Cartografias do Vivente: A Paisagem Brasileira sob o Olhar de Aziz Ab’Sáber
Em Os
Domínios de Natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas, Aziz
Ab’Sáber apresenta uma das mais expressivas sínteses sobre a estrutura e o
funcionamento das paisagens brasileiras. No primeiro capítulo da obra, o autor
introduz o conceito de potencialidades paisagísticas, propondo uma
reflexão que ultrapassa a descrição física dos ambientes para alcançar uma
leitura funcional e histórica do território. Para Ab’Sáber, cada porção do
espaço brasileiro contém uma herança de processos naturais - geomorfológicos,
climáticos, hidrológicos e biológicos - que, ao longo do tempo, se combinaram
com a ação antrópica, resultando em um mosaico de paisagens com características
e possibilidades próprias. As potencialidades paisagísticas expressam,
assim, o conjunto de condições e aptidões que emergem dessa interação,
revelando o que a natureza oferece e o que ela impõe como limite ao uso humano.
Longe de
reduzir o território a um inventário de recursos, o geógrafo busca evidenciar o
valor intrínseco da paisagem como síntese ecológica e cultural. O relevo, o
clima e a vegetação não são elementos isolados, mas componentes de sistemas que
interagem, transformando-se mutuamente. Essa visão integradora permite
compreender por que determinadas regiões do Brasil, embora submetidas a
condições ambientais semelhantes, apresentam diferentes formas de ocupação e
uso. A herança dos processos naturais fornece a estrutura de base - a ossatura
física e ecológica - sobre a qual a sociedade constrói sua história. Já as
ações humanas, desde o desmatamento e a agricultura até a urbanização, imprimem
sobre essa estrutura marcas que alteram o equilíbrio dos sistemas naturais.
Dessa forma, o conceito de potencialidade não é um convite à exploração,
mas à prudência: conhecer os limites ecológicos de cada domínio é condição para
planejar o território de modo sustentável.
É com essa
mesma intenção de integrar natureza e sociedade que Ab’Sáber formula o conceito
de Domínios de Natureza, também chamados de domínios morfoclimáticos.
Essa proposta se distingue profundamente das classificações climáticas
tradicionais, como a de Köppen. O sistema de Köppen, de orientação
essencialmente meteorológica, delimita regiões a partir de médias de
temperatura e precipitação, estabelecendo fronteiras rígidas entre tipos
climáticos. Trata-se de um modelo útil para estudos comparativos, mas que tende
a simplificar a complexidade das paisagens tropicais, ignorando as sutis
transições entre ecossistemas e as influências do relevo e dos solos sobre a
dinâmica climática e biológica.
Ab’Sáber, ao
contrário, concebe seus Domínios de Natureza como unidades espaciais de
caráter dinâmico, nas quais clima, relevo, vegetação, hidrografia e solos se
articulam em um sistema coerente de interações. O domínio amazônico, o domínio
dos cerrados, o das caatingas ou o dos mares de morros não são apenas categorias
descritivas: são expressões de equilíbrios ecológicos específicos, com ritmos
próprios de funcionamento e respostas distintas à ação humana. Em vez de
recortes fixos, os domínios revelam zonas de transição - os chamados ecótonos
- onde os sistemas naturais se interpenetram, dando origem a paisagens híbridas
e instáveis. Essa atenção às transições é precisamente o que torna a abordagem
de Ab’Sáber mais adequada para um país de dimensões continentais e de enorme
diversidade ecológica como o Brasil.
O Domínio dos Mares de Morros
Entre os domínios morfoclimáticos delineados por Aziz Ab’Sáber, o dos Mares
de Morros ocupa uma posição de destaque, não apenas por sua extensão ao
longo da faixa oriental do Brasil, mas sobretudo por reunir, de maneira
exemplar, os traços mais expressivos da relação entre a natureza tropical e a
ação histórica do homem. Trata-se de um domínio que se estende do Rio Grande do
Sul até o Nordeste, acompanhando a vertente atlântica dos antigos planaltos
cristalinos, com relevos suaves e ondulados, alternando colinas e vales
encaixados. Ab’Sáber descreve essas formas como meias-laranjas, numa
imagem precisa e quase poética para expressar o caráter arredondado das colinas
e a continuidade das vertentes. Essa morfologia é o resultado de longos
processos de intemperismo químico sob condições de alta umidade e temperatura,
que ao longo de milhões de anos corroeram lentamente as superfícies
cristalinas, originando uma topografia marcada pela dissecação e pela
convexidade.
O clima tropical úmido e a densidade da rede hidrográfica exerceram papel
essencial nesse processo, criando um ambiente de equilíbrio entre erosão e
sedimentação. A vegetação original - a exuberante Mata Atlântica - funcionava
como elemento estabilizador do sistema, protegendo os solos, regulando o fluxo
das águas e assegurando a vitalidade ecológica da região. Essa conjunção de
fatores naturais conferia ao Mar de Morros uma notável harmonia
geomorfológica, em que os processos de desgaste do relevo e de renovação da
cobertura vegetal se sucediam em ritmos compatíveis com a dinâmica natural dos
trópicos úmidos. Ab’Sáber via, nessa combinação de elementos, um exemplo claro
de como a natureza brasileira estruturou seus espaços a partir de interações
sutis e duradouras entre relevo, clima e biota.
Contudo, essa estabilidade foi profundamente alterada pela história da ocupação
humana. Desde o início da colonização portuguesa, o Domínio dos Mares de
Morros tornou-se o cenário privilegiado da expansão econômica do Brasil. A
proximidade com o litoral, o acesso aos portos, a relativa fertilidade dos
solos de encosta e a abundância de madeira atraíram os primeiros
empreendimentos agrícolas e extrativistas. A cana-de-açúcar, nas capitanias do
Nordeste e do Sudeste, inaugurou um ciclo de exploração contínua, seguido, nos
séculos seguintes, pelo café, pelo algodão e, posteriormente, pela expansão
urbana e industrial. A floresta tropical, vista como obstáculo à ocupação, foi
devastada sistematicamente, abrindo espaço para lavouras e pastagens em
terrenos frágeis e fortemente inclinados.
Ab’Sáber observa que essa intervenção desordenada rompeu o delicado equilíbrio
que sustentava o domínio. O desmatamento expôs os solos à erosão, acelerou o
escoamento superficial das águas e favoreceu o assoreamento dos cursos d’água.
As encostas antes protegidas pela floresta tornaram-se vulneráveis a
deslizamentos, e a fertilidade natural dos solos, já limitada, foi rapidamente
exaurida. O autor identifica nessa degradação um dos casos mais graves de
deterioração ambiental do país, comparável apenas à devastação do semiárido
nordestino e às pressões recentes sobre o Cerrado e a Amazônia. O Mar de
Morros transforma-se, assim, em um laboratório trágico das consequências da
ocupação predatória, servindo de advertência sobre a necessidade de compreender
e respeitar as potencialidades paisagísticas de cada domínio.
Ao analisar
o Domínio Tropical Atlântico - denominação equivalente usada por
Ab’Sáber para designar esse mesmo conjunto de paisagens -, o autor amplia sua
reflexão para o plano histórico e geológico. Ele mostra que a atual
compartimentação topográfica do domínio é o resultado de uma longa sucessão de
eventos geomorfológicos ocorridos ao longo do Quaternário, especialmente
durante o Pleistoceno superior e o Holoceno. As alternâncias climáticas desses
períodos - com fases mais úmidas e outras mais secas - modificaram
profundamente os regimes de intemperismo e erosão. Durante os intervalos
úmidos, o intemperismo químico intenso aprofundou os perfis de solo e acentuou
as formas convexas das colinas; nos períodos mais secos, os processos de
dissecação fluvial ganharam força, esculpindo vales e rebaixando as antigas
superfícies de planalto. A interação entre essas fases sucessivas explica a
complexidade do relevo atual, em que antigas superfícies tropicais rebaixadas
se articulam com novas gerações de vales e encostas.
A litologia cristalina do embasamento e a persistência de processos de
decomposição laterítica contribuíram para o surgimento das vertentes suavemente
convexas, enquanto a drenagem, fortemente controlada pelas estruturas
geológicas, esculpiu vales encaixados e redes fluviais de traçado irregular. No
Holoceno, com a estabilização climática e o retorno de regimes mais úmidos, a
Mata Atlântica reconquistou grande parte do domínio, consolidando novamente o
equilíbrio entre relevo, solos e biota. Esse equilíbrio, contudo, seria
rapidamente perturbado pela intervenção humana nos últimos cinco séculos.
Ao unir as
escalas do tempo geológico e do tempo histórico, Ab’Sáber revela o Mar de
Morros como um palimpsesto de processos sobrepostos. As formas arredondadas
e o padrão de colinas e vales guardam a memória de milhões de anos de evolução
natural, mas sobre essa estrutura repousam as marcas de uma ocupação acelerada
e desordenada. A paisagem atual é, portanto, um testemunho simultâneo da
criatividade da natureza e da imprudência humana. O autor não propõe um retorno
impossível a um passado “primitivo”, mas insiste na necessidade de compreender
a gênese e o funcionamento dessas paisagens para orientá-las de modo racional.
O Domínio
da Caatinga
Aziz Ab’Sáber dedica ao Domínio das Caatingas uma análise que busca
corrigir uma das mais persistentes distorções da geografia brasileira: a visão
de que o sertão nordestino seria uma região pobre, homogênea e condenada à
esterilidade. Longe de aceitar essa leitura, o autor demonstra que a Caatinga é
um domínio de natureza singular, resultado de uma longa e complexa história
geológica, climática e biogeográfica. Trata-se, segundo Ab’Sáber, de um espaço
onde a vida se organizou em torno da adversidade, criando soluções adaptativas
de notável engenhosidade - um verdadeiro laboratório natural de sobrevivência
em condições de escassez.
O geógrafo
descreve o Domínio das Caatingas como o domínio dos sertões secos,
expressão que sintetiza não apenas as condições climáticas semiáridas, mas
também o caráter cultural e simbólico da região. O sertão é, para ele, um
território de contrastes: a seca e a plenitude, o repouso e a explosão vital, o
isolamento e a resistência. Essa alternância se reflete nas próprias paisagens
vegetais, que passam do aparente vazio durante os meses de estiagem a uma
surpreendente exuberância logo após as primeiras chuvas. Ab’Sáber observa que
essa oscilação cíclica é o núcleo dinâmico das caatingas - um sistema ecológico
marcado pela resiliência, em que cada espécie vegetal e animal desenvolveu
mecanismos específicos para suportar a irregularidade do regime hídrico.
A flora
caducifólia, as raízes profundas, os caules suculentos e as sementes que
permanecem em dormência durante longos períodos de seca são exemplos das
estratégias de sobrevivência que atestam a sofisticação ecológica desse
domínio. O autor enfatiza que o sertão não é uma área “vazia”, mas um mosaico
de ecossistemas interdependentes, cujas formas de vida evoluíram em íntima
correspondência com o relevo e com a sazonalidade climática. Ele descreve como
os processos morfoclimáticos - resultantes das oscilações do Pleistoceno e do
Holoceno - moldaram depressões interplanálticas, maciços residuais e vales
intermitentes, conferindo à Caatinga uma estrutura geomorfológica tão variada
quanto seus aspectos biológicos.
A
complexidade das Caatingas, contudo, não se resume à dimensão natural. Ab’Sáber
destaca o papel histórico e cultural das populações sertanejas, cuja ocupação
se deu de modo irregular e, muitas vezes, predatório, sem considerar a
fragilidade dos ecossistemas semiáridos. A pecuária extensiva, o desmatamento
para lenha e carvão e o uso inadequado do solo intensificaram processos de
erosão e desertificação, rompendo equilíbrios que haviam se estabelecido ao
longo de milhares de anos. Ainda assim, o autor reconhece no sertanejo um
agente de adaptação: sua cultura, seu calendário de plantio e suas formas de
habitar o território são respostas históricas a um ambiente de extremos.
Ao integrar
natureza e cultura em uma mesma leitura, Ab’Sáber propõe que as potencialidades
paisagísticas das caatingas sejam repensadas. Para ele, compreender esse
domínio significa identificar oportunidades de convivência sustentável com o
semiárido - não pela imposição de modelos externos, mas pelo aproveitamento
racional dos recursos disponíveis e pelo respeito à lógica ecológica do lugar.
Essa visão contrasta com o olhar desenvolvimentista que, ao longo do século XX,
tratou o sertão como problema e não como patrimônio natural e humano.

O Domínio do Cerrado
Ao tratar do Domínio dos Cerrados, a leitura do autor não se restringe a
uma descrição fisiográfica: ela busca revelar o modo como a estrutura da terra,
o ritmo das águas e a adaptação das formas de vida compõem uma paisagem que,
embora aparentemente simples, encerra uma complexidade de ordem continental.
As potencialidades paisagísticas do Cerrado, segundo Ab’Sáber, decorrem
precisamente dessa harmonia entre a e stabilidade das formas e a vitalidade dos
processos. As chapadas amplas, as suaves colinas e os vales encaixados
constituem um conjunto geomorfológico que favorece a infiltração das águas e a
conservação dos aquíferos. Os solos, ainda que ácidos e pobres em nutrientes,
são extremamente profundos e porosos, o que lhes confere uma função essencial
na regulação hídrica e na sustentação de uma vegetação resistente à seca. Essa
combinação faz do Cerrado não apenas um domínio de relevo suave, mas um sistema
natural de resiliência e equilíbrio, capaz de abrigar uma diversidade ecológica
surpreendente.

É por isso que Ab’Sáber o denomina o berço das águas do Brasil. Nenhum
outro domínio natural brasileiro desempenha papel tão central na gênese e na
distribuição das bacias hidrográficas. Das chapadas centrais brotam as
nascentes do São Francisco, do Tocantins-Araguaia, do Paraguai e do Paraná -
rios que alimentam diferentes regiões e sustentam ecossistemas variados, desde
as matas úmidas amazônicas até os pantanais e as zonas semiáridas do Nordeste.
A geomorfologia do Cerrado - marcada por altitudes médias, drenagem difusa e
interflúvios largos - cria as condições ideais para que o ciclo hidrológico se
mantenha contínuo e eficiente. Nesse sentido, o domínio atua como uma
verdadeira máquina de águas, cujo funcionamento depende da integridade
de sua cobertura vegetal e da manutenção dos solos permeáveis.
No entanto, o olhar de Ab’Sáber é também profundamente crítico. Ele identifica,
com clareza, a ruptura entre essa vocação natural e o modelo de ocupação que se
impôs sobre o Cerrado a partir da década de 1970. A expansão da fronteira
agrícola, impulsionada por políticas estatais e por avanços tecnológicos,
transformou o Cerrado em um laboratório de modernização desigual: vastas áreas
foram convertidas em monoculturas mecanizadas de soja, milho e algodão, e o
pastoreio intensivo substituiu as formações campestres originais. O que fora um
mosaico de ecossistemas interligados tornou-se uma paisagem fragmentada,
marcada pela compactação dos solos, pela perda de biodiversidade e pela
diminuição das nascentes.
O autor antecipa, com notável lucidez, as consequências ecológicas dessa
transformação. A supressão das matas de galeria e das veredas -
ecossistemas-chave na manutenção da umidade e na filtragem natural das águas -
rompeu o equilíbrio hídrico que sustentava o bioma. A erosão e o assoreamento
dos rios, hoje visíveis em diversas regiões do Centro-Oeste, são a
materialização das advertências feitas por Ab’Sáber há décadas: o berço das
águas corria o risco de tornar-se um deserto das águas. Essa
contradição entre potencial e degradação é o eixo ético de sua análise: a
paisagem, quando reduzida a recurso, perde o sentido de totalidade que lhe
confere vida e permanência.
A partir
dessa constatação, Ab’Sáber propõe uma reinterpretação das potencialidades
paisagísticas do Cerrado. Para ele, o verdadeiro valor desse domínio não
está na fertilidade imediata do solo, mas em sua função estratégica para o
equilíbrio ambiental do país. O planejamento territorial, portanto, deve ser
orientado não pelo lucro a curto prazo, mas pela manutenção dos processos
ecológicos essenciais - a infiltração das águas, a recarga dos aquíferos, a
regulação térmica e a conservação da biodiversidade. Ele defende que o Cerrado
seja pensado como um espaço-síntese da geografia brasileira, onde se
cruzam e se interpenetram as influências da Amazônia, das Caatingas, das Matas
Atlânticas e dos Planaltos Meridionais.
Essa visão integrada transforma o Cerrado em uma
espécie de espelho do Brasil. Suas paisagens, aparentemente discretas, revelam
um país de transições, ritmos lentos e equilíbrios sutis. A leitura de Ab’Sáber
convida o leitor a perceber que a grandeza do Cerrado não está em sua
produtividade imediata, mas em sua função silenciosa e vital de conectar águas,
solos e biomas.
O Domínio Amazônico
Aziz Ab’Sáber
reserva ao Domínio Amazônico um tratamento que ultrapassa qualquer
delimitação convencional. Ele o apresenta como um macrodomínio,
expressão que emprega para indicar uma região cuja escala espacial, diversidade
geomorfológica e complexidade ecológica excedem a dos demais domínios
brasileiros. A Amazônia não é apenas uma vasta planície florestal: é um sistema
territorial multiforme, marcado por ritmos próprios e por uma longa história de
sedimentação, erosão e reorganização hidrográfica. Sua topografia,
aparentemente uniforme, revela-se, a um exame mais atento, um mosaico de
superfícies diferenciadas, herdadas de movimentos tectônicos discretos, de
variações climáticas quaternárias e do imenso trabalho dos rios que a percorrem.
Ab’Sáber destaca que a maior parte da Amazônia é formada por uma planície
sedimentar recente, construída pela deposição contínua dos grandes rios que
correm para o Atlântico. Esses depósitos aluviais, acumulados ao longo de
milhares de anos, criam extensas áreas de baixa declividade, onde as cheias
sazonais moldam a dinâmica ecológica e social da região. No entanto, essa vasta
planície é enquadrada por terrenos mais antigos, que pertencem ao escudo
cristalino das Guianas e ao maciço brasileiro. São superfícies residuais de
altitudes modestas, porém fundamentais para entender a distribuição dos
afluentes e a energia hidráulica das bacias. Essa convivência entre terras
baixas e terras altas, entre rochas antigas e sedimentos recentes, é o que
confere ao macrodomínio amazônico uma estrutura geológica singular.
A malha
hidrográfica, por sua vez, é descrita por Ab’Sáber como uma das mais complexas
do mundo. O rio Amazonas, com sua largura monumental e seus múltiplos canais,
recebe contribuições de sistemas distintos: rios de águas brancas, carregados
de sedimentos andinos; rios de águas pretas, filtradas pela decomposição
vegetal em solos arenosos; e rios de águas claras, provenientes de áreas
cristalinas pouco erodidas. Cada um desses sistemas imprime características
próprias à paisagem e condiciona a ocorrência de determinados tipos de
vegetação e fauna. Essa multiplicidade de regimes hídricos, ciclos de inundação
e padrões de sedimentação é parte essencial da identidade amazônica e reafirma
sua condição de macrodomínio.
Para
organizar essa diversidade, Ab’Sáber distingue três grandes subdivisões
paisagísticas: Várzea, Terra Firme e Igapó. As várzeas são
áreas periodicamente inundadas pelos rios de águas brancas. São solos jovens,
férteis e dinâmicos, onde a paisagem se reinventa a cada cheia. Ab’Sáber
observa que essas áreas sempre atraíram ocupação humana mais densa, devido à
facilidade de plantio e à abundância de recursos pesqueiros. Já a terra firme
corresponde às porções não inundáveis do território, assentadas sobre sedimentos
antigos ou rochas cristalinas. Aqui predominam solos ácidos e pobres,
contrastando com a exuberância aparente da floresta. Ainda assim, é na terra
firme que se encontra a maior parte da biodiversidade amazônica, distribuída em
fitofisionomias extremamente sensíveis às variações microclimáticas. Por fim,
os igapós - florestas alagadas por rios de águas pretas ou claras - representam
um ambiente de alagamento prolongado, onde a vegetação se adapta a condições de
baixo teor de nutrientes e longos períodos de saturação hídrica.
![]() |
Várze amazônica durante a cheia |
Essa
divisão, longe de ser apenas descritiva, constitui para Ab’Sáber uma chave
interpretativa fundamental. Ele insiste que nenhum projeto de desenvolvimento -
seja agrícola, mineral, urbano ou logístico - pode ser bem-sucedido se ignorar
a diversidade interna do macrodomínio. Tratar a Amazônia como uma unidade
homogênea equivale a desconsiderar seus diferenciais ecológicos e a
vulnerabilidade de seus sistemas hídricos. A várzea, com sua fertilidade natural,
não pode ser manejada como a terra firme; esta, por sua vez, não suporta as
mesmas intervenções que os igapós, em razão da delicadeza de seus solos e da
estabilidade tênue de seus ecossistemas.
O Domínio das Araucárias
Em Os Domínios de Natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas,
Aziz Ab’Sáber dedica atenção especial ao conjunto de paisagens que compõem os
planaltos meridionais, onde se articulam as famílias de ecossistemas das
pradarias mistas e das florestas de araucária. Para o autor, esses ambientes se
constituem como unidades singulares, profundamente moldadas pelo clima
subtropical, cujas amplitudes térmicas, invernos frios e regime pluviométrico
bem distribuído ao longo do ano criam condições propícias à coexistência de
formações campestres e florestais. As pradarias mistas, com seus campos
ondulados e solos relativamente profundos, representam heranças de antigas
fases climáticas mais frias e secas, nas quais a vegetação herbácea se
expandiu. Já as áreas florestadas, dominadas pela Araucaria angustifolia,
emergem como remanescentes de períodos úmidos e estáveis, expressando a
capacidade do clima subtropical de sustentar florestas densas mesmo em
altitudes moderadas.
Ab’Sáber
observa que a interação entre esses ecossistemas não é casual, mas fruto de uma
longa história geomorfológica e paleoclimática. As alternâncias entre fases de
expansão dos campos e retração das florestas - ou o inverso - revelam a
sensibilidade do sul brasileiro às oscilações do Quaternário. Esse mosaico
dinâmico, no qual manchas de campo se articulam com corredores florestais, cria
uma diversidade rara no território nacional. O autor insiste que as condições
de solo, relevo suave, nebulosidade frequente e regime térmico ameno constituem
o pano de fundo indispensável para compreender a originalidade ecológica dos
planaltos de araucárias e pradarias mistas.
Ao comparar
o Domínio das Araucárias com sua faixa de transição, Ab’Sáber
ressalta que a distribuição da araucária nunca foi uniforme. A floresta
ombrófila mista instalou-se sobretudo nas áreas mais elevadas e frias dos
planaltos, onde a umidade e as temperaturas baixas favorecem a regeneração
dessa conífera. Nas zonas de transição - especialmente em porções voltadas para
o interior - a araucária já aparece misturada a espécies de mata atlântica e de
capoeiras, compondo formações híbridas, sujeitas tanto às influências
subtropicais quanto às incursões de massas de ar tropicais. Essa faixa
transicional, portanto, revela o caráter sensível da araucária às condições
térmicas e hídricas: sua ocorrência depende de um equilíbrio delicado entre
geadas frequentes, precipitações abundantes, solos profundos e relevo
suavemente ondulado.
Para
Ab’Sáber, as araucárias constituíam originalmente uma paisagem de grande força
expressiva - uma potencialidade paisagística marcada por colunas
vegetais imponentes, copas horizontais e uma estrutura florestal aberta, que
permitia a entrada generosa de luz. A floresta de araucária, antes dotada de
notável monumentalidade, era também altamente produtiva em termos ecológicos, abrigando
fauna diversificada e compondo corredores naturais que conectavam diferentes
compartimentações topográficas. No entanto, essa potencialidade foi severamente
reduzida pela exploração madeireira intensiva, especialmente a partir da
primeira metade do século XX. A araucária, convertida em recurso econômico de
altíssimo valor, foi derrubada quase à exaustão, restando apenas fragmentos
dispersos de sua formação original. Essa devastação interrompeu ritmos
ecológicos, comprometeu a regeneração natural da espécie e alterou de modo
profundo a paisagem meridional.
O autor
sugere que, ao perder suas florestas de araucária, o sul do Brasil perdeu
também parte de sua identidade ecológica. A interação entre campos e florestas,
que outrora constituía um sistema equilibrado, foi substituída por áreas
agrícolas e pastoris extensivas, marcadas pela homogeneização e pela perda de
complexidade ambiental. Daí a insistência de Ab’Sáber na necessidade de
compreender os planaltos meridionais como espaços cuja heterogeneidade não pode
ser reduzida a meras categorias econômicas. A recuperação - ainda que parcial -
dessa potencialidade paisagística implica reconhecer a araucária como
espécie-símbolo de uma história ambiental que o país negligenciou por décadas.
Assim, o leitor percebe que o domínio das araucárias, tal como reconstruído por
Ab’Sáber, é antes de tudo um testemunho: o de uma paisagem que unia clima, solo
e vegetação em uma síntese rara, e cuja preservação se tornou uma urgência
ética e científica.
O Domínio
das Pradarias
O Domínio das
Pradarias, tal como delineado por Aziz Ab’Sáber, ocupa um lugar singular na
organização morfoclimática do território brasileiro, não apenas pela sua
posição periférica em relação aos grandes blocos tropicais, mas sobretudo pela
lógica interna de sua formação. Trata-se de uma paisagem que resulta de uma
longa interação entre clima subtropical, solos derivados de rochas basálticas e
a ação constante dos ventos, que mantêm extensas áreas de vegetação herbácea
baixa. Ab’Sáber evidencia que, diferentemente dos domínios onde a floresta foi
historicamente dominante, aqui o predomínio dos campos é estrutural, e não uma
etapa de degradação antrópica. A constituição dessas pradarias tem relação
direta com a alternância térmica sazonal, com invernos frios e geadas que
impossibilitam a manutenção de amplas formações arbóreas. Essa oscilação
climática, combinada a solos férteis porém rasos, consolidou um cenário onde a
vegetação campestre se impôs como forma de equilíbrio ecológico.
No que se refere à atividade pecuária, Ab’Sáber chama atenção para a notável
afinidade entre as pradarias e a criação extensiva de gado. As gramíneas
nativas apresentam elevada capacidade de renovação e oferecem, durante boa
parte do ano, pastagens adequadas para bovinos e ovinos. Essa potencialidade,
porém, não implica ausência de limites: o regime de chuvas irregular e a
incidência de estiagens prolongadas podem comprometer a produtividade, assim
como a delicadeza dos solos, suscetíveis à compactação e erosão caso manejados
de maneira inadequada. O autor insiste na necessidade de compreender que a
vocação pecuária das pradarias não autoriza uma exploração sem critérios; ao
contrário, exige manejo técnico que respeite o ritmo natural do domínio,
evitando tanto o sobrepastoreio quanto a introdução indiscriminada de espécies
exóticas que ameaçam a flora campestre.
As
potencialidades paisagísticas desse domínio são igualmente destacadas por
Ab’Sáber, que vê nas pradarias um conjunto de feições marcadas pela abertura do
horizonte, pela ondulação suave do relevo e pela notável luminosidade dos céus
subtropicais. A paisagem campestre se organiza em extensos mantos vegetais
contínuos, entrecortados por matas ciliares e capões de mata que surgem como
pontos de contraste e estabilidade ecológica. Essa estrutura confere ao sul do
Brasil uma fisionomia própria, distinta tanto dos sertões semiáridos quanto das
matas tropicais densas. A capacidade adaptativa das pradarias ao clima frio e
às amplitudes térmicas faz delas um espaço economicamente funcional, sobretudo
para atividades que dependem de grandes extensões abertas, como a pecuária e,
mais recentemente, a silvicultura de espécies adaptadas.
No contexto
econômico, Ab’Sáber ressalta que o domínio campestre oferece condições
singulares para o desenvolvimento de técnicas tradicionais, como a pecuária de
corte, e também para práticas modernas, como sistemas de integração
lavoura-pecuária. No entanto, o autor alerta que a economia regional não deve
ser pensada de forma dissociada da paisagem: a introdução de atividades que
descaracterizem o equilíbrio morfoclimático pode gerar perdas ecológicas
irreversíveis. Sua leitura das pradarias sulinas combina, assim, apreciação
estética e análise científica: trata-se de um domínio que possui identidade
climática própria, vocações econômicas consolidadas e um patrimônio cênico que
depende da manutenção de seus processos naturais. Ao enfatizar essas dimensões,
Ab’Sáber convida o leitor a reconhecer que os campos sulinos são mais do que um
espaço produtivo; são um componente fundamental da diversidade morfoclimática
brasileira e um lembrete de que o uso da terra deve respeitar as condições que
tornam cada domínio possível.
Ecótonos e faixas de transição
Em Os Domínios de Natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas, Aziz
Ab’Sáber dedica atenção especial às faixas de transição, entendidas como
elementos estruturantes da organização ecológica do território brasileiro. Em
vez de tratá-las como anexos dos grandes domínios, o autor as coloca no centro
de sua interpretação, ressaltando que nelas se concentra parte significativa da
diversidade ambiental do país. As faixas de transição possuem importância
conceitual e ecológica porque rompem com classificações rígidas, mostrando que
a paisagem não se organiza por blocos estanques, mas por sistemas em constante
diálogo. Nessas áreas, variações topográficas sutis, alterações microclimáticas
e mudanças na composição florística desenham ambientes cuja identidade decorre
precisamente dessa oscilação contínua entre elementos dominantes e
minoritários. Por isso, funcionam como zonas de alta biodiversidade, abrigando
espécies adaptadas a condições híbridas e, ao mesmo tempo, capazes de transitar
entre formações distintas sem perder sua especificidade ecológica.
Ao discutir
o uso comum do termo ecótono, Ab’Sáber apresenta uma crítica meticulosa. Para
ele, a noção de ecótono tende a reduzir as áreas de transição a meras zonas de
mistura, como se fossem espaços residuais entre domínios já plenamente
formados. Essa interpretação ignora que tais faixas possuem dinâmica própria,
historicamente construída pelos movimentos de expansão e retração da vegetação
ao longo dos ciclos climáticos. Assim, não se trata de corredores passivos, mas
de paisagens ativas, com ritmos e morfologias particulares, capazes de
influenciar processos ecológicos em escalas regionais. A crítica de Ab’Sáber
dirige-se ao risco de simplificação: ao chamar de ecótono algo que é mais
complexo, corre-se o perigo de apagar sua singularidade ambiental, sobretudo em
um país onde as transições são amplas, multifacetadas e profundamente marcadas
pela história geomorfológica. Para o autor, cada faixa de transição guarda uma
fisionomia ecológica própria, que não pode ser reduzida a estatísticas de
contiguidade.
Entre os exemplos mais elucidativos está o Pantanal, que Ab’Sáber descreve como uma vasta planície sazonalmente inundada, funcionando como ponto de convergência de famílias de ecossistemas provenientes do Cerrado, da Amazônia, do Chaco e até das pradarias. O Pantanal evidencia como as transições não apenas ligam domínios diferentes, mas também criam novas configurações ambientais. Em vez de funcionar como uma fronteira, constitui um espaço de síntese, onde as cheias periódicas remodelam ciclos ecológicos, condicionam a fauna e estabelecem regimes vegetacionais adaptados às variações no pulso das águas. A presença simultânea de espécies típicas de formações savânicas, florestais e campestres demonstra a complexidade dessa zona, que não pode ser interpretada como somatório das partes. Trata-se de um território em que o ritmo hídrico dita a organização biológica, convertendo a sazonalidade extrema em fator estruturante.
A análise das faixas de transição, na obra de
Ab’Sáber, está profundamente articulada à noção de potencialidades
paisagísticas. Cada área híbrida possui usos possíveis e limites definidos por
sua dinâmica interna. No Pantanal, a fertilidade periódica dos solos e a
vastidão dos campos inundáveis apontam para atividades pecuárias extensivas que
respeitem o regime das águas, enquanto intervenções intensivas tendem a
destruir justamente o mecanismo ecológico que sustenta o sistema. Essa mesma
lógica vale para outras transições, como o contato entre Cerrado e Amazônia ou
entre Caatinga e Mata Atlântica. Em todos os casos, o autor demonstra que
ignorar a natureza própria dessas paisagens conduz a erros de planejamento,
pois elas não se comportam segundo padrões fixos, mas segundo oscilações
previsíveis e essenciais para sua manutenção.
Entre Cerrados, Mandacarus e Paisagens de Exceção
Em Os Domínios de Natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas,
Aziz Ab’Sáber dedica parte significativa dos anexos a uma reflexão que
enriquece sua interpretação global do território brasileiro: as relações entre
cerrados e mandacarus no Nordeste. Esses contrastes, longe de serem meros
símbolos de formações distintas, funcionam para o autor como chaves
interpretativas das transições ecológicas que permeiam o Semiárido. A oposição
entre a fluidez savânica dos cerrados e a rigidez espinhosa das caatingas -
personificada na figura resistente do mandacaru - revela não apenas a
diversidade das fisionomias vegetais, mas sobretudo o modo como fatores
geomorfológicos, microclimáticos e hidrológicos modulam o mosaico nordestino.
Ab’Sáber identifica que, ao longo das chapadas e interflúvios, a paisagem
savânica tende a avançar, enquanto nos pediplanos secos e nas depressões
internas predominam as formações xerófitas. Entre uma e outra, estabelece-se
uma zona de transição cuja riqueza ecológica depende de sutis variações no
regime das chuvas, na profundidade dos solos e na circulação atmosférica.
Assim, a contraposição entre cerrados e mandacarus não descreve extremos
rígidos, mas revela como o Nordeste opera por gradações, destacando paisagens
em que as duas matrizes podem coexistir, interpenetrar-se e gerar composições
híbridas de grande valor para a compreensão biogeográfica regional.
Outro tema relevante abordado nos anexos são as chamadas paisagens de
exceção e canyons brasileiros. Ab’Sáber utiliza essa expressão para se
referir a áreas cuja singularidade geomorfológica as afasta das grandes
unidades contínuas dos domínios morfoclimáticos. São espaços que emergem como
monumentos naturais, resultantes de longos processos erosivos e tectônicos, e
que funcionam como cápsulas de tempo onde as estruturas geológicas revelam suas
camadas mais profundas. Os canyons que se abrem no contato entre chapadas e
depressões, especialmente no Nordeste e no Sul, são apresentados como exemplos
notáveis de potencialidades paisagísticas que ultrapassam o uso convencional do
território. Para o autor, essas paisagens de exceção guardam vocações
específicas: o turismo científico, a conservação geológica, a pesquisa
paleoclimática e a interpretação dos ciclos morfogenéticos. Em seu
entendimento, são espaços cuja força expressiva provoca uma experiência
estética e cognitiva singular, permitindo ao observador perceber a continuidade
entre forças internas e externas do planeta. Tal abordagem amplia a noção de potencialidade,
que deixa de ser apenas ecológica ou produtiva para incluir dimensões
simbólicas, educativas e patrimoniais do território brasileiro.
À luz dessas reflexões, torna-se pertinente comparar a classificação por domínios
de natureza proposta por Ab’Sáber com outras tipologias, como
fitofisionomias ou ecozones. A classificação por domínios busca captar a
coerência entre relevo, clima, hidrografia, solos e vegetação, constituindo uma
leitura integrada do funcionamento das paisagens. Já as fitofisionomias se
concentram na aparência e na estrutura da vegetação; e as ecozones, por sua
vez, operam em escalas amplas, enfatizando padrões biogeográficos globais. Cada
uma dessas tipologias oferece vantagens e limitações, dependendo do objetivo.
Para o ensino básico e intermediário, o modelo de domínios é especialmente
eficaz, porque permite que os estudantes visualizem o território como um
conjunto articulado de grandes paisagens, compreendendo suas transições e
particularidades. Para o planejamento territorial, a classificação de Ab’Sáber
também se mostra produtiva, pois destaca fragilidades ecológicas, vocações
regionais e limites naturais para o uso da terra. Em contrapartida, estudos
mais detalhados sobre composição florística, dinâmica vegetacional ou impactos
específicos de manejo agrícola se beneficiam da abordagem fitofisionômica, que
oferece maior precisão na escala local. Por fim, pesquisas que buscam situar o
Brasil em contextos biogeográficos globais encontram nas ecozones uma ferramenta
mais comparativa e universalista. A contribuição de Ab’Sáber consiste
justamente em demonstrar que nenhuma classificação é excludente: cada uma
responde a uma pergunta distinta, e seu modelo é aquele que melhor decifra, em
escala nacional, a lógica íntima da paisagem brasileira.
Comparação estação seca vs. chuvosa no semiárido
A Herança Quaternária e os Domínios de Natureza: Integrações Biogeográficas
e Críticas Ambientais em Ab’Sáber
Aziz Ab’Sáber propõe um modelo interpretativo que permite compreender o
território brasileiro como herança viva de transformações profundas ocorridas
ao longo do Quaternário. Longe de reduzir o país a meros fragmentos
vegetacionais ou a cliques climáticos contemporâneos, o autor insiste que cada
domínio é resultado de tempos sobrepostos, marcados por oscilações
paleoambientais que alteraram texturas de solo, redes de drenagem, estabilidade
das vertentes e distribuição dos ecossistemas. Essa perspectiva temporal é
decisiva: ao reconhecer que a paisagem atual se apoia em estruturas herdadas de
milhares de anos, Ab’Sáber resgata a historicidade da natureza e nos permite
enxergar os domínios como sínteses complexas, onde processos pleistocênicos e
holocênicos encontram expressão morfológica. É o caso da Amazônia, cujo extenso
mosaico entre várzea, terra firme e igapó resulta tanto da
dinâmica dos grandes rios quanto de reconfigurações antigas do regime hídrico;
dos Cerrados, cujas superfícies aplainadas e interflúvios amplos se relacionam
a antigas fases de pediplanação; e das Caatingas, cujo solo raso e abundância de
inselbergs revela uma longa história de aridez intermitente. Até mesmo o
Sudeste - com seus Mares de Morros de encostas convexas e vertentes
minuciosamente dissecadas - é, para Ab’Sáber, testemunho de ciclos alternados
de umidade e estabilidade tectônica que se estenderam por milênios. Em síntese,
a herança quaternária não é um detalhe: é o pano de fundo que confere
inteligibilidade aos domínios e sustenta sua diversidade interna.
Essa concepção histórica da paisagem se articula organicamente com a
contribuição do livro à biogeografia brasileira. Embora Ab’Sáber dialogue com
múltiplas tradições da geografia física, é particularmente fecunda sua
proximidade com a proposta de espaços naturais desenvolvida por Georges
Bertrand. Bertrand defendia que o estudo das paisagens deve integrar elementos
físicos e biológicos, considerando-os em interação contínua; Ab’Sáber
radicaliza essa visão ao inseri-la na escala continental, revelando os grandes arranjos
morfoclimáticos que estruturam o Brasil. Em vez de isolar a vegetação como
categoria autônoma, ele a situa como expressão de condicionantes
geomorfológicos e históricos, mostrando que a biogeografia não pode prescindir
do relevo, dos regimes hídricos, das transições ecológicas e das dinâmicas
genéticas das paisagens. A partir dessa integração, os domínios funcionam como
grandes unidades biogeográficas em que fatores físicos, bióticos e históricos
se entrelaçam. Essa abordagem enriquece enormemente o campo, pois evita tanto o
reducionismo fisiognômico quanto o determinismo climático, oferecendo uma
leitura mais sensível às passagens, às graduações e às singularidades
regionais. O livro, desse modo, não apenas descreve paisagens: ele fornece uma
matriz conceitual que permite compreender o território como um sistema aberto,
onde fluxos ecológicos e condicionantes físicos coexistem e se retroalimentam.
Essa compreensão profunda dos domínios possui implicações diretas para
políticas ambientais, especialmente no que diz respeito à criação de corredores
de biodiversidade e à formulação de estratégias realistas de restauração
ecológica. Como Ab’Sáber insiste, as transições entre domínios - frequentemente
negligenciadas pelos planejamentos convencionais - são áreas cruciais para a
circulação de espécies, o refúgio de grupos vegetais e o equilíbrio
hidrológico. São zonas onde a biodiversidade tende a ser elevada, não por
mistura aleatória, mas por coexistência estruturada de elementos provenientes
de matrizes distintas. Ao reconhecer esse papel, a proposta dos domínios
auxilia tanto na delimitação de corredores ecológicos quanto na identificação
de paisagens com maior potencial de regeneração natural. Em contextos de
restauração, isso é essencial: áreas com solos profundos e boa recarga hídrica,
por exemplo, possuem potencial regenerativo muito superior às zonas pedregosas
e rasas do semiárido; e as superfícies elevadas dos Cerrados, onde nascem
importantes cabeceiras, devem ser consideradas prioritárias para garantir a
conectividade hidrológica. Os domínios, ao refletirem unidades funcionalmente
coerentes, oferecem assim uma base científica mais sólida que recortes
administrativos para orientar políticas de conservação, mitigação e manejo.
Esse rigor analítico ajuda a explicar a posição crítica de Ab’Sáber em relação
ao que chamava de “ecologia romântica”. Ele não rejeitava a preocupação
ambiental - ao contrário, era um de seus defensores mais contundentes - mas
denunciava a tendência de idealizar a natureza como espaço intocado ou em
harmonia espontânea. Para o autor, tal romantização obscurece a história real
das paisagens, que foram moldadas, ao longo dos séculos, por relações complexas
entre sociedades humanas e processos naturais. Sua crítica também se dirige à
noção de que bastaria “preservar o presente” para garantir o futuro: ignorar a
profundidade temporal dos ecossistemas significaria desconhecer tanto seus
limites quanto suas resiliências. Ao enfatizar a necessidade de conhecer antes
de conservar, Ab’Sáber estabelece um horizonte ético em que a defesa da
natureza deve ser aliada da ciência e não da fantasia.
Esse cuidado aparece de modo exemplar quando trata da Amazônia. Contra a visão
difundida da “hileia uniforme” — um bloco verde indiferenciado — ou a metáfora
simplificadora do “pulmão do mundo”, Ab’Sáber apresenta a região como um macrodomínio
repleto de variações fisiográficas, ecológicas e hidrológicas. A Amazônia, para
ele, é antes um sistema polifônico do que uma massa homogênea. Suas paisagens
incluem terra firme, várzeas, igapós, áreas de interflúvio, tabuleiros, colinas
estruturais, terras altas submetidas a longos processos de aplainamento e
extensas planícies de inundação. Cada uma dessas unidades possui dinâmica
ecológica própria, com regimes hídricos, solos e biotas distintos. Essa
multiplicidade interna muda por completo o debate ambiental: compreender a
Amazônia a partir dos domínios significa reconhecer sua complexidade real e
elaborar políticas específicas para cada compartimento, em vez de estratégias
generalistas. Também significa entender por que certos projetos de desenvolvimento
fracassam: não porque “a floresta é frágil”, mas porque se tenta impor modelos
alheios à sua diversidade geomorfológica e ecológica. A leitura de Ab’Sáber
adiciona profundidade e concretude ao debate público, substituindo slogans
ambientalistas pela necessidade de compreender o funcionamento íntimo da
região.
O livro como a síntese de uma vida de pesquisas
Os Domínios de Natureza no Brasil pode ser considerado uma obra de
síntese da carreira de Aziz Ab’Sáber porque cristaliza, em um único volume, a
maturidade conceitual e cartográfica de décadas de pesquisa dedicadas a ler o
território brasileiro em sua inteireza. O livro representa o momento em que seu
pensamento - antes exposto em artigos, palestras, levantamentos de campo,
relatórios e ensaios - alcança uma forma arquitetônica estável, na qual cada
conceito encontra o seu lugar, formando uma espécie de atlas interpretativo dos
grandes conjuntos paisagísticos do país. Há nele a impressão de uma vida que
caminhou o Brasil de ponta a ponta, acumulando notas, observações e intuições
que, finalmente reunidas, compõem uma visão totalizante e historicamente
informada da paisagem.
Ab’Sáber nunca foi um geógrafo de gabinete. Sua obra sempre nasceu da
experiência direta com o terreno, da leitura do relevo como se fosse um livro
antigo marcado por rasuras, sedimentos, cicatrizes e vestígios de climas
passados. Essa fidelidade à paisagem permitiu-lhe produzir um conjunto coeso de
conceitos que, no livro, se integram: os domínios de natureza, as faixas de
transição, as famílias de ecossistemas, a noção de pisos altitudinais, os
efeitos da herança quaternária, entre outros. A obra, portanto, não inaugura um
pensamento, mas o recolhe, organiza e o eleva à condição de sistema
explicativo. É como se ele transformasse décadas de notas de campo em uma
cartografia filosófica da paisagem brasileira.
Por isso a obra funciona como uma das pedras fundamentais da identidade da
Geografia Física brasileira. Em um país onde o conhecimento territorial tantas
vezes foi fragmentado - ora em estudos de vegetação, ora em análises isoladas
de clima, ora em levantamentos de solos - Ab’Sáber propõe um modelo que integra
tudo isso sob uma mesma chave interpretativa. Seus domínios são,
simultaneamente, unidades didáticas, ecológicas, geomorfológicas e históricas.
Eles revelam não apenas “onde” certos conjuntos se localizam, mas “por que” se
organizam da forma que se organizam, quais processos os moldaram e de que
maneira dialogam com o restante do subcontinente.
Essa capacidade sintética deu ao Brasil um idioma científico próprio. Se antes
a geografia brasileira importava modelos estrangeiros - de Köppen a Holdridge,
de Wilhelmy aos modelos de biomas -, Ab’Sáber conseguiu criar um arcabouço
conceitual ancorado na realidade específica do país. Seus domínios não ignoram
a tradição internacional, mas tampouco se submetem a ela: são um gesto de
autonomia epistemológica, afirmando que o Brasil possui escala, complexidade e
singularidade suficientes para exigir um modelo interpretativo que lhe seja
adequado.
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