito no gesto anedótico; converter
o pensamento em espetáculo.
A presença de Lacan é aqui decisiva. Žižek, herdeiro obstinado do retorno a
Freud mediado pelo estruturalismo parisiense, vê no inconsciente uma
topografia política. Ele trata a ideologia como sintoma, como aquilo que
retorna em lapsos da linguagem e na montagem imaginária dos desejos. Para
Scruton, esse uso de Lacan termina por reduzir a esfera política a uma
dramaturgia psíquica: escolhas culturais e conflitos sociais seriam, no fundo,
variações do mesmo circuito libidinal. A história, nesse registro, perde
densidade; o sujeito, dissolvido na linguagem, converte-se numa função do grande
Outro. Scruton, sempre atento às fragilidades do humanismo desfigurado,
pergunta-se onde fica, nesse esquema, o agente moral concreto — a pessoa que
decide, erra, promete, constrói laços.
Em Žižek, a leitura de Hegel tampouco se oferece como reconciliação. É um Hegel
filtrado por Lacan, um Hegel da negatividade incessante, do real que resiste a
qualquer síntese final. Scruton enxerga nisso uma inversão do hegelianismo: o
sistema deixa de aspirar à inteligibilidade do mundo para celebrar seu caráter
traumático. O negativo, elevado à condição de motor absoluto, torna-se
justificativa para uma política que, não raro, flerta com a catástrofe como
forma de purificação. A partilha do sensível, para Žižek, passa pela
reabilitação do terror revolucionário, pela ideia de que só a ruptura violenta
pode expor a verdade recalcada das sociedades.
O pensamento de Žižek opera, por assim dizer, na interseção entre um lacanismo
de matiz estrutural e um hegelianismo reconfigurado como dialética do trauma.
Essa fusão produz um estilo que oscila entre a provocação e o oráculo, entre o
comentário cinematográfico e o aforismo político. Mas para Scruton, a conjunção
é intelectualmente suspeita: Lacan propõe uma visão da subjetividade centrada
na fratura, no descompasso entre o eu e sua imagem; Hegel, ao contrário,
trabalha com uma teleologia do espírito. Colocar esses dois mundos em
continuidade, como faz Žižek, exige um salto especulativo que nem sempre se
sustenta. O resultado, diria Scruton, é um edifício conceitual instável,
mantido de pé mais pelo brilho performático do autor do que por uma coerência
filosófica intrínseca.
Além disso, Scruton identifica no projeto žižekiano certa aversão estrutural à
ordem. A crítica cultural que Žižek mobiliza tem como alvo preferencial as
instituições herdadas, as práticas consolidadas, os hábitos que, para o
pensamento conservador, constituem o tecido mesmo da civilização. Ao
reinterpretá-las como ficções ideológicas necessárias à manutenção do supereu
social, Žižek desfaz, em poucas frases, o que Scruton considera uma conquista
delicada: a continuidade cultural como forma de sabedoria. Se toda tradição é
sintoma, então nada merece ser preservado senão a própria crítica — uma
crítica, ademais, sem freios, que se alimenta do colapso que ela mesma anuncia.
Em suma, Scruton lê o espetáculo desse pensador de palco com cautela. Não lhe
falta inteligência, tampouco erudição; falta-lhe, a seus olhos, aquilo que dá
gravidade à filosofia: um reconhecimento da vulnerabilidade humana e das
instituições que procuram ampará-la. No âmago, Scruton sugere que Žižek é
movido por um desejo de desestabilização permanente — um impulso que, traduzido
em crítica cultural, pode seduzir pela energia, mas raramente oferece ao leitor
aquilo de que as sociedades realmente necessitam: um horizonte de
responsabilidade, de presença e de forma.
E. P. Thompson – O Poeta da Classe Trabalhadora Imaginária
"Na obra de E. P. Thompson, especialmente em A Formação da
Classe Operária Inglesa, encontramos um dos mais influentes exemplos do que se
pode chamar de 'mitologia de esquerda'. Thompson procura resgatar da 'enorme
condescendência da posteridade' o artesão e o trabalhador rural do século
XVIII, apresentando-o não como era – um homem de seus próprios tempos, com seus
próprios preconceitos e lealdades locais –, mas como ele deveria ter sido:
um protomarxista, um herói da consciência de classe, cujos motins e protestos
eram atos de uma luta emancipatória consciente.
O que ele celebra não é a realidade histórica, mas um arquétipo, uma ficção
política útil para as batalhas ideológicas do século XX. A sua história não é
uma investigação desinteressada, mas uma ferramenta de doutrinação, que
substitui o homem real do passado por um ícone conveniente para a esquerda de
hoje."
Há uma espécie de ironia melancólica quando Scruton se volta para E. P.
Thompson, pois ali encontra não o hermetismo teórico dos filósofos que povoam o
panteão da Nova Esquerda continental, mas algo mais subtil: a tentativa de
insuflar dignidade épica numa classe trabalhadora que, para Scruton, jamais se
apresentou em cena com os contornos dramáticos que Thompson lhe atribui. É essa
a acusação, formulada com uma mistura de severidade e certa compaixão
intelectual: Thompson, em The Making of the English Working Class, não
descreve; ele mitifica. Substitui a cronologia fria por uma teleologia moral.
Para Scruton, a classe trabalhadora torna-se, nesse relato, não uma entidade
histórica com contradições, divisões internas e ambiguidades, mas uma espécie
de povo eleito, intérprete involuntário de um drama emancipatório cujo roteiro
ecoa a teologia secular do marxismo humanista.
Nesse aspecto, a crítica de Scruton é mais metodológica do que puramente
ideológica. Ele vê em Thompson a abdicação deliberada de um princípio básico da
historiografia: a sobriedade diante das fontes. A escrita de Thompson, ao
enfatizar agency, resistência popular e gestos de autodeterminação, é
lida por Scruton como um rearranjo das evidências em função de uma
sensibilidade romântica que deseja encontrar coerência onde talvez tenha havido
apenas contingência. Essa suspeita retorna em vários momentos: Scruton
considera que Thompson julga a história com um ardor moral que, embora
literariamente estimulante, retira dela uma parte essencial de sua verdade
concreta. Não se trata de negar a importância de Thompson para o revisionismo
britânico pós-1956, nem de subestimar sua capacidade de reabrir debates sobre
plebe, cultura e experiência; trata-se, antes, de rejeitar o modo como esse
impulso revisionista se converte, em suas mãos, num drama político quase
messiânico.
Se Thompson é, para Scruton, o poeta tardio de uma Inglaterra que já não
existe, Perry Anderson representa outro fenômeno. Em Anderson, Scruton encontra
a arquitetura intelectual do marxismo britânico preocupado em integrar-se a uma
tradição filosófica continental que lhe era, pelo menos inicialmente, estranha.
Ao contrário de Thompson, Anderson não mitifica a classe trabalhadora; ele
mitifica o sistema. Sua leitura histórica, influenciada por Gramsci, Althusser,
Lukács e pelas várias revisões sucessivas do marxismo ocidental, é vista por
Scruton como a tentativa de inscrever a história inglesa numa narrativa
estrutural que ela jamais solicitou para si. O historicismo de Anderson, de
inspiração cripto-hegeliana, transforma os fracassos políticos do proletariado
britânico não em fatos a serem examinados, mas em anomalias a serem explicadas
pela suposta especificidade reacionária das instituições nacionais. A história,
nesse registro, perde sua faculdade empírica para ganhar coerência teórica.
Scruton considera essa operação particularmente perniciosa porque desloca a narrativa
histórica do terreno das práticas sociais para o das tipologias abstratas. É
como se a Inglaterra — com sua tradição jurídica, sua vida associativa, seus
laços comunitários e a lenta formação de sua esfera pública — fosse reduzida a
uma nota de rodapé na dialética entre forças produtivas e hegemonia cultural.
Para Scruton, o marxismo britânico representado por Anderson erra justamente
por recusar-se a admitir que a trajetória inglesa não cabe nos esquemas que
moldaram o continente. Falta-lhe, portanto, uma maturidade hermenêutica: a
capacidade de reconhecer que a história vive, muitas vezes, de exceções, não de
leis.
No entanto, é importante notar como Scruton diferencia essas críticas dirigidas
a Thompson e Anderson daquelas reservadas aos pensadores continentais. Quando
critica Foucault, Deleuze, Adorno ou Lacan, Scruton parece denunciar uma
espécie de contaminação da razão pelo delírio teórico; acusa-os de se perderem
em jogos verbais que devoram o próprio objeto de estudo. Com Thompson e Anderson,
porém, a crítica é outra. Scruton reconhece que ambos ainda trabalham dentro de
uma disciplina que, ao menos em princípio, mantém compromisso com o real
verificável. A crítica, assim, torna-se mais precisa: é na torção
interpretativa, no excesso de construção narrativa, no fascínio pela teleologia
revolucionária, que o filósofo conservador localiza o erro. Eles não abandonam
o mundo; apenas o reconfiguram segundo necessidades ideológicas.
Essa diferença de tom também marca a posição de Scruton acerca da Nova Esquerda
britânica em contraste com a continental. Na primeira, ele vê uma disputa pela
história; na segunda, uma fuga para longe dela. As figuras britânicas, por mais
politizadas que sejam, ainda operam com documentos, instituições, datas, geografias
culturais. Há nelas, por assim dizer, um residuum de empiria que torna o debate
possível. O mesmo não ocorre, aos olhos de Scruton, com certos teóricos
franceses e alemães, cuja prosa se desprende das condições materiais até
tornar-se quase anfíbia, suspensa entre filosofia, literatura e política.
Ao final, o
leitor percebe que o alvo de Scruton não é apenas o marxismo como doutrina, mas
a tentação, sempre renovada, de transformar a história em épico moral. Contra
essa tentação, Scruton opõe o senso trágico, a consciência de que as sociedades
não são moldadas apenas por injustiças que esperam correção, mas por construções
históricas que carregam ambivalências irredutíveis. É dentro dessa visão — que
ele considera mais fiel à gravidade do humano — que sua crítica a Thompson e
Anderson adquire pleno sentido. Eles não erram por construir interpretações;
erram, segundo Scruton, por exigir da história uma redenção que talvez ela não
possa oferecer.
O Que Há
de Errado Com a Nova Esquerda?
O grande problema,
para Roger Scruton, não é apenas a militância intelectual da Nova Esquerda, mas
o modo como esse movimento — disperso, heterogêneo — se enreda numa teia
conceitual incapaz de dar forma ao que, afinal, constitui uma sociedade
política. Ao contrário das tradições que compreendem o Estado como uma lenta consolidação
de costumes, lealdades e obrigações recíprocas, a Nova Esquerda, em sua
multiplicidade de vozes, parece operar sobretudo pela negação. O que se oferece
é uma crítica contínua das instituições, dos discursos e das hierarquias;
raramente, porém, emerge uma teoria positiva do Estado capaz de sustentar a
vida comum após o incêndio. Scruton observa que a energia intelectual desses
autores se concentra na dessacralização das estruturas vigentes — e nesse gesto
há, de fato, uma inteligência analítica poderosa —, mas falta-lhes uma
antropologia política que reconheça a fragilidade do que mantém os indivíduos
unidos. A ausência de tal visão conduz, inevitavelmente, a uma política de
abstrações: liberdade como slogan, igualdade como promessa incalculável,
emancipação como horizonte apocalíptico. Sem uma concepção do Estado como
guardião das mediações trágicas da vida social, resta apenas a expectativa de
que a pura crítica possa um dia converter-se em ordem.
Essa propensão ao negativo está enraizada na herança que a Nova Esquerda recebe
daquilo que Ricoeur chamou de escola da suspeita. Marx, Nietzsche e
Freud, cada um à sua maneira, instituíram a desconfiança como método; ensinaram
a olhar qualquer enunciado moral ou político como sintoma de algo oculto —
ideologia, ressentimento, recalque. A Nova Esquerda, ao apropriar-se desse
impulso hermenêutico, transforma a suspeita em hábito intelectual: toda
instituição é mascaramento, toda convenção é opressão, toda narrativa de
pertencimento é uma ficção destinada a preservar privilégios. O gesto
interpretativo se converte, então, em corrosão permanente; como se a tarefa do
pensamento fosse dissolver cada forma de autoridade em seus supostos
componentes patológicos. Para Scruton, tal hermenêutica conduz ao
empobrecimento da vida pública, pois torna impossível distinguir entre aquilo
que merece ser criticado e aquilo que, embora imperfeito, constitui o tecido
indispensável da convivência humana. A suspeita — erigida em princípio absoluto
— destrói não apenas as justificações duvidosas, mas também os fundamentos de
confiança e continuidade que dão sentido às instituições.
Em sua crítica, Scruton sugere que a sociedade não vive apenas de
transparência, mas de mistérios compartilhados; não apenas de direitos, mas de
deveres assumidos; não apenas de emancipações, mas de sacrifícios. É aqui que
ele identifica outra falha decisiva da Nova Esquerda: sua recusa sutil, quase
reflexa, em reconhecer a função moral da culpa e do sacrifício no processo
civilizatório. A culpa, para ele, é o reconhecimento de nossa dívida para com
os outros, para com os mortos que nos antecederam, para com as instituições que
sustentam a precariedade do humano. Não se trata de neurose coletiva, mas de um
sentimento que limita o ímpeto destrutivo e produz responsabilidade. A Nova
Esquerda, porém, tende a reinterpretar a culpa como instrumento de dominação
simbólica, como resíduo teológico de uma ordem moral ultrapassada; o
sacrifício, por sua vez, é visto como mecanismo disciplinar, como renúncia
imposta. Scruton insiste que essa leitura desconsidera aquilo que há de
profundamente humano na renúncia voluntária: o ato de abrir mão de algo
imediato em nome de uma continuidade maior. A moralidade, lembra ele, é uma
construção lenta que implica perdas; os rituais, as obrigações, as fidelidades
não são caprichos da tradição, mas estruturas de contenção do caos.
Desse modo, sua crítica atravessa as páginas como um murmúrio grave: uma
sociedade que abdica da noção de culpa perde a consciência de sua própria
historicidade; uma sociedade que rejeita o sacrifício dissolve o elo entre as
gerações; uma sociedade que transforma a suspeita em dogma torna-se incapaz de
preservar aquilo que merece durar. A Nova Esquerda, com seu impulso libertário,
oferece uma promessa sedutora: a de uma humanidade reconciliada consigo mesma
depois de remover todos os véus da dominação. Mas essa promessa depende de uma
antropologia radicalmente otimista — a crença de que o homem, libertado das
estruturas, florescerá espontaneamente. É precisamente aqui que Scruton vê a
falha final: ao recusar as ambivalências da condição humana, a Nova Esquerda
sonha com uma pureza política que não se sustenta na realidade do desejo, da
violência, da fragilidade e do conflito inerentes ao homem.
No fundo, sua crítica é menos um libelo contra certos autores e mais um chamado
à sobriedade. A política nasce da consciência de que as instituições carregam
imperfeições insuperáveis, mas também protegem contra desastres profundos; que
a cultura é um tesouro herdado e não uma ficção manipulável; que a ordem não é
o oposto da liberdade, mas sua condição silenciosa. A Nova Esquerda, ao propor
uma crítica incessante sem um esboço de ordem possível uma espécie de vazio
messiânico: uma espera por algo que não pode nascer porque destruiu seus
próprios instrumentos de fundação. E é justamente nesse ponto que o livro se
torna, para o leitor atento, menos uma diatribe e mais um ensaio sobre o custo
espiritual das ideias políticas que preferem a pureza ao mundo real.
Da relevância suprema de denunciar os autores da Nova Esquerda
A elaboração dos ensaios que compõem o livro surge de um ambiente de predominância
absoluta da Nova Esquerda nos ambientes universitários. Scruton via, com uma
espécie de tristeza vigilante, como a universidade — que deveria ser o
território da busca desinteressada pela verdade, esse ideal quase monástico que
atravessa a história europeia como um fio de ouro — tornara-se, nas últimas
décadas, um instrumento maleável de causas políticas, ora libertárias, ora
revolucionárias, ora identitárias. A politização do currículo, observa ele,
opera por uma inversão metódica: disciplinas e programas deixam de interrogar o
real para confirmar uma ortodoxia previamente assumida; a leitura se reduz a
denúncia; a crítica, outrora exercício de rigor, torna-se gesto de militância.
Não se trata de lamentar nostalgicamente uma pureza perdida — ele sabe que
toda instituição humana é atravessada por forças antagônicas —, mas de
registrar a metamorfose da universidade em campo de batalha simbólico. O mestre
não é mais aquele que, como no antigo studium, orienta o aluno no
difícil caminho entre ignorância e claridade; torna-se, antes, o militante
pedagógico que oferece ao discípulo uma revelação política e a promessa de
pertencer à vanguarda moral da época. Nessa transformação, algo decisivo se
perde: a objetividade, no sentido mais nobre do termo — não o empirismo
estéril, mas a disposição de permitir que o objeto do conhecimento imponha sua
forma ao sujeito, e não o contrário. A verdade, esse hóspede exigente,
retira-se quando a sala de aula se converte em assembleia. O que resta é uma
coreografia de slogans, uma pálida sombra do pensamento.
Passadas décadas desde a publicação do livro, a crítica de Scruton parece
ter ganhado uma segunda vida, espelhando-se nas fraturas ideológicas que marcam
o século XXI. Aquilo que ele denunciava como uma hermenêutica da suspeita
aplicada a todos os aspectos da cultura reaparece, com vigor renovado, nos
movimentos associados ao chamado wokeness. Neles, a tendência da Nova
Esquerda de interpretar as relações sociais como sistemas de opressão
totalizantes encontra sua forma mais militante: o discurso público se submete
ao escrutínio permanente do politicamente correto; identidades são
absolutizadas; a história converte-se em catálogo de pecados estruturais. A
politização da linguagem, da arte, da educação — temas que Scruton tratou com
acuidade — reaparece não apenas nos departamentos universitários, mas nas
corporações, nas redes sociais, na vida cotidiana.
Do mesmo modo, a crítica escrutoniana ao pós-modernismo identitário encontra
eco num horizonte intelectual que desconfia de qualquer universalidade e vê em
toda norma uma imposição arbitrária. O relativismo ontológico, nascido das
leituras pós-estruturalistas e nutrido por Derrida, Foucault, Lyotard,
reaparece agora como sensibilidade cultural dominante. A ideia de que não há
verdade, apenas narrativas; não há natureza, apenas construções; não há
civilização, apenas dispositivos de poder — tudo isso, examinado por Scruton
com prudência e severidade, tornou-se um lugar-comum nos debates
contemporâneos. Até mesmo os movimentos anticapitalistas de hoje, embora muitas
vezes careçam do arcabouço teórico marxista clássico, herdaram de seus
predecessores a retórica do antagonismo total, esse vício intelectual que reduz
a sociedade a um teatro moral entre vítimas e algozes.
Se o livro antecipa tais desenvolvimentos, é porque Scruton viu com rara
nitidez o que estava em jogo: não apenas a luta entre ideologias, mas uma
mudança no regime espiritual do Ocidente. Ele pressentiu que a crítica
absoluta, quando desconectada de qualquer fidelidade ao real ou ao
transcendente, gera um vácuo moral. É desse vácuo, argumenta, que brotam tanto
o radicalismo identitário quanto a hostilidade ao patrimônio civilizacional. Em
certo sentido, suas páginas funcionam como um comentário precoce àquilo que
hoje se chama “guerra cultural”, embora Scruton jamais tenha reduzido a cultura
a slogans.
A publicação
original do livro marcou profundamente sua carreira. Não foi um avanço
triunfal, mas um exílio. O jovem filósofo, então morador de uma Cambridge
dominada pelos ecos de Maio de 68, tornou-se persona non grata entre colegas
que viam na Nova Esquerda não apenas um conjunto de ideias, mas um imperativo
moral. O livro custou-lhe oportunidades acadêmicas, convites, amizades. A
recepção foi marcada por hostilidade, silêncio estratégico ou desdém. Scruton,
que desejava participar de um debate filosófico honesto, descobriu que certas
críticas não seriam toleradas.
Entretanto,
a longo prazo, a obra consolidou sua posição singular: a de um pensador que se
recusou a curvar-se ao espírito da época. Tornou-se referência para círculos
conservadores e objeto de irritação persistente para setores da academia. Sua
marginalização inicial acabou por moldar sua trajetória: afastado dos salões
universitários mais prestigiados, Scruton dedicou-se a escrever para o público
mais amplo, a pensar a beleza, a arte, a identidade nacional, a importância do
pertencimento. Transformou a exclusão em vocação.
Hoje, ao
revisitar o livro, percebe-se que sua força não reside na polêmica passageira,
mas na precisão com que captura a metamorfose do pensamento político moderno.
Scruton escreve como quem deseja resgatar a gravidade do ato de pensar — essa
gravidade que se perde quando o pensamento se torna milícia. Sua crítica à
politização da universidade, sua leitura profética dos movimentos
emancipatórios e sua trajetória pessoal após a publicação formam um conjunto
que ilumina tanto o objeto criticado quanto o próprio crítico. E é desse
contraste, áspero e luminoso, que ainda emana a relevância inquietante do
livro.

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