Contra as Modas do Pensamento: David Stove e o Antirracionalismo Moderno
O livro On
Enlightenment, de David Stove, foi publicado postumamente, em 2003, sete
anos após a morte do autor, ocorrida em 1994. A obra reúne uma coletânea de
ensaios, artigos e palestras escritos ao longo das décadas de 1980 e início dos
anos 1990, período em que Stove já havia se tornado uma figura marginal e
combativa no meio acadêmico australiano. O volume foi organizado por James
Franklin, colega e interlocutor intelectual de Stove, com o objetivo explícito
de preservar e sistematizar sua crítica ao irracionalismo moderno. O contexto
imediato da publicação é o auge da influência do pós-modernismo, do
construtivismo radical e da chamada “French theory” nas universidades
anglófonas. Stove via esse cenário como uma traição aos ideais centrais do
Iluminismo: razão, verdade objetiva e realismo científico.
Parte I - "So You Think You're an Egalitarian?"
A primeira parte de On
Enlightenment constitui uma ofensiva intelectual contra o igualitarismo
moderno, e sua estrutura tripartite revela uma estratégia argumentativa
cuidadosamente planejada. O ensaio inicial, Did Babeuf Deserve the
Guillotine?, estabelece uma conexão causal direta entre ideias igualitárias
radicais e as consequências sangrentas da Revolução Francesa. François Babeuf,
que adotou o nome “Gracchus” em homenagem aos reformadores romanos, liderou a
Conspiração dos Iguais em 1796, sendo posteriormente executado. Para Stove, a
questão titular não solicita um julgamento moral abstrato sobre se Babeuf
merecia morrer, mas interroga se o igualitarismo radical necessariamente conduz
à violência, à destruição e à tirania.
A análise de
Stove demonstra que a Revolução Francesa, longe de representar mero acidente
histórico ou desvio da nobre busca pela igualdade, exemplifica a consequência
inevitável quando ideias igualitárias são implementadas na prática. O filósofo
australiano recusa categoricamente a interpretação iluminista padrão, segundo a
qual a violência revolucionária teria sido um excesso lamentável ou uma traição
aos ideais originais. Ao contrário, argumenta que o Terror, os massacres de
setembro, a guilhotina funcionando incessantemente e a destruição sistemática
da cultura aristocrática e eclesiástica foram manifestações lógicas do
compromisso com a igualdade universal.
A relação
entre igualitarismo e violência, na perspectiva stoveana, não é meramente
contingente ou acidental. Deriva de duas características psicológicas
fundamentais do pensamento igualitário. A primeira: o igualitarismo alimenta-se
de inveja, vaidade e ambição. Essas paixões, embora não universais, são
suficientemente difundidas e intensas para mobilizar massas. A segunda
característica, frequentemente negligenciada: o igualitarismo nutre-se de sede
de sangue. Stove observa que militantes igualitários como Marx, Bakunin e
Lenin, embora relativamente livres de inveja pessoal, demonstravam apetite
extraordinário por derramamento de sangue alheio.
A evidência
dessa sede de sangue manifesta-se em um experimento mental que Stove propõe aos
leitores igualitários. Tente formar uma imagem mental de um futuro feliz em que
todos sejam iguais. Nada vem à mente. Agora tente visualizar a derrubada dos
privilégios necessária para alcançar esse futuro. Imediatamente surgem imagens
vívidas de sofrimento infligido aos defensores da ordem estabelecida -
policiais, soldados, chefes de Estado, sacerdotes. O elemento invariável nessas
imagens é sempre o mesmo: violência, destruição, morte.
Essa conexão psicológica entre igualitarismo e violência explica um fenômeno
histórico desconcertante: o progresso do igualitarismo nos últimos duzentos
anos tem sido progresso através de oceanos cada vez mais profundos de sangue. A
França em 1789 e 1871, a Rússia em 1917, a China em 1948, o Vietnã do Sul em
1968, o Camboja em 1976 - cada episódio superou o anterior em carnificina. A
quantidade de sangue derramado por governos igualitários no século XX eclipsa
totalmente todo o sangue derramado pela “reação” clerical, aristocrática ou
capitalista ao longo da história.
Stove rejeita veementemente a hipótese de que essa correlação seja acidental. O
igualitarismo radical, quando confrontado com a realidade de que os seres
humanos são inerentemente desiguais em talentos, capacidades, energia e
virtude, deve necessariamente recorrer à coerção violenta para impor uma
igualdade artificial. Como as desigualdades naturais se reafirmam
continuamente, a coerção precisa ser perpétua e escalatória. O resultado
inevitável é o Estado totalitário que Lenin, Stalin, Mao e Pol Pot
estabeleceram - Estados dedicados à tarefa impossível de suprimir as diferenças
naturais entre os seres humanos mediante força ilimitada.
O segundo
ensaio, A Promise Kept by Accident, examina outra dimensão crucial do
pensamento igualitário: sua relação com a promessa iluminista de progresso
material. Os pensadores do Iluminismo prometeram que a aplicação da razão, o
avanço da ciência e a reforma social conduziriam à eliminação de males
ancestrais — fome, doença, trabalho brutal, pobreza. O título provocativo de
Stove sugere que, na medida em que essas promessas foram cumpridas, o
cumprimento ocorreu por acidente, não como resultado direto das ideias ou
políticas iluministas.
O argumento
desenvolve-se em duas etapas. Na primeira, Stove demonstra que até 1850, ou
mesmo 1900, havia ocorrido progresso mínimo na cura de doenças, na redução do
fardo laboral humano ou no aumento da produção alimentar. A expectativa de vida
permanecia baixa, a maioria das pessoas trabalhava longas horas em condições
brutais, e fomes periódicas continuavam dizimando populações. Essas realidades
persistiram apesar de séculos de “progresso” iluminista, da disseminação da
educação, de avanços científicos consideráveis e de reformas políticas.
Na segunda
etapa, quando finalmente ocorreu progresso material dramático, esse progresso
resultou de inovações tecnológicas específicas - principalmente a eletricidade
e o motor a combustão - que criaram riqueza em escala anteriormente
inimaginável. Essas inovações não foram produtos de planejamento social
igualitário ou de reformas distributivas. Foram fruto do trabalho de indivíduos
excepcionalmente talentosos em sociedades que, embora longe de igualitárias,
lhes proporcionavam o lazer, a tranquilidade e o acesso ao conhecimento
acumulado necessários para descobertas revolucionárias.
O conceito
de “promessa cumprida por acidente” encerra uma ironia devastadora. O
Iluminismo prometeu que a razão, a ciência e a reforma social melhorariam a
condição humana. De fato, houve melhoria dramática - porém essa melhoria não
resultou das ideias igualitárias centrais ao projeto iluminista. Resultou de
inovações produzidas por indivíduos excepcionais operando em sociedades
hierárquicas e desiguais. Em outras palavras, o progresso material ocorreu não
por causa do igualitarismo iluminista, mas apesar dele.
Ainda mais irônico: as políticas redistributivas favorecidas pelos
igualitários, longe de acelerar o progresso, retardaram-no. A tributação
progressiva que destruiu grandes bibliotecas privadas, a expansão do Estado de
bem-estar que desviou recursos da criação de riqueza para o consumo, e as
políticas educacionais igualitárias que diluíram padrões acadêmicos — todas
essas medidas prejudicaram precisamente as condições que tornam possível o
avanço cultural e tecnológico.
A relação
entre expectativas igualitárias e resultados práticos revela-se, portanto,
perversa. Os igualitários prometem uma utopia: uma sociedade em que todos terão
acesso igual à educação, à cultura e à prosperidade material. Na realidade,
políticas igualitárias destroem sistematicamente as condições necessárias para
que a cultura e a prosperidade existam. Destroem o lazer, a tranquilidade e o
acesso ao conhecimento de que a elite cultivada necessita. Destroem os
incentivos econômicos que estimulam a criação de riqueza. Destroem as
hierarquias naturais que permitem a transmissão de conhecimento de mestres para
discípulos.
O terceiro
ensaio, The Bateson Fact, or One in a Million, ataca diretamente os
pressupostos igualitários sobre a distribuição de talentos e características
humanas. William Bateson, eminente biólogo inglês, opôs-se ao “externalismo”
iluminista — a crença de que os caracteres humanos originam-se inteiramente em
circunstâncias externas. Bateson defendeu que as grandes descobertas
intelectuais resultam de dons individuais excepcionais, não de educação
privilegiada ou de circunstâncias ambientais favoráveis.
O fenômeno
estatístico que Stove denomina “Fato de Bateson” pode ser formulado da seguinte
maneira: os avanços significativos em qualquer campo do conhecimento humano são
produzidos por indivíduos extraordinariamente raros - literalmente um em um
milhão ou menos. Esses indivíduos não são apenas um pouco mais talentosos que a
média; são ordens de magnitude superiores. O exemplo citado por Stove é
devastadoramente claro: em 1696, o matemático suíço Johann Bernoulli publicou por
toda a Europa uma solicitação de soluções para dois problemas matemáticos que
não conseguira resolver. Concedeu inicialmente seis meses, depois estendeu o
prazo para doze meses a pedido de Leibniz. Newton resolveu ambos os problemas
em vinte e quatro horas.
Esse exemplo não ilustra simplesmente uma diferença quantitativa de capacidade
— como se Newton fosse, digamos, dez por cento mais inteligente que Bernoulli
ou Leibniz. Ilustra uma diferença qualitativa tão radical que desafia
categorização. Bernoulli e Leibniz, eles próprios matemáticos de primeira
grandeza, não conseguiram resolver em meses o que Newton solucionou em horas. A
disparidade é tão vasta que sugere diferentes espécies de inteligência, não
meramente diferentes graus.
Fenômenos
similares repetem-se por toda a história da ciência e da cultura. Michael
Faraday, filho de ferreiro sem educação formal, revolucionou a física do
eletromagnetismo. Ramanujan, matemático indiano autodidata de origem humilde,
produziu resultados que deixaram os matemáticos de Cambridge perplexos.
Shakespeare, filho de comerciante de classe média de uma cidade provincial,
produziu obras dramatúrgicas sem paralelo antes ou depois. Esses casos não
podem ser explicados por circunstâncias externas favoráveis, educação superior
ou privilégio econômico.
O Fato de
Bateson demole a premissa igualitária fundamental: a de que todos os seres
humanos possuem, exceto por diferenças de educação e ambiente, capacidades
intelectuais essencialmente iguais. Essa premissa é empiricamente falsa. A
distribuição de talentos intelectuais na população humana não é uniforme, nem
mesmo aproximadamente uniforme. É extremamente assimétrica, com um pequeno
número de indivíduos possuindo capacidades imensamente superiores às da vasta
maioria.
Stove
acrescenta uma observação igualmente fatal para o igualitarismo: a maioria das
pessoas carece não apenas da capacidade para contribuições intelectuais
significativas, mas também do desejo de fazê-lo. Para a maioria dos seres
humanos, sentar-se quietamente sozinho por horas pensando sobre questões
difíceis nas quais não possuem interesse pessoal direto é uma perspectiva
purgatorial. Barulho, companhia, ocupação conjunta, as excitações da guerra, do
poder, do dinheiro, do sexo ou do esporte - essas são as coisas que constituem
a ideia de tempo bem gasto para a maioria das pessoas.
Essa dupla
constatação — que a maioria das pessoas não pode ser pensadora e não quer ser
pensadora — torna ridícula a visão marxista de que, na sociedade comunista
futura, todos serão pensadores, artistas, cidadãos e trabalhadores
simultaneamente. A cultura intelectual sempre foi e sempre será produzida por
uma minoria ínfima. Políticas igualitárias que visam universalizar o acesso à
cultura superior não democratizam a cultura; simplesmente a destroem ao
eliminar as condições necessárias para sua existência.
O título
provocativo So You Think You’re an Egalitarian? sintetiza o objetivo
estratégico dos três ensaios. Stove não está meramente refutando o
igualitarismo como doutrina filosófica equivocada. Está expondo contradições
fundamentais entre o que os igualitários professam acreditar e o que devem
logicamente aceitar se levarem suas crenças às conclusões lógicas.
O título
provocativo So You Think You’re an Egalitarian? sintetiza o objetivo
estratégico dos três ensaios. Stove não está meramente refutando o
igualitarismo como doutrina filosófica equivocada. Está expondo contradições
fundamentais entre o que os igualitários professam acreditar e o que devem
logicamente aceitar se levarem suas crenças às conclusões lógicas.
- Primeira contradição: igualitários proclamam
devotamento à liberdade e aos direitos humanos, todavia o igualitarismo
historicamente produziu os regimes mais opressivos e sanguinários que o
mundo já conheceu. Segundo a lógica igualitária, essa conexão não pode ser
acidental. Se o privilégio é um mal que deve ser eliminado, e se os seres
humanos naturalmente resistem à eliminação forçada de seus privilégios,
então a violência massiva torna-se não apenas provável, mas necessária.
Igualitários que recuam horrorizados diante da violência revolucionária
não compreenderam as implicações de suas próprias convicções.
- Segunda contradição: igualitários afirmam valorizar
a cultura, a educação e o progresso científico. Entretanto, essas coisas
requerem precisamente as condições que o igualitarismo destrói — lazer,
tranquilidade, bibliotecas e, sobretudo, a existência de uma pequena elite
de indivíduos excepcionalmente dotados que dedicam suas vidas ao estudo. A
cultura sempre foi e sempre será monopólio da classe média — não dos muito
ricos nem dos muito pobres, mas daquela ampla faixa intermediária que
possui algumas vantagens sociais sem possuir todas. Políticas
redistributivas que visam eliminar essas vantagens eliminam
simultaneamente as condições para a cultura existir.
- Terceira contradição: igualitários insistem que todos
os seres humanos são essencialmente iguais e que diferenças observadas de
realização resultam de diferenças de oportunidade. O Fato de Bateson prova
que isso é falso. As grandes realizações humanas são produtos de indivíduos
“um em um milhão”, não de circunstâncias favoráveis. Qualquer pai de
múltiplos filhos sabe que crianças criadas sob condições praticamente
idênticas desenvolvem capacidades e personalidades radicalmente
diferentes. Negar essas diferenças naturais não é idealismo nobre; é
recusa em enfrentar realidades biológicas óbvias.
- Quarta contradição: igualitários prometem que a
eliminação do privilégio conduzirá à maior felicidade para o maior número.
Historicamente, o resultado tem sido o oposto. Sociedades que mais
energicamente perseguiram a igualdade — União Soviética, China maoísta,
Camboja de Pol Pot — produziram miséria em escala sem precedentes. Por
contraste, sociedades capitalistas desigualmente prósperas elevaram
padrões de vida de forma dramática para todas as classes, incluindo as
mais baixas.
A estratégia
retórica de Stove é, portanto, retórica-argumentativa no sentido mais profundo.
Ele não está simplesmente argumentando que o igualitarismo é falso; está
demonstrando que pessoas que se consideram igualitárias não compreenderam o que
estão endossando. Quando confrontadas com as implicações lógicas e as consequências
históricas de suas crenças professadas, a maioria recuaria horrorizada. O
título So You Think You’re an Egalitarian? funciona como desafio: você
realmente acredita que todos devem ser iguais? Então aceita a destruição da
cultura que isso implica? Aceita a violência massiva que isso requer? Aceita a
negação de diferenças biológicas óbvias que isso pressupõe?
A parte mais perturbadora da análise de Stove é sua demonstração de que o
igualitarismo, longe de enfraquecer após cada catástrofe histórica, emerge mais
forte e mais disseminado. A Revolução Francesa, apesar de seu Terror, inspirou
a Comuna de Paris. A Comuna, apesar de sua supressão sangrenta, inspirou os
bolcheviques. A União Soviética, apesar de suas dezenas de milhões de mortos,
inspirou Mao. O maoísmo, apesar de seus horrores, inspirou Pol Pot. E após Pol
Pot, o ardor igualitário no Ocidente não diminuiu; ao contrário,
intensificou-se.
Stove
identifica um fenômeno que Tocqueville observara um século antes: quanto mais a
igualdade é alimentada, menos ela é satisfeita. À medida que mais desigualdades
são removidas, as restantes tornam-se mais intoleráveis. Pequenas desigualdades
em épocas em que o privilégio praticamente desapareceu excitam mais indignação
do que desigualdades vastamente maiores provocavam em períodos anteriores. Essa
característica mórbida da paixão igualitária significa que ela nunca pode ser
saciada. Cada vitória simplesmente prepara o terreno para demandas mais
extremas.
Parte II – “Why the World is the Way It Is”
A segunda
parte de On Enlightenment, intitulada Why the World is the Way It Is,
representa uma investida ainda mais ambiciosa que a primeira. Se os ensaios
iniciais demoliram os fundamentos morais e empíricos do igualitarismo, esta
seção procura explicar por que padrões de desigualdade, privilégio e sofrimento
persistem ao longo da história humana - não como acidentes corrigíveis mediante
reforma social, mas como consequências inevitáveis de constrangimentos
biológicos e econômicos fundamentais.
O ensaio The
Malthus Check ocupa posição central nessa argumentação. Thomas Robert
Malthus publicou, em 1798, An Essay on the Principle of Population, obra
que revolucionou o pensamento social ao introduzir uma análise quantitativa
rigorosa das relações entre população e recursos. A tese malthusiana
fundamental é simples: a população tende a crescer geometricamente (2, 4, 8,
16...) enquanto a produção de alimentos cresce apenas aritmeticamente (2, 3, 4,
5...). O resultado inexorável é que a população sempre pressiona contra os
limites de subsistência, e qualquer aumento temporário na produção alimentar
simplesmente permite um crescimento populacional que rapidamente consome o
excedente.
Stove
utiliza essa tese para explicar um fenômeno que desconcertou gerações de
historiadores: por que, durante milênios, a vasta maioria da humanidade viveu à
beira da fome, trabalhando longas horas sob condições brutais, com expectativa
de vida baixa e sem esperança realista de melhoria? A resposta iluminista
padrão atribuía essa miséria a instituições opressivas - feudalismo, monarquia,
Igreja - que impediam o florescimento natural da humanidade. Elimine essas
instituições, dizia-se, e a prosperidade universal seguir-se-ia naturalmente.
Malthus
demonstrou que essa explicação era inadequada. Mesmo em sociedades sem reis,
padres ou capitalistas — mesmo entre povos primitivos vivendo em “estado de
natureza” - a miséria era universal. O problema não residia primariamente em
instituições políticas ou econômicas, mas em uma realidade biológica
fundamental: os seres humanos, como todos os organismos, reproduzem-se até
esgotar seus recursos disponíveis. O “freio malthusiano” - fome, doença, guerra
- opera perpetuamente para equilibrar a população com a capacidade produtiva.
Stove extrai
dessa análise consequências devastadoras para o pensamento igualitário. Se a
maioria da humanidade viveu historicamente na pobreza não por causa de
instituições opressivas, mas devido à pressão populacional inexorável, então a
redistribuição de riqueza dos privilegiados para os desprivilegiados não
resolverá o problema. Suponha que se confisque toda a riqueza dos ricos e a
distribua aos pobres. O resultado imediato pode ser uma melhoria material para
os pobres, mas essa melhoria permite aumento populacional que rapidamente
consome o ganho. Dentro de uma ou duas gerações, a população expandida
encontra-se novamente pressionando contra os limites de subsistência.
O padrão
histórico que Stove identifica é o seguinte: sempre que alguma inovação
tecnológica ou organizacional aumenta a produtividade - domesticação de
animais, invenção do arado, rotação de culturas, fertilizantes - o resultado
inicial é melhoria nas condições de vida. Porém, essa melhoria é transitória. A
população aumenta para consumir o excedente, e o novo equilíbrio estabelece-se
com uma população maior vivendo no mesmo nível miserável de subsistência que
prevalecia antes. O freio malthusiano não pode ser abolido mediante reforma
social; pode apenas ser temporariamente afrouxado até que o crescimento
populacional o restabeleça.
Essa análise
explica por que a desigualdade é característica permanente das sociedades
humanas, não uma anomalia corrigível. Em sociedades operando sob o freio
malthusiano - isto é, em qualquer sociedade pré-industrial - a vasta maioria
necessariamente vive ao nível de subsistência. Para que exista uma classe
ociosa com lazer suficiente para cultura, educação e refinamento, é necessário
que alguns sejam liberados da pressão imediata de produzir alimentos. Essa
liberação requer que outros trabalhem para produzi-los. A desigualdade não é
acidente ou injustiça; é condição necessária para que a civilização exista.
Stove não
está argumentando que toda desigualdade específica seja justificada ou
necessária. Está argumentando que alguma desigualdade é inevitável enquanto a
sociedade opera sob constrangimentos malthusianos. Os reformadores igualitários
que imaginam poder eliminar todas as desigualdades mediante redistribuição
compulsória estão, portanto, perseguindo uma quimera. Podem destruir as classes
privilegiadas existentes, como fizeram na Rússia e na China, mas não podem
eliminar a necessidade de que alguns tenham lazer enquanto outros trabalham, se
desejam que a civilização continue existindo.
O ensaio
seguinte, Population, Privilege, and Malthus’ Retreat, examina uma
questão ainda mais intrigante: por que as teorias malthusianas, apesar de sua
clareza lógica e de seu suporte empírico robusto, foram largamente abandonadas
no século XIX e permaneceram em descrédito intelectual até recentemente? A
resposta, segundo Stove, ilumina aspectos fundamentais da psicologia do
pensamento iluminista.
O recuo
malthusiano começou quase imediatamente após a publicação do Essay. Os
críticos atacaram Malthus de múltiplas direções. Os religiosos denunciaram-no
por sugerir que Deus criara um mundo onde o sofrimento era inevitável. Os
românticos denunciaram-no por sua frieza calculista e falta de simpatia pelos
pobres. Os radicais, especialmente William Godwin e seus seguidores,
denunciaram-no por fornecer justificativa intelectual para a opressão dos
pobres e a perpetuação do privilégio aristocrático.
Essas
críticas tinham força retórica considerável, embora fossem intelectualmente
desonestas. Malthus não argumentara que o sofrimento fosse desejável ou que
nada deveria ser feito para aliviá-lo. Argumentara simplesmente que certas
políticas - particularmente as Leis dos Pobres inglesas, que forneciam auxílio
governamental baseado no tamanho da família - agravavam o problema ao encorajar
a procriação entre aqueles menos capazes de sustentar filhos. Suas
recomendações incluíam a “restrição moral” (isto é, casamento tardio e
celibato) como alternativa humana aos freios positivos de fome e doença.
Entretanto, o que selou o destino intelectual de Malthus não foram esses
argumentos, mas um desenvolvimento histórico inesperado: a Revolução
Industrial. A partir de aproximadamente 1800 na Inglaterra, e progressivamente
em outros países, a produtividade começou a aumentar a taxas sem precedentes.
Mais importante ainda, esse aumento sustentou-se por décadas, depois por
séculos. A previsão malthusiana de que qualquer ganho de produtividade seria
rapidamente consumido pelo crescimento populacional mostrou-se falsa, pelo
menos temporariamente.
O resultado
foi descrédito intelectual total para Malthus. Os vitorianos interpretaram a
industrialização como prova de que o otimismo iluminista estava correto:
progresso tecnológico e reforma social poderiam, de fato, eliminar a miséria
humana. O fantasma malthusiano de uma população pressionando inexoravelmente
contra os recursos foi exorcizado. Uma nova era de abundância havia chegado, e
essa abundância poderia ser distribuída equitativamente mediante políticas
apropriadas.
Stove
identifica nesse recuo malthusiano consequências profundas para o pensamento
iluminista sobre progresso social. Com Malthus refutado, todas as barreiras
intelectuais à engenharia social ambiciosa evaporaram. Se pobreza e
desigualdade não eram consequências inevitáveis de constrangimentos biológicos
e econômicos, então deviam resultar de arranjos sociais defeituosos. E, se
resultavam de arranjos sociais defeituosos, podiam ser eliminados mediante
reestruturação social suficientemente radical.
Essa
conclusão alimentou todos os movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX.
Socialistas, comunistas e reformadores de diversos tipos basearam seus
programas na premissa de que a produtividade industrial moderna havia
transcendido o freio malthusiano, tornando possível, pela primeira vez na
história, a prosperidade universal mediante distribuição equitativa. A
Revolução Industrial não apenas fornecera os meios técnicos para a abundância,
como também removera a última desculpa intelectual para tolerar desigualdade e
privilégio.
O problema,
como Stove observa com sua perspicácia característica, é que o recuo
malthusiano foi prematuro. A Revolução Industrial de fato suspendeu
temporariamente o freio malthusiano em alguns países, permitindo aumentos
simultâneos de população e padrão de vida. Porém, esse fenômeno limitou-se
geograficamente e temporalmente. Vastas regiões do mundo - África, Ásia,
América Latina - permaneceram firmemente sob controle malthusiano durante todo
o século XX. Mesmo nos países industrializados, a suspensão do freio dependeu
de circunstâncias especiais: acesso a recursos coloniais, explosão única de
inovações tecnológicas e, crucialmente, redução voluntária das taxas de
natalidade.
Quando
países em desenvolvimento tentaram replicar o modelo ocidental de
industrialização sem simultânea redução da fertilidade, os resultados
confirmaram Malthus de forma dramática. A população explodiu, consumindo os
ganhos de produtividade. Auxílio estrangeiro e programas de redistribuição,
longe de aliviar a pobreza, frequentemente a agravaram ao remover incentivos
para o controle populacional. O “segredo diabólico” que Malthus revelara - que
benevolência sem sabedoria pode aumentar o sofrimento total - provou-se
verdadeiro repetidamente.
O ensaio The
Diabolical Place: A Secret of the Enlightenment fornece o título para esta
seção e merece atenção especial. Stove argumenta que há conhecimento que os
pensadores iluministas possuíam, mas sistematicamente suprimiram ou minimizaram
porque contradizia suas premissas fundamentais. Esse conhecimento constitui
“segredo” não no sentido de ser desconhecido, mas no sentido de ser
deliberadamente não discutido ou obscurecido.
O segredo
diabólico é o seguinte: existem lugares onde seres humanos vivem em condições
tão miseráveis que sua existência continuada representa provavelmente uma soma
negativa de felicidade. Stove chama esses lugares de “diabólicos” porque sua
existência coloca um problema insolúvel para o utilitarismo e para o otimismo
iluminista sobre o progresso. Se o objetivo moral supremo é maximizar a
felicidade, e se existem populações cuja vida contém mais sofrimento que
prazer, então a conclusão lógica - conclusão que nenhum pensador humano pode
aceitar - seria que essas populações não deveriam existir.
Malthus, com
honestidade característica, reconheceu essa implicação. Observou que, em certas
condições de pobreza extrema, “a natureza espalha a mesa para número limitado
de convidados, e aqueles que chegam depois encontram-se sem lugar”. A
implicação é que políticas que encorajam a procriação nessas condições aumentam
o sofrimento total ao ampliar o número de vidas miseráveis.
Os
pensadores iluministas, particularmente os utilitaristas, confrontaram-se com
um dilema inescapável. Sua teoria moral implicava que aliviar o sofrimento era
o imperativo supremo. Porém, Malthus demonstrara que intervenções
bem-intencionadas para aliviar o sofrimento frequentemente perpetuavam ou
agravavam as condições que o produziam. As Leis dos Pobres inglesas, ao
fornecer auxílio proporcional ao número de filhos, incentivavam exatamente a
procriação entre os mais pobres, que menos podiam sustentar crianças. O
resultado era aumento no número total de vidas miseráveis.
O segredo
diabólico é, portanto, que a benevolência universal - o princípio moral central
do Iluminismo - pode ser contraproducente quando aplicada sem consideração por
suas consequências populacionais. Alimentar os famintos é imperativo moral,
certamente. Porém, se alimentar os famintos resulta em população maior que
enfrenta fomes ainda piores na geração seguinte, então a benevolência de curto
prazo produz mal de longo prazo.
Stove
considera esse segredo merecedor de exposição porque revela uma contradição no
coração do projeto iluminista. Os iluministas prometeram que razão e
benevolência transformariam o mundo, eliminando o sofrimento. Malthus
demonstrou que benevolência sem sabedoria - isto é, benevolência que ignora
realidades biológicas e econômicas - pode aumentar o sofrimento. Essa
demonstração deveria ter temperado o otimismo iluminista, introduzindo cautela
e humildade nas ambições de reforma social. Em vez disso, foi suprimida e
denunciada porque ameaçava a narrativa fundamental de progresso inevitável.
A supressão
teve consequências trágicas. Reformadores sociais dos séculos XIX e XX,
operando sob a premissa de que a benevolência universal sempre produz bons
resultados, implementaram políticas que frequentemente causaram desastres.
Programas de auxílio internacional que ignoraram dinâmicas populacionais,
coletivização agrícola que destruiu incentivos de produção, redistribuição de
terras que fragmentou propriedades abaixo de tamanho viável — todas essas
políticas foram motivadas por benevolência, e todas produziram fomes massivas e
sofrimento em escala sem precedentes.
O ensaio Glimpses
of Pioneer Life adota uma estratégia argumentativa diferente, porém
complementar. Em vez de análise teórica, Stove apresenta descrições factuais da
vida dos pioneiros americanos e australianos no século XIX. Essas descrições,
extraídas de diários, cartas e memórias, documentam condições de dureza quase
inimaginável: famílias vivendo em cabanas de terra ou madeira, trabalhando do
amanhecer ao anoitecer, enfrentando calor brutal ou frio extremo,
frequentemente sem médicos, escolas ou mesmo vizinhos a distância razoável.
O propósito
desse ensaio não é nostalgia ou celebração da vida pioneira. Stove não
romantiza o sofrimento. Seu objetivo é precisamente o contrário: contrastar
realidades históricas concretas com ideais iluministas abstratos. Os philosophes
do século XVIII imaginavam que seres humanos em “estado de natureza” viviam
vidas de liberdade e satisfação simples, corrompidas apenas pela civilização e
suas instituições opressoras. Rousseau fantasiava sobre “o nobre selvagem” que,
liberto das correntes da sociedade, floresceria em sua humanidade natural.
As
realidades da vida pioneira refutam essas fantasias de forma conclusiva. Os
pioneiros viviam tão próximos quanto possível do “estado de natureza” - sem
governo opressivo, sem hierarquias aristocráticas, sem luxos civilizacionais. O
resultado não foi florescimento da humanidade natural, mas luta brutal pela
sobrevivência. As taxas de mortalidade eram espantosas, particularmente entre
crianças e mulheres em idade reprodutiva. Doenças que seriam trivialmente
tratáveis em ambiente civilizado tornavam-se frequentemente fatais. O trabalho
físico consumia praticamente todas as horas de vigília, deixando pouco tempo ou
energia para atividades intelectuais ou artísticas.
Stove extrai
dessa evidência várias lições. Primeira: a civilização, com todas as suas
desigualdades e hierarquias, é pré-requisito para vidas que transcendem a mera
sobrevivência. Os pioneiros que prosperaram foram aqueles que rapidamente
estabeleceram instituições civilizacionais - escolas, igrejas, governo local,
conexões comerciais com mercados distantes. Aqueles que permaneceram isolados e
autossuficientes permaneceram miseráveis.
Segunda
lição: liberdade em sentido abstrato - ausência de restrições governamentais ou
sociais - não garante felicidade ou realização. Os pioneiros eram livres no
sentido de que nenhum senhor feudal ou burocracia estatal controlava suas
vidas. Todavia, estavam escravizados pelas necessidades implacáveis da
sobrevivência física. A liberdade significativa requer não apenas ausência de
coerção humana, mas também liberação das necessidades mais urgentes de
subsistência - liberação que somente uma civilização próspera pode fornecer.
Terceira
lição, talvez a mais importante: a vida humana “natural”, não corrompida pela
civilização, não é uma existência edênica de harmonia e satisfação. É luta
brutal, geralmente breve e frequentemente desesperada. As desigualdades e
hierarquias da civilização, longe de serem desvios lamentáveis de algum estado
natural superior, são mecanismos que tornaram possível escapar dessa luta. O
privilégio de alguns foi historicamente o preço necessário para que a
civilização existisse, e a civilização foi historicamente a única alternativa à
miséria universal.
O ensaio Altruism
and Darwinism aborda a tensão fundamental entre teoria evolutiva e
expectativas iluministas sobre comportamento humano. Darwin demonstrou que a
seleção natural favorece características que aumentam o sucesso reprodutivo
individual. Isso parece implicar que o comportamento egoísta - aquele que
maximiza a própria sobrevivência e reprodução à custa de outros - deveria
dominar. Todavia, o altruísmo genuíno - comportamento que beneficia outros à
custa de si mesmo - é amplamente observado tanto em humanos quanto em outros
animais sociais.
Os biólogos
evolutivos desenvolveram explicações sofisticadas para esse aparente paradoxo:
seleção de parentesco (ajudar parentes que compartilham genes), altruísmo
recíproco (cooperação que eventualmente beneficia ambas as partes), seleção de
grupo (grupos com membros altruístas superam grupos de egoístas). Stove
considera essas explicações parcialmente satisfatórias para o comportamento
animal, porém inadequadas para explicar o altruísmo humano na escala e forma
observadas.
O problema é
que os humanos demonstram altruísmo que não pode ser facilmente reduzido a
interesse próprio genético. Pessoas doam anonimamente para caridades que ajudam
estranhos distantes. Soldados sacrificam-se por camaradas não relacionados.
Filósofos morais desenvolvem e defendem princípios de justiça e benevolência
universal. Nenhuma dessas ações aumenta, de modo evidente, o sucesso
reprodutivo do agente.
Os
iluministas, particularmente os utilitaristas, assumiram que a benevolência
universal representa o ápice do desenvolvimento moral - a meta para a qual a
humanidade deveria aspirar. Esperavam que educação e progresso social
expandissem gradualmente o círculo de preocupação moral até abranger toda a
humanidade, talvez eventualmente todos os seres sencientes. Essa expectativa
apoiava-se na crença de que a razão, quando adequadamente cultivada,
naturalmente produz altruísmo expansivo.
Stove
argumenta que tanto a biologia darwiniana quanto a evidência histórica
contradizem essa expectativa. Do ponto de vista evolutivo, a benevolência
universal é mal adaptativa. Indivíduos que sacrificam recursos próprios para
beneficiar estranhos distantes reduzem seu sucesso reprodutivo em comparação
com indivíduos que concentram recursos em si mesmos e em seus parentes. A
seleção natural, portanto, deveria ter eliminado ou, ao menos, minimizado
tendências para a benevolência verdadeiramente universal.
A evidência histórica confirma essa previsão. Apesar de séculos de educação
moral e pregação religiosa sobre amor universal, os seres humanos permanecem
predominantemente tribais em suas lealdades e preocupações. Preocupamo-nos
intensamente com família e amigos, moderadamente com concidadãos, minimamente
com estrangeiros distantes. Essa hierarquia de preocupação não é um defeito
moral remediável por meio da educação; é característica profunda da psicologia
humana, provavelmente com raízes evolutivas.
A implicação
para o projeto iluminista é devastadora. Se a benevolência universal é
psicologicamente antinatural e evolutivamente mal adaptativa, então programas
baseados na suposição de que as pessoas podem e devem tratar todos os seres
humanos com igual consideração estão condenados ao fracasso. Pior: tentativas
de implementar tais programas coercitivamente - como no caso do comunismo -
produzem violência massiva precisamente porque violam tendências psicológicas
profundas.
Stove não
conclui que deveríamos abandonar toda preocupação moral por estranhos
distantes. Conclui que as expectativas devem ser realistas. Políticas sociais
que pressupõem altruísmo ilimitado produzirão desilusão e, frequentemente,
desastre. Políticas que reconhecem e trabalham dentro dos limites da natureza
humana têm muito maior probabilidade de sucesso.
O ensaio
final desta seção, Paralytic Epistemology, or the Soundless Scream,
aborda uma questão epistemológica fundamental: por que tantos intelectuais
abraçam teorias que são obviamente falsas e defendem políticas que são
previsivelmente desastrosas? O título evocativo sugere conhecimento que foi
paralisado - tornado inoperante - de modo que erros óbvios não podem ser
reconhecidos e gritos de protesto não podem ser ouvidos.
Stove identifica várias fontes dessa paralisia epistemológica. Primeira:
compromisso ideológico que substitui o julgamento empírico. Quando a teoria
torna-se parte da identidade do pensador, a evidência contrária deixa de ser
registrada. Marxistas confrontados com fracassos repetidos do socialismo
redefinem o socialismo ou culpam a implementação inadequada, nunca questionando
a teoria subjacente. Igualitários confrontados com evidências de diferenças
naturais em capacidades descartam-nas como produto de preconceito ou
“socialização”.
Segunda
fonte: o que podemos chamar de “horror ao vácuo intelectual”. Intelectuais
sentem necessidade profunda de teorias abrangentes que expliquem tudo. Teorias
simples e elegantes exercem atração quase irresistível, mesmo quando
empiricamente inadequadas. O marxismo reduziu toda a história à luta de
classes; o freudianismo reduziu todo comportamento a impulsos sexuais
reprimidos; o behaviorismo reduziu toda psicologia a condicionamento. Essas
reduções eram falsas, mas forneciam frameworks intelectualmente
satisfatórios que resistiram à refutação por décadas.
Terceira
fonte, particularmente relevante para o Iluminismo: confusão entre como
gostaríamos que o mundo fosse e como ele realmente é. Todos desejamos um mundo
onde ninguém sofre pobreza ou doença, onde todos têm oportunidades iguais, onde
conflitos são resolvidos racionalmente. Esse desejo legítimo pode facilmente
transformar-se em crença de que tais condições são alcançáveis mediante esforço
adequado. A evidência de que alguns sofrimentos são inevitáveis ou de que
certas desigualdades são necessárias torna-se psicologicamente intolerável e é,
portanto, rejeitada.
A conexão com o tema geral Why the World is the Way
It Is é direta. O
mundo é como é - caracterizado por desigualdade, privilégio e sofrimento - não
primariamente por causa de instituições defeituosas ou moral inadequada, mas
por causa de constrangimentos biológicos e econômicos fundamentais. O freio
malthusiano opera; os recursos são limitados; os seres humanos têm capacidades
desiguais; o altruísmo genuinamente universal é psicologicamente antinatural.
Reconhecer essas verdades requer uma epistemologia não paralisada - disposição
de aceitar realidades desagradáveis e abandonar teorias elegantes quando a
evidência as refuta. Os pensadores iluministas, apesar de sua retórica sobre
razão e empirismo, frequentemente demonstraram epistemologia profundamente
paralisada. Ignoraram ou minimizaram evidências que contradiziam sua fé no
progresso inevitável. Suprimiram verdades “diabólicas” que ameaçavam seu
otimismo. Confundiram aspirações morais com possibilidades práticas.
O “grito
silencioso” do título refere-se às vítimas dessa paralisia epistemológica - os
milhões que sofreram e morreram sob regimes que implementaram teorias que
qualquer observador não paralisado reconheceria como defeituosas. As fomes na
Ucrânia, na China e no Camboja; os gulags; os campos de reeducação; as
revoluções culturais - todas resultaram de teorias sobre a natureza humana e
sobre possibilidades sociais que eram empiricamente falsas. As vítimas
gritaram, literalmente gritaram, mas seus gritos não puderam ser ouvidos pelos
intelectuais cuja epistemologia estava paralisada pelo compromisso ideológico.
A segunda
parte de On Enlightenment constitui, portanto, um exercício em realismo
trágico. Não nega que o progresso seja possível ou desejável. Nega que o
progresso ilimitado seja alcançável mediante manipulação social. Não nega que o
sofrimento deva ser aliviado onde possível. Nega que todo sofrimento possa ser
eliminado mediante benevolência bem-intencionada. Não nega que a igualdade seja
um valor legítimo em certos contextos. Nega que a igualdade universal seja
possível ou mesmo desejável, dados os constrangimentos dentro dos quais a
sociedade humana opera.
A visão que
emerge é profundamente conservadora no sentido filosófico: cética em relação às
utopias, respeitosa das limitações humanas, reconhecedora de que escolhas
difíceis e trade-offs são inevitáveis. Essa visão não oferece a mesma
satisfação emocional que as promessas iluministas de perfectibilidade e
progresso infinito. Oferece, contudo, algo talvez mais valioso: compreensão
realista de por que o mundo é do jeito que é, e humildade adequada sobre nossa
capacidade de transformá-lo radicalmente por meio de redesenho social
ambicioso.
Parte III
- "Reclaiming the Jungle"
A terceira e
última parte de On Enlightenment, intitulada Reclaiming the Jungle,
representa o momento mais combativo e politicamente provocativo da obra. Se as
duas primeiras seções demoliram os fundamentos teóricos do igualitarismo e do
otimismo iluminista, esta confronta diretamente as aplicações práticas dessas
ideias na política contemporânea. O título sugere um movimento de reconquista —
a recuperação de território perdido para forças hostis. A selva, neste
contexto, não representa primitivismo ou barbárie externa, mas o estado caótico
ao qual a civilização ocidental está regredindo sob a influência de ideologias
igualitárias.
O ensaio The
Columbus Argument abre esta seção com um confronto direto aos movimentos
revisionistas que, desde a década de 1960, têm reinterpretado as explorações
europeias como genocídio e exploração. Stove reconhece que atrocidades foram
cometidas durante a colonização das Américas — doenças introduzidas dizimaram
populações nativas, o trabalho forçado causou sofrimento imenso, culturas
indígenas foram suprimidas ou destruídas. Essas realidades históricas são
inegáveis e lamentáveis.
Entretanto,
Stove argumenta que a narrativa contemporânea que apresenta Colombo como
criminoso e a colonização europeia como um mal absoluto é profundamente
desonesta. Essa narrativa ignora sistematicamente o contexto histórico e aplica
padrões morais modernos de forma anacrônica a eventos de cinco séculos atrás.
Pior ainda, pressupõe que os povos nativos das Américas viviam em harmonia
edênica antes da chegada europeia — pressuposição factualmente falsa.
O “argumento
de Colombo” que Stove apresenta pode ser formulado da seguinte maneira: as
civilizações pré-colombianas da América praticavam sacrifício humano em escala
industrial, guerra perpétua, escravidão, canibalismo e outras práticas que
qualquer pessoa civilizada reconheceria como abominações. Os astecas
sacrificavam dezenas de milhares de pessoas anualmente. Os maias praticavam
mutilação ritual. Os incas mantinham populações inteiras em servidão.
Comparadas a essas práticas, as atrocidades europeias, embora reais, não
representam um declínio moral, mas a continuação de padrões de violência que
eram universais na época.
Crucialmente,
os europeus trouxeram consigo não apenas doenças e armas, mas também
tecnologias, instituições e ideias que eventualmente elevaram o padrão de vida
nas Américas muito acima do que existia antes. A roda, o arado, animais
domésticos de tração, escrita alfabética, matemática avançada, medicina
científica — todas essas coisas eram desconhecidas nas Américas antes de 1492.
Com o tempo, os descendentes dos povos colonizados desfrutariam de expectativas
de vida, alfabetização e prosperidade material inimagináveis para seus
ancestrais pré-colombianos.
Stove não
argumenta que a colonização tenha sido um empreendimento puramente benevolente
ou que suas vítimas deveriam ser gratas. Ele se posiciona contra a falsificação
histórica que apresenta a colonização como um encontro entre santos indígenas e
demônios europeus. A realidade foi um encontro entre diferentes estágios de
desenvolvimento civilizacional, no qual o estágio mais avançado inevitavelmente
dominou o menos avançado - processo que ocorreu repetidamente ao longo da
história humana, em todas as direções geográficas.
A relação
com debates contemporâneos é óbvia e incendiária. Movimentos que exigem
reparações pela colonização, que derrubam estátuas de exploradores, que
redesignam feriados nacionais para enfatizar perspectivas indígenas - todos
esses fenômenos baseiam-se na narrativa que Stove rejeita. Para ele, esses
movimentos representam não justiça histórica, mas uma flagelação masoquista da
civilização ocidental, motivada por uma combinação tóxica de culpa iluminista e
ressentimento igualitário.
Stove prevê
que essa flagelação terá consequências desastrosas. Quando a sociedade perde
confiança na legitimidade de suas próprias tradições e instituições, torna-se
incapaz de se defender contra ameaças externas ou internas. Quando jovens são
ensinados a desprezar seus ancestrais como genocidas e opressores, perdem a
conexão com a herança cultural que os tornou possíveis. O resultado é o
niilismo cultural - a selva metafórica que precisa ser reclamada.
O ensaio Bombs
Away aborda uma questão aparentemente não relacionada: sob quais
circunstâncias o uso da força militar é justificado? A conexão com o tema geral
torna-se clara quando percebemos que Stove está defendendo o direito da
civilização de se proteger contra o barbarismo, seja externo ou interno. O
título irreverente sugere impaciência com escrúpulos morais excessivos sobre o
uso da força.
A posição de
Stove sobre intervenções militares é nuançada, porém fundamentalmente realista.
Ele rejeita tanto o pacifismo absoluto quanto o belicismo irresponsável.
Reconhece que a guerra é sempre um mal terrível, envolvendo sofrimento imenso e
consequências imprevisíveis. Entretanto, argumenta que recusar-se a usar a
força em qualquer circunstância equivale a render-se ao mal.
O framework
conservador de Stove fornece princípios claros para avaliar intervenções
militares. Primeira consideração: existe ameaça genuína à sobrevivência
ou à prosperidade da civilização? Guerras defensivas contra agressores são
obviamente justificadas. Segunda consideração: existem alternativas
realistas menos destrutivas? Diplomacia e sanções podem ser preferíveis quando
eficazes, porém frequentemente se mostram ineficazes contra regimes
totalitários ou movimentos fanáticos. Terceira consideração: qual é o
provável custo de não agir em comparação ao custo de agir?
Aplicando
esses princípios a casos históricos, Stove conclui que a Segunda Guerra Mundial
foi claramente justificada - o nazismo e o imperialismo japonês representavam
ameaças existenciais à civilização que não podiam ser contidas por meios
pacíficos. De modo semelhante, a Guerra Fria justificou a confrontação
sustentada contra o comunismo soviético, incluindo intervenções em conflitos
periféricos para conter a expansão comunista.
Casos mais
controversos revelam a complexidade do pensamento de Stove. Ele expressa
ambivalência em relação à Guerra do Vietnã - embora simpatizasse com o objetivo
de conter o comunismo, duvidava que a intervenção americana pudesse ter
sucesso, dado o terreno político e militar. De forma semelhante, sobre
intervenções humanitárias em países sem interesse estratégico direto, Stove
mostra-se cético. A benevolência universal, como demonstrou em ensaios
anteriores, frequentemente produz consequências contraproducentes.
O que Stove
rejeita categoricamente é o que podemos chamar de “excepcionalismo moral
ocidental” - a ideia de que países ocidentais devem ser julgados por padrões
morais mais rigorosos que os aplicados a outros países. Quando os Estados
Unidos usam força militar, são denunciados como imperialistas; quando a União
Soviética ou a China fazem o mesmo, isso é explicado como resposta legítima a
provocações ocidentais. Essa dupla moralidade não apenas é intelectualmente
desonesta, mas também estrategicamente suicida, pois desmoraliza as sociedades
ocidentais enquanto encoraja seus adversários.
A conexão
com o título Reclaiming the Jungle torna-se evidente. A civilização
requer disposição para defender-se contra aqueles que a ameaçam. Quando
intelectuais e líderes políticos minaram essa disposição mediante crítica
obsessiva ao próprio lado e relativismo moral em relação aos inimigos, prepararam
o terreno para a regressão civilizacional. A “selva” avança não principalmente
por meio de conquista militar externa, mas através do colapso interno da
vontade de resistir.
O ensaio Jobs
for the Girls confronta diretamente a questão da igualdade de gênero no
mercado de trabalho. Este é talvez o ensaio mais provocativo de todo o volume,
porque Stove questiona axiomas que são praticamente sagrados no discurso
público contemporâneo. O título coloquial já sinaliza seu ceticismo em relação
às campanhas para aumentar a representação feminina em áreas dominadas por
homens.
Stove começa
reconhecendo que a discriminação injusta contra mulheres existiu historicamente
e que sua eliminação representa um progresso moral genuíno. Mulheres não
deveriam ser impedidas de perseguir carreiras para as quais são qualificadas
apenas em razão de seu sexo. Leis que proíbem a discriminação baseada em gênero
são, portanto, justificadas.
Entretanto,
Stove argumenta que o movimento contemporâneo por igualdade de gênero no
emprego vai muito além da eliminação da discriminação injusta. Esse movimento
pressupõe que a ausência de paridade numérica entre homens e mulheres em
qualquer ocupação constitui evidência prima facie de discriminação. Quando
mulheres representam menos de cinquenta por cento dos engenheiros, físicos ou
executivos corporativos, ativistas concluem automaticamente que barreiras
discriminatórias devem existir.
Essa pressuposição ignora uma possibilidade óbvia: a de que homens e mulheres,
em média, têm diferentes interesses, preferências e aptidões, e que essas
diferenças são parcialmente biológicas, não inteiramente resultado da
socialização. Décadas de pesquisa em psicologia e neurociência documentaram
diferenças consistentes entre os sexos em vários domínios — agressividade,
interesse em coisas versus pessoas, propensão ao risco, habilidades espaciais
versus verbais, e assim por diante.
Essas
diferenças são estatísticas - isto é, descrevem distribuições sobrepostas com
variação considerável dentro de cada sexo. Mulheres individuais podem ser mais
agressivas ou mais orientadas a coisas do que homens individuais. Porém,
diferenças nas médias e, particularmente, nos extremos das distribuições são
suficientes para explicar grande parte da segregação ocupacional observada, sem
necessidade de postular discriminação.
Stove
oferece um exemplo concreto: em sua própria universidade, administradores
proclamaram a meta de aumentar a proporção de mulheres entre os professores
recém-contratados. Subsequentemente, relataram com satisfação que essa
proporção havia duplicado. Stove investigou e descobriu que os números eram
fictícios - nenhum aumento real havia ocorrido. Quando confrontados, os
administradores discretamente retiraram suas afirmações.
Esse
incidente ilustra um fenômeno mais amplo: a pressão política para demonstrar
“progresso” em igualdade de gênero frequentemente leva à desonestidade
estatística, a padrões duplos na contratação (em que candidatas mulheres
recebem preferência sobre candidatos homens igualmente ou mais qualificados) e
ao ressentimento entre aqueles que percebem o sistema como injusto. O resultado
líquido não é justiça, mas a substituição de uma forma de discriminação por
outra.
Stove também
observa um paradoxo cruel: políticas de ação afirmativa prejudicam precisamente
aquelas mulheres que conseguiram sucesso por mérito próprio. Quando uma mulher
competente é promovida, colegas passam a suspeitar que a promoção resultou de
preferência de gênero, e não de qualificações superiores. Essa suspeita degrada
realizações genuínas e perpetua estereótipos de que mulheres precisam de
assistência especial para competir.
A posição de
Stove sobre igualdade de gênero é, portanto, qualificada: ele apoia a
eliminação de barreiras artificiais, mas rejeita a engenharia social destinada
a produzir igualdade de resultados. Reconhece que algumas diferenças observadas
entre homens e mulheres no mercado de trabalho refletem discriminação injusta,
mas argumenta que muitas refletem escolhas livres, baseadas em preferências
genuínas. Tentativas de forçar a paridade numérica violam a liberdade
individual e produzem injustiças próprias.
A visão de
Stove sobre políticas de inclusão de gênero as categoriza, portanto, como
distorções ideológicas enraizadas no igualitarismo. Essas políticas presumem
que a igualdade de resultados é um bem supremo e que desvios dessa igualdade
devem ser corrigidos coercitivamente. Essa presunção ignora diferenças
biológicas reais, suprime a discussão honesta mediante intimidação política e
produz consequências contraproducentes.
O ensaio Righting
Wrongs examina uma questão relacionada: justiça corretiva e reparações por
injustiças históricas. Movimentos exigindo compensação por escravidão,
colonização, discriminação e outras injustiças passadas tornaram-se cada vez
mais proeminentes nas últimas décadas. Stove reconhece que muitas injustiças
reais foram cometidas, mas questiona tanto a viabilidade quanto a justiça de
reparações na escala que os ativistas demandam.
O critério
fundamental de Stove para avaliar demandas por justiça corretiva é temporal:
quanto tempo decorreu desde a injustiça original? Quando a vítima direta da
injustiça ainda está viva e pode ser identificada, e quando o perpetrador
também está vivo e pode ser identificado, a justiça corretiva é relativamente
simples. O perpetrador deve compensar a vítima. Quando a vítima está morta, mas
seus filhos ou herdeiros diretos podem ser identificados, e o perpetrador está
morto, mas sua propriedade ainda existe, a compensação aos herdeiros pode ser
justificada.
Entretanto,
quando várias gerações se passaram, tanto vítimas quanto perpetradores
originais estão mortos há muito tempo, e as relações causais tornaram-se
imensamente complexas, as demandas por reparações tornam-se problemáticas.
Considere a escravidão nos Estados Unidos, abolida há mais de 150 anos. Nenhum
escravo sobrevivente existe. Nenhum proprietário de escravos sobrevivente
existe. Os afro-americanos atuais são descendentes de escravos, mas também de
pessoas livres e, em muitos casos, de proprietários de escravos. De forma
semelhante, os americanos brancos atuais incluem descendentes de proprietários
de escravos, mas também milhões cujos ancestrais chegaram após a abolição ou
que nunca possuíram escravos.
Como
determinar quem deve receber compensação e quem deve pagar? Tributar todos os
americanos brancos para compensar todos os afro-americanos ignora essas
complexidades e impõe custos a indivíduos inocentes de qualquer envolvimento na
escravidão. Tal esquema viola um princípio fundamental de justiça: a
responsabilidade deve ser individual, não coletiva. Ninguém é culpado pelos
pecados de ancestrais remotos.
Stove
identifica outro problema: a impossibilidade de calcular uma compensação
apropriada. Quanto vale o sofrimento de escravos que viveram há seis ou sete
gerações? Como contabilizar os benefícios que descendentes de escravos
receberam por viver nos Estados Unidos em vez da África? (Expectativa de vida,
renda per capita e praticamente todas as métricas de bem-estar são
dramaticamente superiores nos EUA). Esses cálculos não são apenas difíceis; são
impossíveis de realizar de maneira não arbitrária.
Stove também
nota que as demandas por reparações históricas são seletivas de maneiras
reveladoras. Descendentes de irlandeses que sofreram sob domínio britânico não
exigem reparações da Grã-Bretanha. Descendentes de povos eslavos escravizados
pelos otomanos não exigem reparações da Turquia. Descendentes de europeus
escravizados por piratas berberes não exigem reparações do Norte da África.
Essa seletividade sugere que as demandas por reparações são motivadas menos por
princípios consistentes de justiça do que por oportunismo político.
O critério
de Stove para distinguir correções legítimas de demandas excessivas pode ser
resumido: correções são legítimas quando vítimas e perpetradores identificáveis
ainda vivem, quando o dano pode ser quantificado razoavelmente e quando a
compensação não impõe custos a inocentes. Demandas são excessivas quando se
baseiam em injustiças remotas, quando a responsabilidade é atribuída
coletivamente, quando os cálculos de compensação são arbitrários e quando o
efeito é a transferência de riqueza de pessoas inocentes para pessoas que nunca
sofreram o dano original.
A rejeição
de Stove às reparações em larga escala não deriva de indiferença ao sofrimento
histórico. Deriva do reconhecimento de que a justiça genuína requer
discriminação cuidadosa entre casos individuais e de que programas de
reparações em massa inevitavelmente tratam injustamente muitos indivíduos.
Deriva também da observação prática de que reivindicações históricas de
injustiça, uma vez legitimadas, nunca terminam. Cada grupo pode identificar
injustiças sofridas por seus ancestrais; aceitar o princípio de que todas
merecem compensação é receita para conflito interminável.
O título Reclaiming
the Jungle adquire significado pleno quando consideramos o ensaio final, Why
You Should Be a Conservative. A selva representa não apenas caos ou
barbárie, mas a regressão da ordem civilizacional para um estado pré-civilizado
de conflito hobbesiano - a guerra de todos contra todos. As ideologias
igualitárias, ao minarem hierarquias tradicionais, instituições históricas e
verdades biológicas inconvenientes, aceleram essa regressão. Reclamar a selva
significa, portanto, restaurar princípios conservadores que podem deter e
reverter esse declínio.
Stove
apresenta dois argumentos principais para o conservadorismo. O primeiro é o
argumento de Burke: ações humanas invariavelmente têm consequências não
intencionadas, e inovações para pior sempre superam numericamente as inovações
para melhor. As sociedades são sistemas de complexidade imensa. Reformas
sociais em larga escala necessariamente perturbam relações que não são
totalmente compreendidas. Os resultados são imprevisíveis e, dada a assimetria
entre maneiras de piorar as coisas e maneiras de melhorá-las, provavelmente
serão negativos.
Esse
argumento tem força acumulativa derivada de séculos de experiência. Cada
geração de reformadores prometeu que suas inovações produziriam utopia; cada
geração descobriu que elas produziram consequências imprevistas e indesejadas.
Leis dos Pobres destinadas a aliviar a pobreza a agravaram. Redistribuições de
terras destinadas a ajudar camponeses causaram fomes. Educação universal
destinada a elevar as massas diluiu padrões. Ação afirmativa destinada a ajudar
minorias estigmatizou seus beneficiários.
O segundo
argumento é frequentemente negligenciado: nem todo mal deve ou pode ser
removido. Dessa premissa aparentemente simples, Stove extrai consequências
profundas. Do fato de X ser moralmente errado, não se segue que X deve ser
eliminado. X pode ser errado, todavia todas as alternativas a X podem ser
igualmente erradas ou piores. Tentativas de remover X podem ser mais erradas
que o próprio X. As alternativas a X, embora não erradas em si mesmas, podem
inevitavelmente ter efeitos tão errados quanto X ou piores.
Esse
argumento destrói grande parte da retórica reformista. Reformadores identificam
algum mal - pobreza, desigualdade, discriminação - e exigem sua eliminação
imediata. Presumem que, porque X é um mal, deve ser possível eliminá-lo
mediante vontade política suficiente. Conservadores respondem que muitos males
são necessários - isto é, suas alternativas são igualmente ruins ou piores - ou
que tentativas de eliminá-los causarão males ainda maiores.
Considere a desigualdade de riqueza. É um mal que alguns sejam ricos enquanto
outros são pobres? Em certo sentido abstrato, talvez sim. Segue-se que
deveríamos redistribuir a riqueza até alcançar igualdade? Não, porque a
redistribuição forçada destrói incentivos para criar riqueza, reduz a
produtividade e eventualmente empobrece todos. A desigualdade, embora
lamentável, é o preço necessário para a prosperidade geral.
Ou considere
a hierarquia no emprego. É um mal que alguns ocupem posições de autoridade
enquanto outros ocupem posições subordinadas? Talvez, em algum sentido
abstrato. Segue-se que deveríamos eliminar hierarquias e tomar todas as
decisões democraticamente? Não, porque organizações complexas requerem
autoridade centralizada para funcionar eficientemente. Hierarquias, embora
envolvam desigualdade de poder, são necessárias para a coordenação.
A visão geral de Stove sobre o projeto iluminista que emerge desses ensaios
finais não é simples rejeição, nem tentativa de reforma, mas defesa seletiva de
valores tradicionais contra o excesso iluminista. Stove não rejeita todos os
valores iluministas. Valoriza a razão, a ciência e a liberdade individual.
Rejeita o otimismo iluminista sobre a perfectibilidade humana, a elevação da
igualdade a bem supremo e a confiança de que a reforma social pode eliminar
todos os males.
O
conservadorismo de Stove é fundamentalmente pessimista quanto às possibilidades
humanas. Reconhece que o progresso ocorre, porém é lento, frágil e reversível.
Reconhece que males existem, porém muitos são inerentes à condição humana e
resistem à solução. Reconhece que reformas são às vezes necessárias, porém
devem ser graduais, locais e testadas cuidadosamente antes da implementação em
larga escala.
O título Reclaiming the Jungle sugere que
a civilização ocidental já regrediu significativamente sob a influência de
ideologias igualitárias. Padrões educacionais declinaram. A cultura elevada
tornou-se inacessível ou desprezada. O discurso público tornou-se polarizado e
irracional. Instituições tradicionais - família, igreja, comunidade -
enfraqueceram. A tarefa conservadora não é meramente preservar o que resta, mas
recuperar território perdido.

Comentários
Postar um comentário