Contra as Modas do Pensamento: David Stove e o Antirracionalismo Moderno



O livro On Enlightenment, de David Stove, foi publicado postumamente, em 2003, sete anos após a morte do autor, ocorrida em 1994. A obra reúne uma coletânea de ensaios, artigos e palestras escritos ao longo das décadas de 1980 e início dos anos 1990, período em que Stove já havia se tornado uma figura marginal e combativa no meio acadêmico australiano. O volume foi organizado por James Franklin, colega e interlocutor intelectual de Stove, com o objetivo explícito de preservar e sistematizar sua crítica ao irracionalismo moderno. O contexto imediato da publicação é o auge da influência do pós-modernismo, do construtivismo radical e da chamada “French theory” nas universidades anglófonas. Stove via esse cenário como uma traição aos ideais centrais do Iluminismo: razão, verdade objetiva e realismo científico.

Parte I - "So You Think You're an Egalitarian?"

A primeira parte de On Enlightenment constitui uma ofensiva intelectual contra o igualitarismo moderno, e sua estrutura tripartite revela uma estratégia argumentativa cuidadosamente planejada. O ensaio inicial, Did Babeuf Deserve the Guillotine?, estabelece uma conexão causal direta entre ideias igualitárias radicais e as consequências sangrentas da Revolução Francesa. François Babeuf, que adotou o nome “Gracchus” em homenagem aos reformadores romanos, liderou a Conspiração dos Iguais em 1796, sendo posteriormente executado. Para Stove, a questão titular não solicita um julgamento moral abstrato sobre se Babeuf merecia morrer, mas interroga se o igualitarismo radical necessariamente conduz à violência, à destruição e à tirania.

A análise de Stove demonstra que a Revolução Francesa, longe de representar mero acidente histórico ou desvio da nobre busca pela igualdade, exemplifica a consequência inevitável quando ideias igualitárias são implementadas na prática. O filósofo australiano recusa categoricamente a interpretação iluminista padrão, segundo a qual a violência revolucionária teria sido um excesso lamentável ou uma traição aos ideais originais. Ao contrário, argumenta que o Terror, os massacres de setembro, a guilhotina funcionando incessantemente e a destruição sistemática da cultura aristocrática e eclesiástica foram manifestações lógicas do compromisso com a igualdade universal.

A relação entre igualitarismo e violência, na perspectiva stoveana, não é meramente contingente ou acidental. Deriva de duas características psicológicas fundamentais do pensamento igualitário. A primeira: o igualitarismo alimenta-se de inveja, vaidade e ambição. Essas paixões, embora não universais, são suficientemente difundidas e intensas para mobilizar massas. A segunda característica, frequentemente negligenciada: o igualitarismo nutre-se de sede de sangue. Stove observa que militantes igualitários como Marx, Bakunin e Lenin, embora relativamente livres de inveja pessoal, demonstravam apetite extraordinário por derramamento de sangue alheio.

A evidência dessa sede de sangue manifesta-se em um experimento mental que Stove propõe aos leitores igualitários. Tente formar uma imagem mental de um futuro feliz em que todos sejam iguais. Nada vem à mente. Agora tente visualizar a derrubada dos privilégios necessária para alcançar esse futuro. Imediatamente surgem imagens vívidas de sofrimento infligido aos defensores da ordem estabelecida - policiais, soldados, chefes de Estado, sacerdotes. O elemento invariável nessas imagens é sempre o mesmo: violência, destruição, morte.

Essa conexão psicológica entre igualitarismo e violência explica um fenômeno histórico desconcertante: o progresso do igualitarismo nos últimos duzentos anos tem sido progresso através de oceanos cada vez mais profundos de sangue. A França em 1789 e 1871, a Rússia em 1917, a China em 1948, o Vietnã do Sul em 1968, o Camboja em 1976 - cada episódio superou o anterior em carnificina. A quantidade de sangue derramado por governos igualitários no século XX eclipsa totalmente todo o sangue derramado pela “reação” clerical, aristocrática ou capitalista ao longo da história.

Stove rejeita veementemente a hipótese de que essa correlação seja acidental. O igualitarismo radical, quando confrontado com a realidade de que os seres humanos são inerentemente desiguais em talentos, capacidades, energia e virtude, deve necessariamente recorrer à coerção violenta para impor uma igualdade artificial. Como as desigualdades naturais se reafirmam continuamente, a coerção precisa ser perpétua e escalatória. O resultado inevitável é o Estado totalitário que Lenin, Stalin, Mao e Pol Pot estabeleceram - Estados dedicados à tarefa impossível de suprimir as diferenças naturais entre os seres humanos mediante força ilimitada.

O segundo ensaio, A Promise Kept by Accident, examina outra dimensão crucial do pensamento igualitário: sua relação com a promessa iluminista de progresso material. Os pensadores do Iluminismo prometeram que a aplicação da razão, o avanço da ciência e a reforma social conduziriam à eliminação de males ancestrais — fome, doença, trabalho brutal, pobreza. O título provocativo de Stove sugere que, na medida em que essas promessas foram cumpridas, o cumprimento ocorreu por acidente, não como resultado direto das ideias ou políticas iluministas.

O argumento desenvolve-se em duas etapas. Na primeira, Stove demonstra que até 1850, ou mesmo 1900, havia ocorrido progresso mínimo na cura de doenças, na redução do fardo laboral humano ou no aumento da produção alimentar. A expectativa de vida permanecia baixa, a maioria das pessoas trabalhava longas horas em condições brutais, e fomes periódicas continuavam dizimando populações. Essas realidades persistiram apesar de séculos de “progresso” iluminista, da disseminação da educação, de avanços científicos consideráveis e de reformas políticas.

Na segunda etapa, quando finalmente ocorreu progresso material dramático, esse progresso resultou de inovações tecnológicas específicas - principalmente a eletricidade e o motor a combustão - que criaram riqueza em escala anteriormente inimaginável. Essas inovações não foram produtos de planejamento social igualitário ou de reformas distributivas. Foram fruto do trabalho de indivíduos excepcionalmente talentosos em sociedades que, embora longe de igualitárias, lhes proporcionavam o lazer, a tranquilidade e o acesso ao conhecimento acumulado necessários para descobertas revolucionárias.

O conceito de “promessa cumprida por acidente” encerra uma ironia devastadora. O Iluminismo prometeu que a razão, a ciência e a reforma social melhorariam a condição humana. De fato, houve melhoria dramática - porém essa melhoria não resultou das ideias igualitárias centrais ao projeto iluminista. Resultou de inovações produzidas por indivíduos excepcionais operando em sociedades hierárquicas e desiguais. Em outras palavras, o progresso material ocorreu não por causa do igualitarismo iluminista, mas apesar dele.

Ainda mais irônico: as políticas redistributivas favorecidas pelos igualitários, longe de acelerar o progresso, retardaram-no. A tributação progressiva que destruiu grandes bibliotecas privadas, a expansão do Estado de bem-estar que desviou recursos da criação de riqueza para o consumo, e as políticas educacionais igualitárias que diluíram padrões acadêmicos — todas essas medidas prejudicaram precisamente as condições que tornam possível o avanço cultural e tecnológico.

A relação entre expectativas igualitárias e resultados práticos revela-se, portanto, perversa. Os igualitários prometem uma utopia: uma sociedade em que todos terão acesso igual à educação, à cultura e à prosperidade material. Na realidade, políticas igualitárias destroem sistematicamente as condições necessárias para que a cultura e a prosperidade existam. Destroem o lazer, a tranquilidade e o acesso ao conhecimento de que a elite cultivada necessita. Destroem os incentivos econômicos que estimulam a criação de riqueza. Destroem as hierarquias naturais que permitem a transmissão de conhecimento de mestres para discípulos.

O terceiro ensaio, The Bateson Fact, or One in a Million, ataca diretamente os pressupostos igualitários sobre a distribuição de talentos e características humanas. William Bateson, eminente biólogo inglês, opôs-se ao “externalismo” iluminista — a crença de que os caracteres humanos originam-se inteiramente em circunstâncias externas. Bateson defendeu que as grandes descobertas intelectuais resultam de dons individuais excepcionais, não de educação privilegiada ou de circunstâncias ambientais favoráveis.

O fenômeno estatístico que Stove denomina “Fato de Bateson” pode ser formulado da seguinte maneira: os avanços significativos em qualquer campo do conhecimento humano são produzidos por indivíduos extraordinariamente raros - literalmente um em um milhão ou menos. Esses indivíduos não são apenas um pouco mais talentosos que a média; são ordens de magnitude superiores. O exemplo citado por Stove é devastadoramente claro: em 1696, o matemático suíço Johann Bernoulli publicou por toda a Europa uma solicitação de soluções para dois problemas matemáticos que não conseguira resolver. Concedeu inicialmente seis meses, depois estendeu o prazo para doze meses a pedido de Leibniz. Newton resolveu ambos os problemas em vinte e quatro horas.

Esse exemplo não ilustra simplesmente uma diferença quantitativa de capacidade — como se Newton fosse, digamos, dez por cento mais inteligente que Bernoulli ou Leibniz. Ilustra uma diferença qualitativa tão radical que desafia categorização. Bernoulli e Leibniz, eles próprios matemáticos de primeira grandeza, não conseguiram resolver em meses o que Newton solucionou em horas. A disparidade é tão vasta que sugere diferentes espécies de inteligência, não meramente diferentes graus.

Fenômenos similares repetem-se por toda a história da ciência e da cultura. Michael Faraday, filho de ferreiro sem educação formal, revolucionou a física do eletromagnetismo. Ramanujan, matemático indiano autodidata de origem humilde, produziu resultados que deixaram os matemáticos de Cambridge perplexos. Shakespeare, filho de comerciante de classe média de uma cidade provincial, produziu obras dramatúrgicas sem paralelo antes ou depois. Esses casos não podem ser explicados por circunstâncias externas favoráveis, educação superior ou privilégio econômico.

O Fato de Bateson demole a premissa igualitária fundamental: a de que todos os seres humanos possuem, exceto por diferenças de educação e ambiente, capacidades intelectuais essencialmente iguais. Essa premissa é empiricamente falsa. A distribuição de talentos intelectuais na população humana não é uniforme, nem mesmo aproximadamente uniforme. É extremamente assimétrica, com um pequeno número de indivíduos possuindo capacidades imensamente superiores às da vasta maioria.

Stove acrescenta uma observação igualmente fatal para o igualitarismo: a maioria das pessoas carece não apenas da capacidade para contribuições intelectuais significativas, mas também do desejo de fazê-lo. Para a maioria dos seres humanos, sentar-se quietamente sozinho por horas pensando sobre questões difíceis nas quais não possuem interesse pessoal direto é uma perspectiva purgatorial. Barulho, companhia, ocupação conjunta, as excitações da guerra, do poder, do dinheiro, do sexo ou do esporte - essas são as coisas que constituem a ideia de tempo bem gasto para a maioria das pessoas.

Essa dupla constatação — que a maioria das pessoas não pode ser pensadora e não quer ser pensadora — torna ridícula a visão marxista de que, na sociedade comunista futura, todos serão pensadores, artistas, cidadãos e trabalhadores simultaneamente. A cultura intelectual sempre foi e sempre será produzida por uma minoria ínfima. Políticas igualitárias que visam universalizar o acesso à cultura superior não democratizam a cultura; simplesmente a destroem ao eliminar as condições necessárias para sua existência.

O título provocativo So You Think You’re an Egalitarian? sintetiza o objetivo estratégico dos três ensaios. Stove não está meramente refutando o igualitarismo como doutrina filosófica equivocada. Está expondo contradições fundamentais entre o que os igualitários professam acreditar e o que devem logicamente aceitar se levarem suas crenças às conclusões lógicas.

O título provocativo So You Think You’re an Egalitarian? sintetiza o objetivo estratégico dos três ensaios. Stove não está meramente refutando o igualitarismo como doutrina filosófica equivocada. Está expondo contradições fundamentais entre o que os igualitários professam acreditar e o que devem logicamente aceitar se levarem suas crenças às conclusões lógicas.

  • Primeira contradição: igualitários proclamam devotamento à liberdade e aos direitos humanos, todavia o igualitarismo historicamente produziu os regimes mais opressivos e sanguinários que o mundo já conheceu. Segundo a lógica igualitária, essa conexão não pode ser acidental. Se o privilégio é um mal que deve ser eliminado, e se os seres humanos naturalmente resistem à eliminação forçada de seus privilégios, então a violência massiva torna-se não apenas provável, mas necessária. Igualitários que recuam horrorizados diante da violência revolucionária não compreenderam as implicações de suas próprias convicções.
  • Segunda contradição: igualitários afirmam valorizar a cultura, a educação e o progresso científico. Entretanto, essas coisas requerem precisamente as condições que o igualitarismo destrói — lazer, tranquilidade, bibliotecas e, sobretudo, a existência de uma pequena elite de indivíduos excepcionalmente dotados que dedicam suas vidas ao estudo. A cultura sempre foi e sempre será monopólio da classe média — não dos muito ricos nem dos muito pobres, mas daquela ampla faixa intermediária que possui algumas vantagens sociais sem possuir todas. Políticas redistributivas que visam eliminar essas vantagens eliminam simultaneamente as condições para a cultura existir.
  • Terceira contradição: igualitários insistem que todos os seres humanos são essencialmente iguais e que diferenças observadas de realização resultam de diferenças de oportunidade. O Fato de Bateson prova que isso é falso. As grandes realizações humanas são produtos de indivíduos “um em um milhão”, não de circunstâncias favoráveis. Qualquer pai de múltiplos filhos sabe que crianças criadas sob condições praticamente idênticas desenvolvem capacidades e personalidades radicalmente diferentes. Negar essas diferenças naturais não é idealismo nobre; é recusa em enfrentar realidades biológicas óbvias.
  • Quarta contradição: igualitários prometem que a eliminação do privilégio conduzirá à maior felicidade para o maior número. Historicamente, o resultado tem sido o oposto. Sociedades que mais energicamente perseguiram a igualdade — União Soviética, China maoísta, Camboja de Pol Pot — produziram miséria em escala sem precedentes. Por contraste, sociedades capitalistas desigualmente prósperas elevaram padrões de vida de forma dramática para todas as classes, incluindo as mais baixas.

A estratégia retórica de Stove é, portanto, retórica-argumentativa no sentido mais profundo. Ele não está simplesmente argumentando que o igualitarismo é falso; está demonstrando que pessoas que se consideram igualitárias não compreenderam o que estão endossando. Quando confrontadas com as implicações lógicas e as consequências históricas de suas crenças professadas, a maioria recuaria horrorizada. O título So You Think You’re an Egalitarian? funciona como desafio: você realmente acredita que todos devem ser iguais? Então aceita a destruição da cultura que isso implica? Aceita a violência massiva que isso requer? Aceita a negação de diferenças biológicas óbvias que isso pressupõe?

A parte mais perturbadora da análise de Stove é sua demonstração de que o igualitarismo, longe de enfraquecer após cada catástrofe histórica, emerge mais forte e mais disseminado. A Revolução Francesa, apesar de seu Terror, inspirou a Comuna de Paris. A Comuna, apesar de sua supressão sangrenta, inspirou os bolcheviques. A União Soviética, apesar de suas dezenas de milhões de mortos, inspirou Mao. O maoísmo, apesar de seus horrores, inspirou Pol Pot. E após Pol Pot, o ardor igualitário no Ocidente não diminuiu; ao contrário, intensificou-se.

Stove identifica um fenômeno que Tocqueville observara um século antes: quanto mais a igualdade é alimentada, menos ela é satisfeita. À medida que mais desigualdades são removidas, as restantes tornam-se mais intoleráveis. Pequenas desigualdades em épocas em que o privilégio praticamente desapareceu excitam mais indignação do que desigualdades vastamente maiores provocavam em períodos anteriores. Essa característica mórbida da paixão igualitária significa que ela nunca pode ser saciada. Cada vitória simplesmente prepara o terreno para demandas mais extremas.

Parte II – “Why the World is the Way It Is”

A segunda parte de On Enlightenment, intitulada Why the World is the Way It Is, representa uma investida ainda mais ambiciosa que a primeira. Se os ensaios iniciais demoliram os fundamentos morais e empíricos do igualitarismo, esta seção procura explicar por que padrões de desigualdade, privilégio e sofrimento persistem ao longo da história humana - não como acidentes corrigíveis mediante reforma social, mas como consequências inevitáveis de constrangimentos biológicos e econômicos fundamentais.

O ensaio The Malthus Check ocupa posição central nessa argumentação. Thomas Robert Malthus publicou, em 1798, An Essay on the Principle of Population, obra que revolucionou o pensamento social ao introduzir uma análise quantitativa rigorosa das relações entre população e recursos. A tese malthusiana fundamental é simples: a população tende a crescer geometricamente (2, 4, 8, 16...) enquanto a produção de alimentos cresce apenas aritmeticamente (2, 3, 4, 5...). O resultado inexorável é que a população sempre pressiona contra os limites de subsistência, e qualquer aumento temporário na produção alimentar simplesmente permite um crescimento populacional que rapidamente consome o excedente.

Stove utiliza essa tese para explicar um fenômeno que desconcertou gerações de historiadores: por que, durante milênios, a vasta maioria da humanidade viveu à beira da fome, trabalhando longas horas sob condições brutais, com expectativa de vida baixa e sem esperança realista de melhoria? A resposta iluminista padrão atribuía essa miséria a instituições opressivas - feudalismo, monarquia, Igreja - que impediam o florescimento natural da humanidade. Elimine essas instituições, dizia-se, e a prosperidade universal seguir-se-ia naturalmente.

Malthus demonstrou que essa explicação era inadequada. Mesmo em sociedades sem reis, padres ou capitalistas — mesmo entre povos primitivos vivendo em “estado de natureza” - a miséria era universal. O problema não residia primariamente em instituições políticas ou econômicas, mas em uma realidade biológica fundamental: os seres humanos, como todos os organismos, reproduzem-se até esgotar seus recursos disponíveis. O “freio malthusiano” - fome, doença, guerra - opera perpetuamente para equilibrar a população com a capacidade produtiva.

Stove extrai dessa análise consequências devastadoras para o pensamento igualitário. Se a maioria da humanidade viveu historicamente na pobreza não por causa de instituições opressivas, mas devido à pressão populacional inexorável, então a redistribuição de riqueza dos privilegiados para os desprivilegiados não resolverá o problema. Suponha que se confisque toda a riqueza dos ricos e a distribua aos pobres. O resultado imediato pode ser uma melhoria material para os pobres, mas essa melhoria permite aumento populacional que rapidamente consome o ganho. Dentro de uma ou duas gerações, a população expandida encontra-se novamente pressionando contra os limites de subsistência.

O padrão histórico que Stove identifica é o seguinte: sempre que alguma inovação tecnológica ou organizacional aumenta a produtividade - domesticação de animais, invenção do arado, rotação de culturas, fertilizantes - o resultado inicial é melhoria nas condições de vida. Porém, essa melhoria é transitória. A população aumenta para consumir o excedente, e o novo equilíbrio estabelece-se com uma população maior vivendo no mesmo nível miserável de subsistência que prevalecia antes. O freio malthusiano não pode ser abolido mediante reforma social; pode apenas ser temporariamente afrouxado até que o crescimento populacional o restabeleça.

Essa análise explica por que a desigualdade é característica permanente das sociedades humanas, não uma anomalia corrigível. Em sociedades operando sob o freio malthusiano - isto é, em qualquer sociedade pré-industrial - a vasta maioria necessariamente vive ao nível de subsistência. Para que exista uma classe ociosa com lazer suficiente para cultura, educação e refinamento, é necessário que alguns sejam liberados da pressão imediata de produzir alimentos. Essa liberação requer que outros trabalhem para produzi-los. A desigualdade não é acidente ou injustiça; é condição necessária para que a civilização exista.

Stove não está argumentando que toda desigualdade específica seja justificada ou necessária. Está argumentando que alguma desigualdade é inevitável enquanto a sociedade opera sob constrangimentos malthusianos. Os reformadores igualitários que imaginam poder eliminar todas as desigualdades mediante redistribuição compulsória estão, portanto, perseguindo uma quimera. Podem destruir as classes privilegiadas existentes, como fizeram na Rússia e na China, mas não podem eliminar a necessidade de que alguns tenham lazer enquanto outros trabalham, se desejam que a civilização continue existindo.

O ensaio seguinte, Population, Privilege, and Malthus’ Retreat, examina uma questão ainda mais intrigante: por que as teorias malthusianas, apesar de sua clareza lógica e de seu suporte empírico robusto, foram largamente abandonadas no século XIX e permaneceram em descrédito intelectual até recentemente? A resposta, segundo Stove, ilumina aspectos fundamentais da psicologia do pensamento iluminista.

O recuo malthusiano começou quase imediatamente após a publicação do Essay. Os críticos atacaram Malthus de múltiplas direções. Os religiosos denunciaram-no por sugerir que Deus criara um mundo onde o sofrimento era inevitável. Os românticos denunciaram-no por sua frieza calculista e falta de simpatia pelos pobres. Os radicais, especialmente William Godwin e seus seguidores, denunciaram-no por fornecer justificativa intelectual para a opressão dos pobres e a perpetuação do privilégio aristocrático.

Essas críticas tinham força retórica considerável, embora fossem intelectualmente desonestas. Malthus não argumentara que o sofrimento fosse desejável ou que nada deveria ser feito para aliviá-lo. Argumentara simplesmente que certas políticas - particularmente as Leis dos Pobres inglesas, que forneciam auxílio governamental baseado no tamanho da família - agravavam o problema ao encorajar a procriação entre aqueles menos capazes de sustentar filhos. Suas recomendações incluíam a “restrição moral” (isto é, casamento tardio e celibato) como alternativa humana aos freios positivos de fome e doença.

Entretanto, o que selou o destino intelectual de Malthus não foram esses argumentos, mas um desenvolvimento histórico inesperado: a Revolução Industrial. A partir de aproximadamente 1800 na Inglaterra, e progressivamente em outros países, a produtividade começou a aumentar a taxas sem precedentes. Mais importante ainda, esse aumento sustentou-se por décadas, depois por séculos. A previsão malthusiana de que qualquer ganho de produtividade seria rapidamente consumido pelo crescimento populacional mostrou-se falsa, pelo menos temporariamente.

O resultado foi descrédito intelectual total para Malthus. Os vitorianos interpretaram a industrialização como prova de que o otimismo iluminista estava correto: progresso tecnológico e reforma social poderiam, de fato, eliminar a miséria humana. O fantasma malthusiano de uma população pressionando inexoravelmente contra os recursos foi exorcizado. Uma nova era de abundância havia chegado, e essa abundância poderia ser distribuída equitativamente mediante políticas apropriadas.

Stove identifica nesse recuo malthusiano consequências profundas para o pensamento iluminista sobre progresso social. Com Malthus refutado, todas as barreiras intelectuais à engenharia social ambiciosa evaporaram. Se pobreza e desigualdade não eram consequências inevitáveis de constrangimentos biológicos e econômicos, então deviam resultar de arranjos sociais defeituosos. E, se resultavam de arranjos sociais defeituosos, podiam ser eliminados mediante reestruturação social suficientemente radical.

Essa conclusão alimentou todos os movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX. Socialistas, comunistas e reformadores de diversos tipos basearam seus programas na premissa de que a produtividade industrial moderna havia transcendido o freio malthusiano, tornando possível, pela primeira vez na história, a prosperidade universal mediante distribuição equitativa. A Revolução Industrial não apenas fornecera os meios técnicos para a abundância, como também removera a última desculpa intelectual para tolerar desigualdade e privilégio.

O problema, como Stove observa com sua perspicácia característica, é que o recuo malthusiano foi prematuro. A Revolução Industrial de fato suspendeu temporariamente o freio malthusiano em alguns países, permitindo aumentos simultâneos de população e padrão de vida. Porém, esse fenômeno limitou-se geograficamente e temporalmente. Vastas regiões do mundo - África, Ásia, América Latina - permaneceram firmemente sob controle malthusiano durante todo o século XX. Mesmo nos países industrializados, a suspensão do freio dependeu de circunstâncias especiais: acesso a recursos coloniais, explosão única de inovações tecnológicas e, crucialmente, redução voluntária das taxas de natalidade.

Quando países em desenvolvimento tentaram replicar o modelo ocidental de industrialização sem simultânea redução da fertilidade, os resultados confirmaram Malthus de forma dramática. A população explodiu, consumindo os ganhos de produtividade. Auxílio estrangeiro e programas de redistribuição, longe de aliviar a pobreza, frequentemente a agravaram ao remover incentivos para o controle populacional. O “segredo diabólico” que Malthus revelara - que benevolência sem sabedoria pode aumentar o sofrimento total - provou-se verdadeiro repetidamente.

O ensaio The Diabolical Place: A Secret of the Enlightenment fornece o título para esta seção e merece atenção especial. Stove argumenta que há conhecimento que os pensadores iluministas possuíam, mas sistematicamente suprimiram ou minimizaram porque contradizia suas premissas fundamentais. Esse conhecimento constitui “segredo” não no sentido de ser desconhecido, mas no sentido de ser deliberadamente não discutido ou obscurecido.

O segredo diabólico é o seguinte: existem lugares onde seres humanos vivem em condições tão miseráveis que sua existência continuada representa provavelmente uma soma negativa de felicidade. Stove chama esses lugares de “diabólicos” porque sua existência coloca um problema insolúvel para o utilitarismo e para o otimismo iluminista sobre o progresso. Se o objetivo moral supremo é maximizar a felicidade, e se existem populações cuja vida contém mais sofrimento que prazer, então a conclusão lógica - conclusão que nenhum pensador humano pode aceitar - seria que essas populações não deveriam existir.

Malthus, com honestidade característica, reconheceu essa implicação. Observou que, em certas condições de pobreza extrema, “a natureza espalha a mesa para número limitado de convidados, e aqueles que chegam depois encontram-se sem lugar”. A implicação é que políticas que encorajam a procriação nessas condições aumentam o sofrimento total ao ampliar o número de vidas miseráveis.

Os pensadores iluministas, particularmente os utilitaristas, confrontaram-se com um dilema inescapável. Sua teoria moral implicava que aliviar o sofrimento era o imperativo supremo. Porém, Malthus demonstrara que intervenções bem-intencionadas para aliviar o sofrimento frequentemente perpetuavam ou agravavam as condições que o produziam. As Leis dos Pobres inglesas, ao fornecer auxílio proporcional ao número de filhos, incentivavam exatamente a procriação entre os mais pobres, que menos podiam sustentar crianças. O resultado era aumento no número total de vidas miseráveis.

O segredo diabólico é, portanto, que a benevolência universal - o princípio moral central do Iluminismo - pode ser contraproducente quando aplicada sem consideração por suas consequências populacionais. Alimentar os famintos é imperativo moral, certamente. Porém, se alimentar os famintos resulta em população maior que enfrenta fomes ainda piores na geração seguinte, então a benevolência de curto prazo produz mal de longo prazo.

Stove considera esse segredo merecedor de exposição porque revela uma contradição no coração do projeto iluminista. Os iluministas prometeram que razão e benevolência transformariam o mundo, eliminando o sofrimento. Malthus demonstrou que benevolência sem sabedoria - isto é, benevolência que ignora realidades biológicas e econômicas - pode aumentar o sofrimento. Essa demonstração deveria ter temperado o otimismo iluminista, introduzindo cautela e humildade nas ambições de reforma social. Em vez disso, foi suprimida e denunciada porque ameaçava a narrativa fundamental de progresso inevitável.

A supressão teve consequências trágicas. Reformadores sociais dos séculos XIX e XX, operando sob a premissa de que a benevolência universal sempre produz bons resultados, implementaram políticas que frequentemente causaram desastres. Programas de auxílio internacional que ignoraram dinâmicas populacionais, coletivização agrícola que destruiu incentivos de produção, redistribuição de terras que fragmentou propriedades abaixo de tamanho viável — todas essas políticas foram motivadas por benevolência, e todas produziram fomes massivas e sofrimento em escala sem precedentes.

O ensaio Glimpses of Pioneer Life adota uma estratégia argumentativa diferente, porém complementar. Em vez de análise teórica, Stove apresenta descrições factuais da vida dos pioneiros americanos e australianos no século XIX. Essas descrições, extraídas de diários, cartas e memórias, documentam condições de dureza quase inimaginável: famílias vivendo em cabanas de terra ou madeira, trabalhando do amanhecer ao anoitecer, enfrentando calor brutal ou frio extremo, frequentemente sem médicos, escolas ou mesmo vizinhos a distância razoável.

O propósito desse ensaio não é nostalgia ou celebração da vida pioneira. Stove não romantiza o sofrimento. Seu objetivo é precisamente o contrário: contrastar realidades históricas concretas com ideais iluministas abstratos. Os philosophes do século XVIII imaginavam que seres humanos em “estado de natureza” viviam vidas de liberdade e satisfação simples, corrompidas apenas pela civilização e suas instituições opressoras. Rousseau fantasiava sobre “o nobre selvagem” que, liberto das correntes da sociedade, floresceria em sua humanidade natural.

As realidades da vida pioneira refutam essas fantasias de forma conclusiva. Os pioneiros viviam tão próximos quanto possível do “estado de natureza” - sem governo opressivo, sem hierarquias aristocráticas, sem luxos civilizacionais. O resultado não foi florescimento da humanidade natural, mas luta brutal pela sobrevivência. As taxas de mortalidade eram espantosas, particularmente entre crianças e mulheres em idade reprodutiva. Doenças que seriam trivialmente tratáveis em ambiente civilizado tornavam-se frequentemente fatais. O trabalho físico consumia praticamente todas as horas de vigília, deixando pouco tempo ou energia para atividades intelectuais ou artísticas.

Stove extrai dessa evidência várias lições. Primeira: a civilização, com todas as suas desigualdades e hierarquias, é pré-requisito para vidas que transcendem a mera sobrevivência. Os pioneiros que prosperaram foram aqueles que rapidamente estabeleceram instituições civilizacionais - escolas, igrejas, governo local, conexões comerciais com mercados distantes. Aqueles que permaneceram isolados e autossuficientes permaneceram miseráveis.

Segunda lição: liberdade em sentido abstrato - ausência de restrições governamentais ou sociais - não garante felicidade ou realização. Os pioneiros eram livres no sentido de que nenhum senhor feudal ou burocracia estatal controlava suas vidas. Todavia, estavam escravizados pelas necessidades implacáveis da sobrevivência física. A liberdade significativa requer não apenas ausência de coerção humana, mas também liberação das necessidades mais urgentes de subsistência - liberação que somente uma civilização próspera pode fornecer.

Terceira lição, talvez a mais importante: a vida humana “natural”, não corrompida pela civilização, não é uma existência edênica de harmonia e satisfação. É luta brutal, geralmente breve e frequentemente desesperada. As desigualdades e hierarquias da civilização, longe de serem desvios lamentáveis de algum estado natural superior, são mecanismos que tornaram possível escapar dessa luta. O privilégio de alguns foi historicamente o preço necessário para que a civilização existisse, e a civilização foi historicamente a única alternativa à miséria universal.

O ensaio Altruism and Darwinism aborda a tensão fundamental entre teoria evolutiva e expectativas iluministas sobre comportamento humano. Darwin demonstrou que a seleção natural favorece características que aumentam o sucesso reprodutivo individual. Isso parece implicar que o comportamento egoísta - aquele que maximiza a própria sobrevivência e reprodução à custa de outros - deveria dominar. Todavia, o altruísmo genuíno - comportamento que beneficia outros à custa de si mesmo - é amplamente observado tanto em humanos quanto em outros animais sociais.

Os biólogos evolutivos desenvolveram explicações sofisticadas para esse aparente paradoxo: seleção de parentesco (ajudar parentes que compartilham genes), altruísmo recíproco (cooperação que eventualmente beneficia ambas as partes), seleção de grupo (grupos com membros altruístas superam grupos de egoístas). Stove considera essas explicações parcialmente satisfatórias para o comportamento animal, porém inadequadas para explicar o altruísmo humano na escala e forma observadas.

O problema é que os humanos demonstram altruísmo que não pode ser facilmente reduzido a interesse próprio genético. Pessoas doam anonimamente para caridades que ajudam estranhos distantes. Soldados sacrificam-se por camaradas não relacionados. Filósofos morais desenvolvem e defendem princípios de justiça e benevolência universal. Nenhuma dessas ações aumenta, de modo evidente, o sucesso reprodutivo do agente.

Os iluministas, particularmente os utilitaristas, assumiram que a benevolência universal representa o ápice do desenvolvimento moral - a meta para a qual a humanidade deveria aspirar. Esperavam que educação e progresso social expandissem gradualmente o círculo de preocupação moral até abranger toda a humanidade, talvez eventualmente todos os seres sencientes. Essa expectativa apoiava-se na crença de que a razão, quando adequadamente cultivada, naturalmente produz altruísmo expansivo.

Stove argumenta que tanto a biologia darwiniana quanto a evidência histórica contradizem essa expectativa. Do ponto de vista evolutivo, a benevolência universal é mal adaptativa. Indivíduos que sacrificam recursos próprios para beneficiar estranhos distantes reduzem seu sucesso reprodutivo em comparação com indivíduos que concentram recursos em si mesmos e em seus parentes. A seleção natural, portanto, deveria ter eliminado ou, ao menos, minimizado tendências para a benevolência verdadeiramente universal.

A evidência histórica confirma essa previsão. Apesar de séculos de educação moral e pregação religiosa sobre amor universal, os seres humanos permanecem predominantemente tribais em suas lealdades e preocupações. Preocupamo-nos intensamente com família e amigos, moderadamente com concidadãos, minimamente com estrangeiros distantes. Essa hierarquia de preocupação não é um defeito moral remediável por meio da educação; é característica profunda da psicologia humana, provavelmente com raízes evolutivas.

A implicação para o projeto iluminista é devastadora. Se a benevolência universal é psicologicamente antinatural e evolutivamente mal adaptativa, então programas baseados na suposição de que as pessoas podem e devem tratar todos os seres humanos com igual consideração estão condenados ao fracasso. Pior: tentativas de implementar tais programas coercitivamente - como no caso do comunismo - produzem violência massiva precisamente porque violam tendências psicológicas profundas.

Stove não conclui que deveríamos abandonar toda preocupação moral por estranhos distantes. Conclui que as expectativas devem ser realistas. Políticas sociais que pressupõem altruísmo ilimitado produzirão desilusão e, frequentemente, desastre. Políticas que reconhecem e trabalham dentro dos limites da natureza humana têm muito maior probabilidade de sucesso.

O ensaio final desta seção, Paralytic Epistemology, or the Soundless Scream, aborda uma questão epistemológica fundamental: por que tantos intelectuais abraçam teorias que são obviamente falsas e defendem políticas que são previsivelmente desastrosas? O título evocativo sugere conhecimento que foi paralisado - tornado inoperante - de modo que erros óbvios não podem ser reconhecidos e gritos de protesto não podem ser ouvidos.

Stove identifica várias fontes dessa paralisia epistemológica. Primeira: compromisso ideológico que substitui o julgamento empírico. Quando a teoria torna-se parte da identidade do pensador, a evidência contrária deixa de ser registrada. Marxistas confrontados com fracassos repetidos do socialismo redefinem o socialismo ou culpam a implementação inadequada, nunca questionando a teoria subjacente. Igualitários confrontados com evidências de diferenças naturais em capacidades descartam-nas como produto de preconceito ou “socialização”.

Segunda fonte: o que podemos chamar de “horror ao vácuo intelectual”. Intelectuais sentem necessidade profunda de teorias abrangentes que expliquem tudo. Teorias simples e elegantes exercem atração quase irresistível, mesmo quando empiricamente inadequadas. O marxismo reduziu toda a história à luta de classes; o freudianismo reduziu todo comportamento a impulsos sexuais reprimidos; o behaviorismo reduziu toda psicologia a condicionamento. Essas reduções eram falsas, mas forneciam frameworks intelectualmente satisfatórios que resistiram à refutação por décadas.

Terceira fonte, particularmente relevante para o Iluminismo: confusão entre como gostaríamos que o mundo fosse e como ele realmente é. Todos desejamos um mundo onde ninguém sofre pobreza ou doença, onde todos têm oportunidades iguais, onde conflitos são resolvidos racionalmente. Esse desejo legítimo pode facilmente transformar-se em crença de que tais condições são alcançáveis mediante esforço adequado. A evidência de que alguns sofrimentos são inevitáveis ou de que certas desigualdades são necessárias torna-se psicologicamente intolerável e é, portanto, rejeitada.

A conexão com o tema geral Why the World is the Way It Is é direta. O mundo é como é - caracterizado por desigualdade, privilégio e sofrimento - não primariamente por causa de instituições defeituosas ou moral inadequada, mas por causa de constrangimentos biológicos e econômicos fundamentais. O freio malthusiano opera; os recursos são limitados; os seres humanos têm capacidades desiguais; o altruísmo genuinamente universal é psicologicamente antinatural.

Reconhecer essas verdades requer uma epistemologia não paralisada - disposição de aceitar realidades desagradáveis e abandonar teorias elegantes quando a evidência as refuta. Os pensadores iluministas, apesar de sua retórica sobre razão e empirismo, frequentemente demonstraram epistemologia profundamente paralisada. Ignoraram ou minimizaram evidências que contradiziam sua fé no progresso inevitável. Suprimiram verdades “diabólicas” que ameaçavam seu otimismo. Confundiram aspirações morais com possibilidades práticas.

O “grito silencioso” do título refere-se às vítimas dessa paralisia epistemológica - os milhões que sofreram e morreram sob regimes que implementaram teorias que qualquer observador não paralisado reconheceria como defeituosas. As fomes na Ucrânia, na China e no Camboja; os gulags; os campos de reeducação; as revoluções culturais - todas resultaram de teorias sobre a natureza humana e sobre possibilidades sociais que eram empiricamente falsas. As vítimas gritaram, literalmente gritaram, mas seus gritos não puderam ser ouvidos pelos intelectuais cuja epistemologia estava paralisada pelo compromisso ideológico.

A segunda parte de On Enlightenment constitui, portanto, um exercício em realismo trágico. Não nega que o progresso seja possível ou desejável. Nega que o progresso ilimitado seja alcançável mediante manipulação social. Não nega que o sofrimento deva ser aliviado onde possível. Nega que todo sofrimento possa ser eliminado mediante benevolência bem-intencionada. Não nega que a igualdade seja um valor legítimo em certos contextos. Nega que a igualdade universal seja possível ou mesmo desejável, dados os constrangimentos dentro dos quais a sociedade humana opera.

A visão que emerge é profundamente conservadora no sentido filosófico: cética em relação às utopias, respeitosa das limitações humanas, reconhecedora de que escolhas difíceis e trade-offs são inevitáveis. Essa visão não oferece a mesma satisfação emocional que as promessas iluministas de perfectibilidade e progresso infinito. Oferece, contudo, algo talvez mais valioso: compreensão realista de por que o mundo é do jeito que é, e humildade adequada sobre nossa capacidade de transformá-lo radicalmente por meio de redesenho social ambicioso.

Parte III - "Reclaiming the Jungle"

A terceira e última parte de On Enlightenment, intitulada Reclaiming the Jungle, representa o momento mais combativo e politicamente provocativo da obra. Se as duas primeiras seções demoliram os fundamentos teóricos do igualitarismo e do otimismo iluminista, esta confronta diretamente as aplicações práticas dessas ideias na política contemporânea. O título sugere um movimento de reconquista — a recuperação de território perdido para forças hostis. A selva, neste contexto, não representa primitivismo ou barbárie externa, mas o estado caótico ao qual a civilização ocidental está regredindo sob a influência de ideologias igualitárias.

O ensaio The Columbus Argument abre esta seção com um confronto direto aos movimentos revisionistas que, desde a década de 1960, têm reinterpretado as explorações europeias como genocídio e exploração. Stove reconhece que atrocidades foram cometidas durante a colonização das Américas — doenças introduzidas dizimaram populações nativas, o trabalho forçado causou sofrimento imenso, culturas indígenas foram suprimidas ou destruídas. Essas realidades históricas são inegáveis e lamentáveis.

Entretanto, Stove argumenta que a narrativa contemporânea que apresenta Colombo como criminoso e a colonização europeia como um mal absoluto é profundamente desonesta. Essa narrativa ignora sistematicamente o contexto histórico e aplica padrões morais modernos de forma anacrônica a eventos de cinco séculos atrás. Pior ainda, pressupõe que os povos nativos das Américas viviam em harmonia edênica antes da chegada europeia — pressuposição factualmente falsa.

O “argumento de Colombo” que Stove apresenta pode ser formulado da seguinte maneira: as civilizações pré-colombianas da América praticavam sacrifício humano em escala industrial, guerra perpétua, escravidão, canibalismo e outras práticas que qualquer pessoa civilizada reconheceria como abominações. Os astecas sacrificavam dezenas de milhares de pessoas anualmente. Os maias praticavam mutilação ritual. Os incas mantinham populações inteiras em servidão. Comparadas a essas práticas, as atrocidades europeias, embora reais, não representam um declínio moral, mas a continuação de padrões de violência que eram universais na época.

Crucialmente, os europeus trouxeram consigo não apenas doenças e armas, mas também tecnologias, instituições e ideias que eventualmente elevaram o padrão de vida nas Américas muito acima do que existia antes. A roda, o arado, animais domésticos de tração, escrita alfabética, matemática avançada, medicina científica — todas essas coisas eram desconhecidas nas Américas antes de 1492. Com o tempo, os descendentes dos povos colonizados desfrutariam de expectativas de vida, alfabetização e prosperidade material inimagináveis para seus ancestrais pré-colombianos.

Stove não argumenta que a colonização tenha sido um empreendimento puramente benevolente ou que suas vítimas deveriam ser gratas. Ele se posiciona contra a falsificação histórica que apresenta a colonização como um encontro entre santos indígenas e demônios europeus. A realidade foi um encontro entre diferentes estágios de desenvolvimento civilizacional, no qual o estágio mais avançado inevitavelmente dominou o menos avançado - processo que ocorreu repetidamente ao longo da história humana, em todas as direções geográficas.

A relação com debates contemporâneos é óbvia e incendiária. Movimentos que exigem reparações pela colonização, que derrubam estátuas de exploradores, que redesignam feriados nacionais para enfatizar perspectivas indígenas - todos esses fenômenos baseiam-se na narrativa que Stove rejeita. Para ele, esses movimentos representam não justiça histórica, mas uma flagelação masoquista da civilização ocidental, motivada por uma combinação tóxica de culpa iluminista e ressentimento igualitário.

Stove prevê que essa flagelação terá consequências desastrosas. Quando a sociedade perde confiança na legitimidade de suas próprias tradições e instituições, torna-se incapaz de se defender contra ameaças externas ou internas. Quando jovens são ensinados a desprezar seus ancestrais como genocidas e opressores, perdem a conexão com a herança cultural que os tornou possíveis. O resultado é o niilismo cultural - a selva metafórica que precisa ser reclamada.

O ensaio Bombs Away aborda uma questão aparentemente não relacionada: sob quais circunstâncias o uso da força militar é justificado? A conexão com o tema geral torna-se clara quando percebemos que Stove está defendendo o direito da civilização de se proteger contra o barbarismo, seja externo ou interno. O título irreverente sugere impaciência com escrúpulos morais excessivos sobre o uso da força.

A posição de Stove sobre intervenções militares é nuançada, porém fundamentalmente realista. Ele rejeita tanto o pacifismo absoluto quanto o belicismo irresponsável. Reconhece que a guerra é sempre um mal terrível, envolvendo sofrimento imenso e consequências imprevisíveis. Entretanto, argumenta que recusar-se a usar a força em qualquer circunstância equivale a render-se ao mal.

O framework conservador de Stove fornece princípios claros para avaliar intervenções militares. Primeira consideração: existe ameaça genuína à sobrevivência ou à prosperidade da civilização? Guerras defensivas contra agressores são obviamente justificadas. Segunda consideração: existem alternativas realistas menos destrutivas? Diplomacia e sanções podem ser preferíveis quando eficazes, porém frequentemente se mostram ineficazes contra regimes totalitários ou movimentos fanáticos. Terceira consideração: qual é o provável custo de não agir em comparação ao custo de agir?

Aplicando esses princípios a casos históricos, Stove conclui que a Segunda Guerra Mundial foi claramente justificada - o nazismo e o imperialismo japonês representavam ameaças existenciais à civilização que não podiam ser contidas por meios pacíficos. De modo semelhante, a Guerra Fria justificou a confrontação sustentada contra o comunismo soviético, incluindo intervenções em conflitos periféricos para conter a expansão comunista.

Casos mais controversos revelam a complexidade do pensamento de Stove. Ele expressa ambivalência em relação à Guerra do Vietnã - embora simpatizasse com o objetivo de conter o comunismo, duvidava que a intervenção americana pudesse ter sucesso, dado o terreno político e militar. De forma semelhante, sobre intervenções humanitárias em países sem interesse estratégico direto, Stove mostra-se cético. A benevolência universal, como demonstrou em ensaios anteriores, frequentemente produz consequências contraproducentes.

O que Stove rejeita categoricamente é o que podemos chamar de “excepcionalismo moral ocidental” - a ideia de que países ocidentais devem ser julgados por padrões morais mais rigorosos que os aplicados a outros países. Quando os Estados Unidos usam força militar, são denunciados como imperialistas; quando a União Soviética ou a China fazem o mesmo, isso é explicado como resposta legítima a provocações ocidentais. Essa dupla moralidade não apenas é intelectualmente desonesta, mas também estrategicamente suicida, pois desmoraliza as sociedades ocidentais enquanto encoraja seus adversários.

A conexão com o título Reclaiming the Jungle torna-se evidente. A civilização requer disposição para defender-se contra aqueles que a ameaçam. Quando intelectuais e líderes políticos minaram essa disposição mediante crítica obsessiva ao próprio lado e relativismo moral em relação aos inimigos, prepararam o terreno para a regressão civilizacional. A “selva” avança não principalmente por meio de conquista militar externa, mas através do colapso interno da vontade de resistir.

O ensaio Jobs for the Girls confronta diretamente a questão da igualdade de gênero no mercado de trabalho. Este é talvez o ensaio mais provocativo de todo o volume, porque Stove questiona axiomas que são praticamente sagrados no discurso público contemporâneo. O título coloquial já sinaliza seu ceticismo em relação às campanhas para aumentar a representação feminina em áreas dominadas por homens.

Stove começa reconhecendo que a discriminação injusta contra mulheres existiu historicamente e que sua eliminação representa um progresso moral genuíno. Mulheres não deveriam ser impedidas de perseguir carreiras para as quais são qualificadas apenas em razão de seu sexo. Leis que proíbem a discriminação baseada em gênero são, portanto, justificadas.

Entretanto, Stove argumenta que o movimento contemporâneo por igualdade de gênero no emprego vai muito além da eliminação da discriminação injusta. Esse movimento pressupõe que a ausência de paridade numérica entre homens e mulheres em qualquer ocupação constitui evidência prima facie de discriminação. Quando mulheres representam menos de cinquenta por cento dos engenheiros, físicos ou executivos corporativos, ativistas concluem automaticamente que barreiras discriminatórias devem existir.

Essa pressuposição ignora uma possibilidade óbvia: a de que homens e mulheres, em média, têm diferentes interesses, preferências e aptidões, e que essas diferenças são parcialmente biológicas, não inteiramente resultado da socialização. Décadas de pesquisa em psicologia e neurociência documentaram diferenças consistentes entre os sexos em vários domínios — agressividade, interesse em coisas versus pessoas, propensão ao risco, habilidades espaciais versus verbais, e assim por diante.

Essas diferenças são estatísticas - isto é, descrevem distribuições sobrepostas com variação considerável dentro de cada sexo. Mulheres individuais podem ser mais agressivas ou mais orientadas a coisas do que homens individuais. Porém, diferenças nas médias e, particularmente, nos extremos das distribuições são suficientes para explicar grande parte da segregação ocupacional observada, sem necessidade de postular discriminação.

Stove oferece um exemplo concreto: em sua própria universidade, administradores proclamaram a meta de aumentar a proporção de mulheres entre os professores recém-contratados. Subsequentemente, relataram com satisfação que essa proporção havia duplicado. Stove investigou e descobriu que os números eram fictícios - nenhum aumento real havia ocorrido. Quando confrontados, os administradores discretamente retiraram suas afirmações.

Esse incidente ilustra um fenômeno mais amplo: a pressão política para demonstrar “progresso” em igualdade de gênero frequentemente leva à desonestidade estatística, a padrões duplos na contratação (em que candidatas mulheres recebem preferência sobre candidatos homens igualmente ou mais qualificados) e ao ressentimento entre aqueles que percebem o sistema como injusto. O resultado líquido não é justiça, mas a substituição de uma forma de discriminação por outra.

Stove também observa um paradoxo cruel: políticas de ação afirmativa prejudicam precisamente aquelas mulheres que conseguiram sucesso por mérito próprio. Quando uma mulher competente é promovida, colegas passam a suspeitar que a promoção resultou de preferência de gênero, e não de qualificações superiores. Essa suspeita degrada realizações genuínas e perpetua estereótipos de que mulheres precisam de assistência especial para competir.

A posição de Stove sobre igualdade de gênero é, portanto, qualificada: ele apoia a eliminação de barreiras artificiais, mas rejeita a engenharia social destinada a produzir igualdade de resultados. Reconhece que algumas diferenças observadas entre homens e mulheres no mercado de trabalho refletem discriminação injusta, mas argumenta que muitas refletem escolhas livres, baseadas em preferências genuínas. Tentativas de forçar a paridade numérica violam a liberdade individual e produzem injustiças próprias.

A visão de Stove sobre políticas de inclusão de gênero as categoriza, portanto, como distorções ideológicas enraizadas no igualitarismo. Essas políticas presumem que a igualdade de resultados é um bem supremo e que desvios dessa igualdade devem ser corrigidos coercitivamente. Essa presunção ignora diferenças biológicas reais, suprime a discussão honesta mediante intimidação política e produz consequências contraproducentes.

O ensaio Righting Wrongs examina uma questão relacionada: justiça corretiva e reparações por injustiças históricas. Movimentos exigindo compensação por escravidão, colonização, discriminação e outras injustiças passadas tornaram-se cada vez mais proeminentes nas últimas décadas. Stove reconhece que muitas injustiças reais foram cometidas, mas questiona tanto a viabilidade quanto a justiça de reparações na escala que os ativistas demandam.

O critério fundamental de Stove para avaliar demandas por justiça corretiva é temporal: quanto tempo decorreu desde a injustiça original? Quando a vítima direta da injustiça ainda está viva e pode ser identificada, e quando o perpetrador também está vivo e pode ser identificado, a justiça corretiva é relativamente simples. O perpetrador deve compensar a vítima. Quando a vítima está morta, mas seus filhos ou herdeiros diretos podem ser identificados, e o perpetrador está morto, mas sua propriedade ainda existe, a compensação aos herdeiros pode ser justificada.

Entretanto, quando várias gerações se passaram, tanto vítimas quanto perpetradores originais estão mortos há muito tempo, e as relações causais tornaram-se imensamente complexas, as demandas por reparações tornam-se problemáticas. Considere a escravidão nos Estados Unidos, abolida há mais de 150 anos. Nenhum escravo sobrevivente existe. Nenhum proprietário de escravos sobrevivente existe. Os afro-americanos atuais são descendentes de escravos, mas também de pessoas livres e, em muitos casos, de proprietários de escravos. De forma semelhante, os americanos brancos atuais incluem descendentes de proprietários de escravos, mas também milhões cujos ancestrais chegaram após a abolição ou que nunca possuíram escravos.

Como determinar quem deve receber compensação e quem deve pagar? Tributar todos os americanos brancos para compensar todos os afro-americanos ignora essas complexidades e impõe custos a indivíduos inocentes de qualquer envolvimento na escravidão. Tal esquema viola um princípio fundamental de justiça: a responsabilidade deve ser individual, não coletiva. Ninguém é culpado pelos pecados de ancestrais remotos.

Stove identifica outro problema: a impossibilidade de calcular uma compensação apropriada. Quanto vale o sofrimento de escravos que viveram há seis ou sete gerações? Como contabilizar os benefícios que descendentes de escravos receberam por viver nos Estados Unidos em vez da África? (Expectativa de vida, renda per capita e praticamente todas as métricas de bem-estar são dramaticamente superiores nos EUA). Esses cálculos não são apenas difíceis; são impossíveis de realizar de maneira não arbitrária.

Stove também nota que as demandas por reparações históricas são seletivas de maneiras reveladoras. Descendentes de irlandeses que sofreram sob domínio britânico não exigem reparações da Grã-Bretanha. Descendentes de povos eslavos escravizados pelos otomanos não exigem reparações da Turquia. Descendentes de europeus escravizados por piratas berberes não exigem reparações do Norte da África. Essa seletividade sugere que as demandas por reparações são motivadas menos por princípios consistentes de justiça do que por oportunismo político.

O critério de Stove para distinguir correções legítimas de demandas excessivas pode ser resumido: correções são legítimas quando vítimas e perpetradores identificáveis ainda vivem, quando o dano pode ser quantificado razoavelmente e quando a compensação não impõe custos a inocentes. Demandas são excessivas quando se baseiam em injustiças remotas, quando a responsabilidade é atribuída coletivamente, quando os cálculos de compensação são arbitrários e quando o efeito é a transferência de riqueza de pessoas inocentes para pessoas que nunca sofreram o dano original.

A rejeição de Stove às reparações em larga escala não deriva de indiferença ao sofrimento histórico. Deriva do reconhecimento de que a justiça genuína requer discriminação cuidadosa entre casos individuais e de que programas de reparações em massa inevitavelmente tratam injustamente muitos indivíduos. Deriva também da observação prática de que reivindicações históricas de injustiça, uma vez legitimadas, nunca terminam. Cada grupo pode identificar injustiças sofridas por seus ancestrais; aceitar o princípio de que todas merecem compensação é receita para conflito interminável.

O título Reclaiming the Jungle adquire significado pleno quando consideramos o ensaio final, Why You Should Be a Conservative. A selva representa não apenas caos ou barbárie, mas a regressão da ordem civilizacional para um estado pré-civilizado de conflito hobbesiano - a guerra de todos contra todos. As ideologias igualitárias, ao minarem hierarquias tradicionais, instituições históricas e verdades biológicas inconvenientes, aceleram essa regressão. Reclamar a selva significa, portanto, restaurar princípios conservadores que podem deter e reverter esse declínio.

Stove apresenta dois argumentos principais para o conservadorismo. O primeiro é o argumento de Burke: ações humanas invariavelmente têm consequências não intencionadas, e inovações para pior sempre superam numericamente as inovações para melhor. As sociedades são sistemas de complexidade imensa. Reformas sociais em larga escala necessariamente perturbam relações que não são totalmente compreendidas. Os resultados são imprevisíveis e, dada a assimetria entre maneiras de piorar as coisas e maneiras de melhorá-las, provavelmente serão negativos.

Esse argumento tem força acumulativa derivada de séculos de experiência. Cada geração de reformadores prometeu que suas inovações produziriam utopia; cada geração descobriu que elas produziram consequências imprevistas e indesejadas. Leis dos Pobres destinadas a aliviar a pobreza a agravaram. Redistribuições de terras destinadas a ajudar camponeses causaram fomes. Educação universal destinada a elevar as massas diluiu padrões. Ação afirmativa destinada a ajudar minorias estigmatizou seus beneficiários.

O segundo argumento é frequentemente negligenciado: nem todo mal deve ou pode ser removido. Dessa premissa aparentemente simples, Stove extrai consequências profundas. Do fato de X ser moralmente errado, não se segue que X deve ser eliminado. X pode ser errado, todavia todas as alternativas a X podem ser igualmente erradas ou piores. Tentativas de remover X podem ser mais erradas que o próprio X. As alternativas a X, embora não erradas em si mesmas, podem inevitavelmente ter efeitos tão errados quanto X ou piores.

Esse argumento destrói grande parte da retórica reformista. Reformadores identificam algum mal - pobreza, desigualdade, discriminação - e exigem sua eliminação imediata. Presumem que, porque X é um mal, deve ser possível eliminá-lo mediante vontade política suficiente. Conservadores respondem que muitos males são necessários - isto é, suas alternativas são igualmente ruins ou piores - ou que tentativas de eliminá-los causarão males ainda maiores.

Considere a desigualdade de riqueza. É um mal que alguns sejam ricos enquanto outros são pobres? Em certo sentido abstrato, talvez sim. Segue-se que deveríamos redistribuir a riqueza até alcançar igualdade? Não, porque a redistribuição forçada destrói incentivos para criar riqueza, reduz a produtividade e eventualmente empobrece todos. A desigualdade, embora lamentável, é o preço necessário para a prosperidade geral.

Ou considere a hierarquia no emprego. É um mal que alguns ocupem posições de autoridade enquanto outros ocupem posições subordinadas? Talvez, em algum sentido abstrato. Segue-se que deveríamos eliminar hierarquias e tomar todas as decisões democraticamente? Não, porque organizações complexas requerem autoridade centralizada para funcionar eficientemente. Hierarquias, embora envolvam desigualdade de poder, são necessárias para a coordenação.

A visão geral de Stove sobre o projeto iluminista que emerge desses ensaios finais não é simples rejeição, nem tentativa de reforma, mas defesa seletiva de valores tradicionais contra o excesso iluminista. Stove não rejeita todos os valores iluministas. Valoriza a razão, a ciência e a liberdade individual. Rejeita o otimismo iluminista sobre a perfectibilidade humana, a elevação da igualdade a bem supremo e a confiança de que a reforma social pode eliminar todos os males.

O conservadorismo de Stove é fundamentalmente pessimista quanto às possibilidades humanas. Reconhece que o progresso ocorre, porém é lento, frágil e reversível. Reconhece que males existem, porém muitos são inerentes à condição humana e resistem à solução. Reconhece que reformas são às vezes necessárias, porém devem ser graduais, locais e testadas cuidadosamente antes da implementação em larga escala.

O título Reclaiming the Jungle sugere que a civilização ocidental já regrediu significativamente sob a influência de ideologias igualitárias. Padrões educacionais declinaram. A cultura elevada tornou-se inacessível ou desprezada. O discurso público tornou-se polarizado e irracional. Instituições tradicionais - família, igreja, comunidade - enfraqueceram. A tarefa conservadora não é meramente preservar o que resta, mas recuperar território perdido.





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