A China e a Guerra Silenciosa pelos Recursos Naturais
Em Winner
Take All, Dambisa Moyo descreve a cartografia emergente de um século XXI
governado pela escassez e pela busca incessante de recursos naturais, e o faz
com um sentido de urgência que recorda aquelas análises em que o destino de
nações inteiras se desenha a partir de forças subterrâneas – demografia,
geologia, geografia, energia – que raramente aparecem nos discursos públicos. A
demanda global por commodities, nesse século que ainda se encontra em sua
primeira curva histórica, assume, para Moyo (e para quem pensa geopoliticamente),
a forma de um eixo silencioso do poder. Ela não é apenas um fenômeno de
mercado: é um cronômetro global que ordena o tempo estratégico dos Estados,
seus medos, suas apostas e seus fracassos.
Moyo parte de um diagnóstico simples e, por isso mesmo, perturbador: o mundo
urbaniza-se, enriquece-se parcialmente, multiplica camadas de consumo e expande
uma classe média planetária que, ao emergir, passa a desejar um padrão material
de existência historicamente inédito. Esse processo, embora celebrado como
sinal de vitalidade econômica, desloca o centro de gravidade da demanda por
recursos naturais; as commodities tornam-se vetor de reorganização do sistema
internacional. O que antes era um mercado relativamente estável, mediado por
ciclos econômicos previsíveis e pela dominação ocidental, converte-se em um
campo de competição mais intensa, em que países emergentes disputam com as
antigas potências industriais o direito de manter suas populações conectadas ao
circuito da modernidade. Nessa tensão, a autora enxerga uma espécie de nova
geopolítica das necessidades materiais, em que petróleo, gás, cobre, ferro,
madeira, água e terras aráveis funcionam como indicadores do grau de
vulnerabilidade das nações.
A demanda global redefine os termos do poder entre países desenvolvidos,
emergentes e em desenvolvimento. Para aqueles que já acumularam capital,
infraestrutura e tecnologia, essa demanda é vivida como risco de perda
relativa: o Ocidente descobre, desconfortavelmente, que sua superioridade
depende de um conjunto de fluxos materiais sobre os quais já não detém
monopólio. Para as economias emergentes, especialmente as populosas e em rápido
crescimento, como a China, ela se apresenta como oportunidade de consolidar
hegemonia. Já para países pobres, muitas vezes ricos em recursos, a demanda é
ambígua: pode tanto abrir portas para investimentos e receitas quanto reforçar
dependências históricas, produzindo formas renovadas de subordinação.
É nesse cenário que Moyo insere a atuação chinesa. Na leitura da autora, a
China não apenas interpreta a nova demanda como uma janela estratégica, mas
responde a ela com uma coerência estatal rara nos modelos ocidentais
contemporâneos. A busca chinesa por recursos naturais converte-se em política
de Estado e em expressão concreta de um projeto civilizacional voltado à
manutenção de crescimento interno, coesão social e continuidade política. Essa
ambição é articulada por meio de mecanismos que, ainda que possam ser
comparados a práticas imperiais antigas, diferem substancialmente dos métodos
históricos das potências ocidentais do século XIX e XX.
Moyo
descreve, com precisão e distanciamento analítico, os instrumentos utilizados
por Pequim. O primeiro deles é o uso planejado e massivo de financiamento
estatal a longo prazo, viabilizado por reservas cambiais vultosas e pela
capacidade do Estado chinês de controlar bancos, empresas e fluxos comerciais.
Com essa combinação, a China oferece aos países produtores de commodities algo
que os credores ocidentais nunca forneceram de forma consolidada: crédito
rápido, sem exigências políticas explícitas, acoplado a projetos de
infraestrutura que, em muitos casos, respondem a demandas internas desses
países. Portos, ferrovias, rodovias, barragens, hospitais, redes elétricas,
parques industriais - tudo isso integra o pacote estratégico chinês.
O segundo mecanismo é a diplomacia das garantias de fornecimento. Em vez de
depender exclusivamente dos mercados globais, sujeitos a volatilidade e
disputa, Pequim busca contratos de longo prazo e acordos bilaterais que lhe
asseguram o acesso contínuo a petróleo, minerais e outros insumos críticos.
Essa estratégia permite reduzir vulnerabilidades e criar uma teia diplomática
que fortalece sua presença planetária. Onde o Ocidente historicamente operou
com empresas privadas buscando lucro e instrumentos políticos de pressão -
tratados assimétricos, ingerências, condicionalidades -, a China prefere a
modalidade que Moyo descreve como mutualismo pragmático: oferta de
capital e infraestrutura em troca de acesso garantido a recursos.
Um terceiro
mecanismo é o envio de mão de obra, engenheiros, técnicos e administradores.
Assim como impérios antes dela, a China desloca seus próprios cidadãos para
regiões estratégicas, consolidando redes sociais e econômicas que funcionam
como extensões de sua presença nacional. Esse movimento, porém, não se
configura como colonialismo convencional; ele é um vetor econômico do Estado,
não um projeto explícito de assimilação territorial. Trata-se, ainda assim, de
uma forma de influência que altera equilíbrios locais e inaugura novos tipos de
dependência.
Essa
combinação de instrumentos distingue-se das práticas ocidentais não apenas em
termos operacionais, mas na própria lógica interna. As potências europeias, no
auge de seu poder, extraíam recursos por meio de um controle político direto ou
por mecanismos financeiros que refletiam sua supremacia militar. Já os Estados
Unidos, ao longo do século XX, articularam sua influência sobre commodities por
meio de alianças geoestratégicas e de um sistema global de segurança que
sustentava rotas marítimas e regimes de preços. A China, ao contrário, opera
pela via econômica direta, usando o peso de seu mercado interno e sua
capacidade de financiamento como ferramenta diplomática. Em vez de projéteis,
projeta capitais; em vez de bases militares, ergue portos comerciais; em vez de
discursos moralizadores, oferece pragmatismo.
Essa
abordagem reflete a articulação, enfatizada por Moyo, entre crescimento
econômico chinês, escassez de recursos e reconfiguração geopolítica. Para a
autora, o milagre econômico chinês tem um fundamento material inegociável: a
China precisa garantir, continuamente, o abastecimento de sua vasta população
urbana e industrial. A escassez não é um conceito abstrato; é um fantasma que
ronda a estabilidade política do país. Faltas de energia, interrupções no
fornecimento de matérias-primas, volatilidades estruturais na importação de
alimentos – tudo isso ameaça não apenas a economia, mas o pacto social que
legitima o governo chinês. Isso explica, em parte, por que o país investe com
tanta determinação em cadeias globais de suprimento, diversificação geográfica
e parcerias estruturais.
Essa relação
entre crescimento e escassez produz uma geopolítica particular: a China age
como potência que se prepara para um mundo de limites físicos rigorosos. Sua
política externa de recursos, conforme interpretada por Moyo, é menos um gesto
expansionista tradicional e mais um mecanismo de autodefesa civilizacional. A
autora argumenta que o século XXI poderá testemunhar um deslocamento do eixo do
poder global para países que souberem articular sua política externa em torno
do abastecimento de recursos. E, entre eles, a China aparece como protagonista.
Os
investimentos chineses em infraestrutura na África e na América Latina
constituem a face mais visível dessa estratégia. Em ambos os continentes,
Pequim identifica governos ansiosos por modernizar seus territórios, superar
déficits históricos e ampliar sua capacidade de extração de riqueza. Estradas
que conectam regiões isoladas, portos capazes de escoar toneladas de minérios,
linhas de transmissão que integram áreas rurais a centros urbanos: tudo isso
compõe uma teia em que o interesse chinês se sobrepõe ao desejo local de
desenvolvimento. Moyo observa que, em muitos casos, esses projetos representam
a transformação física do espaço, alterando paisagens e redes logísticas. O
mapa da África ocidental, por exemplo, adquire novos corredores de escoamento, enquanto
o interior brasileiro passa a abrigar ferrovias e terminais financiados por
capital chinês.
Há, contudo,
uma camada mais profunda nessa política: ao construir infraestrutura, a China
redefine ecologias de poder. Estradas e portos não são estruturas neutras; são
instrumentos de ordenação do território e de integração de regiões periféricas
à economia global. Ao financiar tais obras, Pequim cria dependências que não
precisam ser explicitamente políticas; basta que sejam funcionais. A ferrovia
que escoa minério africano para o litoral não apenas serve ao comércio; ela
ancora, silenciosamente, a presença chinesa no interior de países onde, antes,
o alcance estrangeiro era limitado. A mesma lógica se aplica a barragens e
redes elétricas: ao prover energia, a China torna-se parte indispensável da
operação estatal e privada.
Essa
interdependência, ainda que vista por muitos analistas como forma de
neocolonialismo, é descrita por Moyo com nuances. A autora reconhece que há
benefícios concretos para os países receptores: infraestrutura física,
empregos, aumento de capacidade logística. Esses elementos não são ilusões.
Entretanto, ela alerta que tais investimentos podem reforçar elites locais e
reproduzir desigualdades internas. A ausência de condicionalidades políticas
pode, paradoxalmente, perpetuar regimes autoritários, uma vez que não há
pressão por reformas institucionais. É um tipo de troca que preserva a
autonomia formal dos governos, mas cria dependências estruturais que limitam
alternativas futuras.
A cruzada chinesa para garantir recursos naturais
A leitura de Winner Take All oferece um panorama das pressões
materiais que configuram o século XXI, em um momento em que a demanda global
por commodities deixou de ser um fenômeno setorial para tornar-se uma das
forças estruturantes da ordem internacional. Moyo descreve esse movimento sem
recorrer a abstrações. Ela observa a paisagem de concreto e poeira onde
minerais, grãos e barris de petróleo fluem na direção das economias que mais
crescem, reposicionando países inteiros conforme sua capacidade de produzir,
comprar ou controlar tais fluxos. A demanda global, sobretudo a demanda
asiática, redefine o equilíbrio de poder porque subtrai dos países tradicionais
- Europa Ocidental, Estados Unidos, Japão - a segurança que por décadas lhes
permitiu operar sem limites na arena internacional. Com a industrialização
acelerada da China, da Índia e de outros atores emergentes, a pressão sobre
recursos finitos se converteu em um elemento de coerção silenciosa, capaz de
influenciar decisões diplomáticas e contratuais muito além do que indicadores
macroeconômicos sugeririam.
Moyo insiste
que, diferentemente do cenário do pós-guerra, a disputa por commodities não
pode mais ser compreendida como mera competição de mercado. A demanda chinesa
opera em uma escala que altera o preço de referência global de minérios,
combustíveis e alimentos. Não se trata de uma economia que absorve excedentes;
trata-se de uma economia que cria novas geometrias de dependência. Nesse
cenário, países dotados de recursos abundantemente exploráveis deixam de ser
periféricos. A autora identifica África, partes da América Latina e certas
regiões da Ásia Central como peças estratégicas no tabuleiro da redistribuição
do poder mundial. A industrialização contínua da China age como motor que
rearranja essas peças. A demanda chinesa oferece a tais países algo que o
Ocidente, em décadas de retórica desenvolvimentista, raramente entregou:
liquidez imediata, obras de infraestrutura, empréstimos de longo prazo e a
promessa de estabilidade política mediante parcerias duradouras.
Ao examinar
a estratégia global chinesa, Moyo descreve mecanismos que diferem do padrão
histórico das potências ocidentais. Onde o Ocidente construiu redes comerciais
baseadas em instituições multilaterais, acordos formais e discursos
universalistas, a China avançou por vias laterais - bilaterais, pragmáticas,
frequentemente opacas. Não busca reformar sistemas, busca garantir
fornecimento. Não ergue coalizões amplas, mas estabelece relações de
dependência mútua com governos específicos. Em vez de condicionar
financiamentos a padrões democráticos, oferece fluidez transacional:
empréstimos contra commodities, obras de infraestrutura condicionadas a acesso
preferencial, presença empresarial de longo alcance que se infiltra nas
economias locais por meio de bancos, estatais e conglomerados híbridos. Para
Moyo, esse repertório constitui uma modalidade distinta de projeção de poder.
Ele se apoia em contratos, não em tratados; em engenharia, não em intervenções
militares; em pragmatismo, não em valores normativos. A consequência é uma
forma de influência que cresce sem ser declarada, que consolida posições sem
gerar manchetes.
Essa abordagem se torna mais evidente quando se observa a relação entre
crescimento econômico chinês, escassez de recursos e reconfiguração
geopolítica. Moyo descreve o crescimento da China como um processo que devora
insumos em proporção sem precedentes. A urbanização de centenas de milhões
exige aço, cimento, petróleo, cobre, carvão, terras raras. Cada quilômetro de
ferrovia, cada nova cidade erguida no interior chinês ecoa na paisagem política
de continentes inteiros. E, à medida que os limites físicos das commodities
tornam-se mais pressionados, a China reage não apenas comprando no mercado
global, mas redesenhando o próprio mercado. Seus investimentos em
infraestrutura na África e na América Latina não constituem filantropia, mas
estratégia. Portos, rodovias, barragens e oleodutos são instalados como
extensões da logística de abastecimento chinesa. Moyo observa que, mesmo quando
tais obras oferecem benefícios tangíveis às populações locais, elas permanecem
integradas a um plano maior, que não cessa de operar quando as obras ficam
prontas: a inserção dos países hospedeiros em uma teia de dependências
previsíveis.
Há fatores internos e externos que, segundo Moyo, impulsionaram essa campanha
global. Internamente, o Partido Comunista compreendeu que a estabilidade
doméstica depende da manutenção do crescimento econômico. A legitimidade
política chinesa repousa sobre o aumento contínuo do padrão de vida, da renda
urbana e da capacidade produtiva. Esse modelo exige suprimentos estáveis,
independentemente das flutuações do mercado. Além disso, o país possui
limitações geológicas: pouca disponibilidade de petróleo de alta qualidade,
reservas irrigáveis pressionadas por décadas de industrialização e um consumo
energético crescente que depende do exterior. Esses fatores combinados geram
algo mais forte do que interesse econômico: produzem imperativos estratégicos.
Externamente, a volatilidade dos preços das commodities durante as crises
globais mostrou aos chineses que depender exclusivamente da compra em mercados
abertos os manteria vulneráveis a dinâmicas políticas e especulativas. A
instabilidade no Oriente Médio, os ciclos de securitização do petróleo, o
protecionismo agrícola e a competição ocidental por minérios estratégicos
funcionaram como catalisadores que empurraram Pequim para uma postura mais
assertiva.
É nesse ponto que Moyo introduz uma distinção essencial para compreender Winner
Take All: a diferença entre escassez geológica e escassez política ou
econômica. A autora rejeita leituras alarmistas que afirmam que o mundo estaria
"ficando sem recursos" de maneira absoluta. Ela sustenta que a
escassez relevante é, na maior parte das vezes, resultado de decisões
políticas, falhas de infraestrutura, restrições tecnológicas, conflitos
regionais ou barreiras comerciais. As reservas de petróleo, de cobre ou de
cobalto podem ser substanciais no subsolo, mas inacessíveis devido a instabilidade
institucional, ausência de investimento ou disputas territoriais. O que
determina o peso geopolítico de uma commodity não é apenas sua abundância
física, mas a capacidade de transformá-la em fluxo contínuo e confiável. A
escassez geológica é lenta e previsível; a escassez política é rápida, súbita,
capaz de desencadear crises diplomáticas, choques de preços e realinhamentos
estratégicos. E é nesse ambiente, permeado por incertezas políticas, que a
China se move com mais velocidade do que seus concorrentes.
Para explicar essa movimentação, Moyo recorre ao conceito que denomina de Novo
Mercantilismo. A expressão procura captar o modo pelo qual China e outras
potências emergentes articulam economia e política externa. No mercantilismo
clássico, os Estados competiam por metais preciosos, rotas marítimas e
monopólios coloniais. No Novo Mercantilismo, competem por recursos naturais,
segurança energética e cadeias logísticas. Os instrumentos mudaram, mas a
lógica permanece: quem controla o suprimento controla o destino de regiões
inteiras. No entendimento de Moyo, essa abordagem não é mero retorno ao passado,
mas adaptação contemporânea de antigas compulsões humanas. O mundo multipolar
intensifica rivalidades; a escassez relativa intensifica a sensação de
vulnerabilidade; a vulnerabilidade estimula Estados a agir de modo preemptivo.
A China se destaca nesse processo por combinar paciência estratégica com enorme
capacidade operacional. Seus bancos estatais podem financiar obras colossais;
suas empresas conseguem operar em ambientes de risco que corporações ocidentais
evitam; seu governo se apoia em uma cultura diplomática que privilegia a
continuidade.
A autora salienta que esse Novo Mercantilismo não se limita à China. Países do
Golfo, Coreia do Sul, Índia e até mesmo algumas economias do Sudeste Asiático
desenvolvem políticas semelhantes, embora com intensidades distintas. O que
diferencia a China é a escala: a magnitude de sua demanda e a dimensão de seus
excedentes financeiros permitem que avance em múltiplos continentes
simultaneamente. Moyo descreve essa expansão como um processo em camadas. Há a
camada da infraestrutura física, visível, monumental. Há a camada dos contratos
de longo prazo, assinados muitas vezes longe do escrutínio internacional. E há
a camada da influência política, construída de modo gradual. Países que recebem
investimentos chineses tornam-se parceiros preferenciais; parceiros
preferenciais tornam-se dependentes; dependentes tornam-se previsíveis. Para
Moyo, previsibilidade é uma forma de poder.
Em sua
análise, ela evita retratar a China como vilã. Sua prosa não abraça posições
moralistas; concentra-se nos fatos, nos fluxos, nos movimentos tectônicos das
economias. O que emerge é o retrato de um mundo em transição, no qual países
outrora marginalizados tornam-se epicentros de disputa. O Ocidente, acostumado
a ditar as condições de trocas comerciais, encontra-se diante de um ator que
domina a arte do cálculo estratégico silencioso. A China age movida pela
preocupação de garantir seu futuro em um planeta cujos limites ecológicos e
políticos se tornam mais evidentes. E, na visão de Moyo, ignorar essa realidade
constitui erro fundamental.
A corrida
por terras aráveis na África
Uma cena silenciosa que percorre toda a análise
da autora ao examinar a corrida mundial pela posse da terra cultivável: a
paisagem de vastas planícies que mudam de donos sem que seus habitantes
percebam que se tornou irônico chamar aquele solo de “pátria”. A autora observa
que diversos governos estrangeiros - sobretudo o grande Estado industrializado
do Leste Asiático - voltaram seu olhar para regiões férteis do continente
africano, atraídos pela promessa de uma segurança alimentar que suas fronteiras
não conseguem mais assegurar. A demanda interna desse gigante demográfico,
marcada por pressões populacionais e um apetite energético ininterrupto, não
lhe concede o luxo da autossuficiência. Diante disso, arrendamentos extensos,
concessões obscuras e negociações realizadas longe do olhar público passaram a
formar uma nova cartografia da dependência. A autora registra as suspeitas que
emergem desse movimento: populações locais receiam ser empurradas para as
margens do desenvolvimento, vendo terras tradicionalmente ocupadas serem
cedidas a estrangeiros. Ela aponta também para o descompasso entre governos
nacionais que selam acordos e comunidades rurais que arcam com seus efeitos.
Nessa paisagem, a corrida por terras agrícolas adquire um sentido político e
moral, não apenas econômico. A autora sugere que a imagem de tratores
estrangeiros revolvendo solos ancestrais ilustra, com força suficiente, a nova
simetria do poder global.
Tal mudança não se limita ao campo agrícola. Os investimentos realizados pelo
grande Estado do Leste Asiático em infraestrutura no continente africano
constituem outro eixo decisivo de sua reflexão. Para a autora, esses
investimentos carregam um duplo significado. Por um lado, promovem benefícios
difíceis de ignorar: estradas onde antes havia apenas trilhas; portos capazes
de integrar economias periféricas à circulação mundial; redes elétricas que
substituem a escuridão por alguma expectativa de modernidade. Muitas vezes,
governos locais encontram nessa parceria a única alternativa realista para
superar décadas de isolamento econômico. Todavia, o outro lado dessa equação é
composto por riscos que se acumulam silenciosamente. Entre eles, destaca-se a
dependência financeira: empréstimos volumosos, concedidos com velocidade
impressionante, podem aprisionar economias frágeis em ciclos prolongados de
endividamento. Há ainda as suspeitas sobre práticas trabalhistas, pois
empreiteiras estrangeiras tendem a importar sua própria mão de obra, reduzindo
o impacto positivo sobre o emprego local. Em determinadas regiões, ecos de
ressentimento se fazem ouvir: moradores percebem que a nova infraestrutura
atende antes aos fluxos de exportação de matérias-primas do que às necessidades
cotidianas das populações. A autora não assume um tom panfletário; prefere expor
a ambivalência intrínseca, sugerindo que esses investimentos representam ao
mesmo tempo oportunidade e fardo, avanço e risco, abertura e vulnerabilidade.
Na visão dela, a balança entre esses polos ainda está em disputa.
A volatilidade dos preços das commodities globais, analisada com um olhar atento
às dinâmicas estruturais da demanda, é apresentada como um efeito colateral
inevitável da inserção vigorosa daquele país asiático nas cadeias mundiais de
suprimentos. O súbito aumento da procura por petróleo, minérios e alimentos
básicos fez com que mercados tradicionalmente estáveis se tornassem sensíveis a
qualquer variação marginal de oferta. A autora menciona episódios em que
oscilações internas nesse grande Estado industrial repercutiram em picos e
quedas abruptas nos preços internacionais: a desaceleração de sua construção
civil reduziu de imediato a demanda por aço e cobre; a intensificação de
projetos de infraestrutura elevou, por outro lado, a procura por carvão e
cimento, gerando instabilidade para países produtores. Ela descreve momentos em
que o preço dos cereais subiu de modo vertiginoso, não apenas pela pressão
demográfica, mas também pela mudança dos padrões alimentares urbanos, cada vez
mais inclinados ao consumo de proteínas que exigem grandes volumes de grãos.
Essa nova geografia do consumo tornou vulneráveis até mesmo economias que antes
se consideravam imunes às convulsões internacionais.
Há um elemento adicional que consolida sua análise: a interdependência
crescente entre países fornecedores de commodities e o grande comprador
asiático. A autora observa que, ao contrário do que ocorria em décadas
anteriores, em que as oscilações de preço eram ditadas sobretudo por centros
financeiros ocidentais, hoje essas curvas dependem do ritmo industrial e das
escolhas estratégicas de um único Estado, cujo projeto de longo prazo não
parece disposto a se ajustar às expectativas externas. Em tal ambiente,
produtores de petróleo, gás, cobre, ferro e soja se veem obrigados a
reinterpretar seus próprios modelos de desenvolvimento, pois suas receitas
públicas estão diretamente vinculadas ao humor econômico de um país que, embora
distante, se tornou o eixo de sua prosperidade e, paradoxalmente, de sua
vulnerabilidade.
Nesse contexto ampliado, Moyo procura mostrar que a disputa global por
commodities não é meramente um capítulo de economia internacional; trata-se de
um fenômeno que remodela fronteiras de influência, redefine prioridades
nacionais e altera a própria noção de soberania. A corrida por terras agrícolas,
com seus contratos de arrendamento que ultrapassam gerações, é a face mais
visível desse processo. Os investimentos em infraestrutura, com suas avenidas
recém-pavimentadas que conduzem ao porto, simbolizam o novo ordenamento das
trocas. E a volatilidade dos preços das commodities revela que o sistema
internacional se encontra suspenso entre promessas de crescimento e riscos de
colapso estrutural. A autora escreve com a precisão de quem observa padrões
históricos e reconhece que o século XXI será marcado menos pela disputa
ideológica e mais pela luta por recursos tangíveis, essenciais e finitos. Sua
obra, nesse sentido, não é uma advertência apocalíptica, mas um convite a
compreender a natureza profunda das transformações que já moldam o presente.
O mercado do dólar e as commodities
A competição tecnológica - e, por extensão, a militar - não é sustentada apenas
por fábricas, cientistas e laboratórios; ela se estrutura sobre depósitos
geológicos cuja distribuição desigual cria relações de dependência mais
profundas do que tratados diplomáticos ou tarifas alfandegárias. É nesse ponto
que Moyo demonstra maior acuidade: na percepção de que os metais raros são a
nova gramática do poder, definições invisíveis que determinam possibilidades
estratégicas de nações inteiras.
O caráter disperso desses elementos - disperso em concentração, mas concentrado
em localização - molda um cenário em que o país que controla a etapa inicial da
cadeia extrativa controla, de modo indireto porém decisivo, todas as etapas
subsequentes: processamento, manufatura de alta tecnologia, exportação de
produtos estratégicos e, finalmente, influência política. A autora observa que
não se trata apenas de dominar reservas; trata-se de dominar a capacidade de
separação, refino e fornecimento contínuo, algo que exige capital, comando
estatal e uma visão de longo prazo que poucas sociedades cultivaram com
disciplina.
Quando a China consolidou quase a totalidade da cadeia de terras raras, não
apenas ampliou sua capacidade industrial; adquiriu o poder de estrangular
setores inteiros do Ocidente sem disparar um único tiro. O silêncio desses
elementos - invisíveis à política, mas onipresentes em cada dispositivo
contemporâneo - confere ao regime chinês uma espécie de alavanca estrutural, o
braço de ferro que sustenta seu salto tecnológico e que redefine os termos do
equilíbrio militar no Pacífico e além.
Ao analisar esse movimento, Moyo não recorre à retórica inflamada. Ela
descreve, com certa frieza analítica, a forma como a concentração geográfica
desses metais cria dependências que se consolidam de modo lento e inevitável.
Países que negligenciaram investimentos de longo prazo tornaram-se vulneráveis.
A dependência de terras raras para fabricação de mísseis guiados,
supercondutores, painéis solares ou sistemas de comunicação aproxima-se, em seu
efeito, da dependência que outrora se tinha do petróleo.
No entanto, há uma diferença essencial: o petróleo moldou o século XX por ser
abundante e homogêneo; os metais raros moldam o século XXI por serem escassos e
heterogêneos, cada qual indispensável a um nicho tecnológico que não admite
substituição imediata. A vulnerabilidade estrutural que decorre disso não se
distribui igualmente. Nações como os Estados Unidos e o Japão, apesar de seus
recursos financeiros, enfrentam atrasos de anos para reconstruir cadeias
extrativas e industriais que, no caso chinês, foram erguidas de modo paciente
ao longo de décadas. É nesse ponto que o livro se torna um aviso, quase uma
cartilha geopolítica: quem controla a extração e o refino desses elementos
controla o futuro tecnológico.
Moyo vai além da questão mineral ao enumerar as categorias de commodities que,
em sua avaliação, sustentam a segurança econômica e o crescimento futuro da
China. Ela aduz tratar-se de um conjunto que articula energia, agricultura e
minerais estratégicos. Esses três campos, que poderiam ser examinados
separadamente, formam na verdade um triângulo de sustentação para um país que
se moderniza à velocidade de um século por década. A energia permanece o
fundamento silencioso de toda a expansão chinesa. O país compreendeu, ainda nos
anos 1990, que sua industrialização exigiria não apenas importação crescente de
petróleo, mas controle de rotas marítimas e diversificação por meio de gás natural,
carvão e energia nuclear. Esse mosaico energético não se limita ao consumo
interno: ele alimenta a lógica de investimentos externos, molda o escopo da
Iniciativa Cinturão e Rota e redefine alianças com produtores na África e na
Ásia Central.
O segundo pilar é agrícola. A China, historicamente vulnerável em segurança
alimentar, percebeu que não poderia depender de mercados voláteis para
alimentar mais de um bilhão de pessoas. Moyo insiste que Beijing considera
terras aráveis tão estratégicas quanto petróleo. A corrida por terras na
África, frequentemente interpretada como uma forma de neocolonialismo
econômico, adquire, na leitura da autora, um sentido quase existencial:
garantir que a população chinesa permaneça alimentada independentemente de crises
climáticas ou choques de oferta global. O investimento em fertilizantes,
técnicas de irrigação, acordos de longo prazo e produção externa não é
improviso; é parte de um cálculo civilizacional.
O terceiro pilar são os minerais estratégicos - aqui incluídos tanto os metais
raros quanto outros recursos indispensáveis à transição energética, como cobre,
níquel e lítio. A China domina o refino do lítio, controla grande parte da
produção de baterias e assegura cadeias logísticas que vão do Chile ao Congo. A
autora demonstra que esses elementos não são apenas insumos econômicos; são
ingredientes de uma estratégia que visa a alterar, de modo gradual, a posição
relativa da China no sistema internacional. Esses três grupos - energia,
agricultura e minerais - constituem as commodities que definirão o crescimento
chinês e, ao mesmo tempo, a margem de manobra do país diante de pressões
externas. O resultado é um quadro em que a China estrutura sua segurança
nacional a partir de um portfólio diversificado de dependências, cuidadosamente
administradas, enquanto promove dependências assimétricas em seus parceiros.
Dambisa Moyo não se limita ao campo material dos recursos físicos. Há um
elemento financeiro que atravessa seu raciocínio: o domínio do dólar americano
e sua relação intrínseca com o mercado de commodities. Em sua análise, o dólar
funciona como o sangue que percorre o corpo do comércio global. A precificação
universal de commodities em dólares permite aos Estados Unidos exercer um tipo
singular de poder: a capacidade de projetar influência monetária sobre transações
vitais para países que nem sempre são seus aliados. O petrodólar, uma invenção
dos anos 1970, tornou-se a base de um sistema no qual as oscilações de política
monetária em Washington repercutem nos cofres de países que dependem de
importação de energia. Esse arranjo concede aos Estados Unidos uma vantagem
estrutural que nenhuma outra potência possui: a capacidade de financiar
déficits sem provocar fuga imediata de capitais, pois o dólar permanece a moeda
de liquidação para transações essenciais.
A autora sugere que a China observa esse quadro com uma inquietação silenciosa.
Não por desejo de substituir o dólar de imediato - tarefa postergável -, mas
por ambição de reduzir sua exposição às decisões tomadas pelo Federal Reserve.
Ao comprar ouro em volumes crescentes, firmar contratos bilaterais denominados
em yuan e estabelecer mecanismos de compensação financeira alternativos, o país
busca uma margem de autonomia. Para além disso, investe pesadamente em mercados
futuros e em infraestrutura financeira, como o CIPS, uma rede de pagamentos que
funciona como alternativa parcial ao sistema SWIFT. Não se trata de confrontar
diretamente o dólar, mas de construir, camada após camada, uma arquitetura
paralela que permita à China operar fora do alcance de sanções unilaterais e de
choques de liquidez derivados da política interna americana.
Nesse ponto, Moyo demonstra não apenas conhecimento econômico, mas
sensibilidade histórica. Ela compreende que moedas hegemônicas não caem de um
dia para o outro; elas declinam em fases, enquanto novas redes de confiança são
tecidas. A estratégia chinesa, portanto, não se define por hostilidade aberta,
mas por persistência. A diversificação de reservas, o estímulo ao uso
internacional do yuan e a formação de um mercado de commodities precificadas
fora do dólar são sinais de uma potência que pretende escapar da arquitetura
financeira moldada após Bretton Woods. A autora observa que o domínio do dólar
cria uma simetria curiosa: os Estados Unidos mantêm poder geopolítico enquanto
seus rivais financiam esse poder ao comprar Treasuries para proteger suas
próprias reservas. A China, consciente dessa ironia, busca neutralizá-la.
Não é possível compreender esses movimentos sem perceber o modo como a China
enxerga vulnerabilidade. Um país com trajetória marcada por invasões
estrangeiras e fome nacional desenvolveu uma espécie de instinto geopolítico
baseado no acúmulo preventivo de garantias. As commodities, nessa lógica, são
mais do que recursos: são escudos. A busca chinesa por metais raros, por
petróleo, por terras agrícolas, por minerais estratégicos e por alternativas ao
dólar compõe um único esforço, tecido com coerência interna. Moyo descreve esse
esforço como um projeto de Estado, não como mero impulso mercantil. Há algo de
implacável e, ao mesmo tempo, de prudente nesse comportamento: o país age para
garantir que jamais seja novamente subordinado à vontade de potências marítimas
ou financeiras.
Problemáticas da estratégia chinesa
Ao refletir sobre os estratagemas chineses, os problemas surgem não porque
a China busque deliberadamente enfraquecer Estados estrangeiros, mas porque sua
estratégia de aquisição de recursos se acomoda com facilidade à arquitetura
existente nesses países - uma arquitetura que, na África e em partes da Ásia, é
permeada por elites predatórias, estruturas informais de poder e sistemas
jurídicos frágeis. A autora aponta que o fluxo de capitais chineses para
setores como petróleo, cobre e minérios raros, em países como Angola, Zâmbia e
Sudão, opera frequentemente sem o escrutínio público que acompanharia
investimentos ocidentais vinculados a organizações multilaterais. Há casos em
que governos autoritários ou semiautoritários utilizam os recursos provenientes
de empréstimos chineses para manter redes de patronagem interna, perpetuar
dinastias políticas e neutralizar opositores. O resultado é uma erosão silenciosa
do que resta de transparência e accountability.
O exemplo de Angola ocupa lugar central nessa reflexão. Após décadas de guerra
civil, o país transformou o petróleo em sua principal fonte de renda. Os
contratos firmados com entidades chinesas - envolvendo pré-financiamento
garantido por petróleo futuro - permitiram ao governo reconstruir parte da
infraestrutura nacional, mas também reforçaram mecanismos internos de
opacidade. Moyo observa que esses acordos não exigem, ao contrário dos
empréstimos ocidentais, reformas estruturais ou auditorias independentes. Isso
significa que parte substancial dos recursos pode ser desviada para contas
privadas, alimentar esquemas de corrupção ou sustentar redes clientelistas. A
autora descreve esse processo sem moralismo: trata-se, para ela, de uma
consequência previsível da combinação entre capital abundante e instituições
fracas.
Outro caso emblemático aparece na Zâmbia, onde investimentos chineses no setor
de cobre geraram empregos e receita fiscal, mas também tensões políticas. A
ausência de cláusulas trabalhistas mais rígidas e de exigências ambientais
mínimas permitiu que certos projetos operassem de maneira desordenada,
fomentando conflitos entre trabalhadores locais e empresas controladas por
Beijing. O impacto sobre a governança manifesta-se não apenas em corrupção
financeira, mas em erosão da confiança pública e em tensões sociais internas,
que fragilizam ainda mais Estados já vulneráveis.
A autora cita ainda o caso do Sudão, onde a combinação de petróleo e autoritarismo
produziu um ambiente no qual o capital chinês foi absorvido sem contrapesos
institucionais. Os investimentos, embora cruciais para financiar o regime,
contribuíram indiretamente para prolongar estruturas políticas profundamente
repressivas. Moyo não atribui responsabilidade exclusiva à China; ela aponta
que qualquer potência que opere em ambientes de governança frágil participa,
ainda que involuntariamente, de um ciclo de deterioração. Porém, o alcance e a
velocidade do apetite chinês amplificam os riscos.
Essas análises conduzem à segunda grande vertente do livro: as ferramentas
financeiras e diplomáticas utilizadas pela China para garantir acesso seguro e
estável a recursos naturais. É nesse ponto que Moyo demonstra habilidade ao
conectar instrumentos econômicos a objetivos geopolíticos. A autora descreve
com minúcia o uso de empréstimos em troca de recursos - mecanismo que se tornou
marca registrada de Beijing. Esses empréstimos, concedidos principalmente por
bancos estatais como o Exim Bank e o Banco de Desenvolvimento da China, são
garantidos por commodities futuras: petróleo angolano, cobre congolês, minério
de ferro guineense. O risco para a China é reduzido porque a garantia é física;
o risco para o país fornecedor, ao contrário, é elevado, pois parte de suas
exportações futuras fica comprometida por décadas.
Os contratos de pré-pagamento de petróleo representam outro instrumento
central. A autora descreve o caso da Venezuela, onde acordos bilionários
comprometeram grande parte da produção futura do país como forma de pagamento
por empréstimos chineses. O mecanismo, embora útil para garantir fluxo contínuo
de petróleo para Beijing, limitou a margem de manobra do governo venezuelano na
administração de sua economia, agravando vulnerabilidades estruturais. Para
Moyo, tais arranjos demonstram a capacidade chinesa de integrar instrumentos
financeiros e estratégicos com uma naturalidade que raras vezes se vê em
potências tradicionais.
As joint ventures formam o terceiro eixo da estratégia chinesa. Em países como
República Democrática do Congo, Nigéria e Gana, empresas estatais chinesas
estabelecem parcerias com governos locais para exploração mineral ou para a
construção de infraestrutura crítica. A peculiaridade dessas parcerias está no
fato de que, frequentemente, a China oferece não apenas capital, mas
engenharia, mão de obra e equipamentos - criando uma cadeia de dependência que
ultrapassa o valor do contrato inicial. O projeto Sicomines, na RDC, sintetiza
esse padrão. Em troca de bilhões de dólares em infraestrutura, empresas
chinesas obtiveram acesso privilegiado a depósitos de cobre e cobalto. O acordo
foi celebrado como vitória diplomática pelo governo congolês, mas resultou em
críticas da sociedade civil devido à falta de transparência e à percepção de
que o país estava entregando recursos estratégicos sem garantias claras de
benefício social.
A diplomacia chinesa complementa essa teia de instrumentos econômicos. Moyo
observa que Beijing utiliza fóruns multilaterais - especialmente o Fórum de
Cooperação China-África - para consolidar sua presença e coordenar pacotes de
investimentos que misturam créditos, obras de infraestrutura e cooperação
técnica. Essa diplomacia econômica opera com base em princípios de não
ingerência, que agradam governos autoritários por dispensarem exigências de
reformas políticas. Ao mesmo tempo, cria uma esfera de influência que, embora
não se manifeste por bases militares ou alianças tradicionais, estabelece
vínculos profundos e duradouros.
A autora mostra que essa combinação de empréstimos, joint ventures e contratos
de pré-pagamento gera uma arquitetura de dependências de longo prazo. Para
países em desenvolvimento com pouca capacidade institucional, trata-se de
acordos que transformam seu futuro econômico numa extensão dos interesses
chineses. Para Moyo, é uma situação que exige cautela. Ela não defende o
isolamento em relação à China; defende, isso sim, a criação de mecanismos que
impeçam que tais acordos reproduzam padrões históricos de exploração, agora em
chave asiática.
Esse panorama desemboca na advertência central de Moyo - talvez a contribuição
mais perturbadora de seu livro. Se a dinâmica de o vencedor leva tudo
permanecer intacta, o mundo pode caminhar para uma era de escassez estratégica,
marcada por rivalidades cada vez mais intensas. O alerta é dirigido tanto às
economias desenvolvidas quanto aos países em desenvolvimento. Para os
primeiros, o aviso é que sua negligência em relação ao investimento em
commodities - sobretudo energia, agricultura e minerais críticos - os coloca em
posição de vulnerabilidade diante de uma potência que pensa em décadas, não em
ciclos eleitorais. A autora sublinha que o Ocidente acostumou-se à crença de
que mercados abertos e instituições multilaterais garantiriam acesso contínuo a
recursos essenciais. Essa crença, afirma ela, pode ruir diante de um mundo em
que o controle físico de recursos vale mais do que a sofisticação financeira de
Wall Street ou da City de Londres.
Para os países em desenvolvimento, o aviso é ainda mais severo. Sem reformas
institucionais, sem fortalecimento do Estado e sem transparência, esses países
podem trocar uma dependência antiga - marcada pela influência ocidental - por
outra, emergente e potencialmente mais rígida. Moyo sustenta que a ausência de
planejamento e regulação transforma recursos naturais em maldição, não em
alavanca de desenvolvimento. Se a atual dinâmica não for enfrentada, a
competição por recursos se intensificará, e Estados frágeis se converterão em
arenas de disputa entre potências, incapazes de extrair benefícios duradouros
de seus próprios recursos.
Lições,
advertências e propostas de soluções para o “Ocidente”
Enquanto muitos
analistas no Ocidente continuam presos a uma leitura confortavelmente
ideológica da ascensão chinesa, Dambisa Moyo escolhe um caminho distinto:
examina a política de recursos de Beijing como uma estratégia coerente,
ancorada em necessidades materiais e em um cálculo profundo de longo prazo. Dessa
análise surgem lições que o Ocidente, se quiser preservar qualquer margem de
manobra no século XXI, não pode ignorar. Uma delas é a valorização do
planejamento intertemporal. Moyo insiste que a China age como uma
civilização-Estado, não como uma administração eleitoral sujeita a mudanças
bruscas de curso. A busca por commodities, metais raros, terras agrícolas e
rotas logísticas é tratada como questão existencial, não como capítulo
periférico da política externa. O Ocidente, habituado à crença de que mercados
abertos seriam capazes de mediar a escassez, negligenciou a necessidade de
manter estoques estratégicos, investir em exploração mineral e cultivar
parcerias duradouras com países fornecedores.
Outra lição reside na integração entre política econômica, diplomacia e
infraestrutura. A China compreendeu que, em grande parte do mundo em
desenvolvimento, acordos de recursos só se tornam efetivos quando acompanhados
de algo tangível. Estradas, portos, barragens, sistemas de comunicação. Esses
elementos não apenas facilitam a extração e o transporte de commodities; criam
também uma rede de interdependência material que ultrapassa governos e ciclos
políticos. O Ocidente, por sua vez, fragmentou sua atuação: organismos
multilaterais, bancos de desenvolvimento e governos atuaram com agendas
divergentes, frequentemente condicionadas por exigências regulatórias que
enfraqueceram sua competitividade diante de uma China capaz de mobilizar
capital, mão de obra e logística num único movimento.
Há ainda a lição da presença constante. Moyo descreve como delegações
chinesas visitam minas remotas, plantações isoladas e portos negligenciados por
décadas. Essa presença física sustentada, combinada a uma diplomacia que
valoriza rituais e continuidade, tem peso político nas regiões que vivem à
margem da globalização formal. O Ocidente, ao contrário, alternou períodos de
atenção e abandono, deixando aberta a porta para a consolidação de novos
poderes. A lição, portanto, não reside na imitação, mas no reconhecimento de
que o mundo material recompensa constância, não retórica.
Essas lições conduzem ao alerta central que Moyo repete com gravidade ao longo
do livro. Se a dinâmica de o vencedor leva tudo não for enfrentada, o
sistema internacional pode entrar em uma etapa prolongada de competição
predatória por recursos, na qual Estados fracos se convertem em plataformas de
disputa entre grandes potências. O risco não se limita ao esgotamento físico de
petróleo, cobre ou fertilizantes; trata-se também da fragmentação política que
acompanha a escassez. Economias desenvolvidas, sobretudo europeias, enfrentam
vulnerabilidades estratégicas por terem aceitado a ilusão de que cadeias
globais de suprimento permaneceriam estáveis por razões comerciais. Moyo lembra
que o comércio internacional não é, e nunca foi, neutro. Ele se sustenta sobre
o poder.
Para os países em desenvolvimento, o aviso é ainda mais severo. Sem reformas,
sem transparência e sem fortalecimento institucional, essas nações correm o
risco de transformar os próprios recursos em armadilha. Em vez de atraírem
desenvolvimento, podem aprisionar-se em acordos que comprometem exportações
futuras e criam dependências de longo prazo. A autora recusa a narrativa de que
tudo se resolveria por meio de supervisão ocidental; ela demonstra que, sem
governança interna sólida, qualquer influxo massivo de capital estrangeiro -
chinês ou não - tende a reforçar elites predatórias e corroer a estabilidade
política. O problema é estrutural, não apenas diplomático.
Diante desse panorama, Moyo apresenta uma série
de recomendações, não como receitas prontas, mas como direções estratégicas que
o Ocidente precisaria considerar se deseja competir com a China de forma
eficaz. A primeira envolve um redesenho do pensamento energético e mineral. O
Ocidente deve investir em exploração doméstica, diversificação de fornecedores
e modernização de cadeias de refino e processamento. Isso significa não apenas
financiar pesquisas em energias alternativas, mas reconhecer que a transição
verde depende de lítio, níquel, cobalto e terras raras - setores nos quais a
China consolidou posição dominante. A autora sugere que Estados Unidos e Europa
precisariam abandonar o conforto retórico de sua dependência e reconstruir
capacidades industriais que foram terceirizadas por décadas.
Outra estratégia proposta por Moyo é a reabilitação da diplomacia do
desenvolvimento. Em vez de adotar uma postura moralista ou excessivamente
condicionada por agendas internas, o Ocidente deveria reengajar-se com países
do Sul Global por meio de parcerias realistas, que ofereçam infraestrutura,
tecnologia e financiamento competitivo. Isso não implica abdicar de princípios;
implica reconhecer que países em desenvolvimento tendem a priorizar crescimento
e estabilidade antes de aderirem a reformas políticas amplas. A autora sugere
que o Ocidente precisa reduzir sua distância entre discurso e realidade,
oferecendo programas que combinem investimentos tangíveis com governança
transparente.
Há também a recomendação de fortalecer instituições multilaterais para lidar
com a nova geopolítica dos recursos. Bancos de desenvolvimento, agências de
cooperação e organismos de regulação podem desempenhar papel essencial na
criação de padrões que aumentem a transparência de contratos de commodities e
reduzam os riscos de corrupção. A autora, entretanto, reconhece que tais
instituições, em sua configuração atual, não possuem a agilidade necessária
para competir com a velocidade das negociações bilaterais chinesas. Seria
necessário reformá-las para torná-las instrumentos de diplomacia estratégica,
não apenas de gestão técnica.
Por fim, Moyo sugere que o Ocidente precisa adotar um horizonte temporal mais
longo. A China pensa em 2050 e 2100 com a naturalidade de quem lê sua própria
história milenar. O Ocidente, ao contrário, aprendeu a pensar em intervalos
curtos, moldados pela efemeridade política e pelo culto ao imediatismo
econômico. Essa diferença temporal cria assimetrias estruturais, que se
traduzem em perdas cumulativas na competição internacional. A autora argumenta
que a reconstrução da capacidade ocidental de planejar, investir e agir em
décadas - não em trimestres - constitui não apenas vantagem estratégica, mas
condição de sobrevivência num sistema que se tornará cada vez mais disputado.
O grande mérito de Winner Take All é expor essas questões sem recorrer a
fatalismos. A China não é apresentada como força invencível; tampouco o
Ocidente é retratado como potência decadente irreversível. O que se tem é um
diagnóstico preciso: o mundo entrou numa fase de escassez estratégica na qual a
força de um Estado será medida não apenas por seus avanços tecnológicos, mas
por sua capacidade de garantir recursos básicos para suas populações e
indústrias. Moyo entende que a geopolítica do século XXI se organizará em torno
dessas realidades.


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