Peronismo e fé política: o mito da nação católica na Argentina moderna


                                                         



"O mito da nação católica postulava que a identidade argentina era, por essência, católica, e que qualquer elemento estranho era uma infiltração estrangeira." 



A Gênese da "Nação Católica"

Loris Zanatta, em Perón y el mito de la nación católica, propõe uma interpretação de longo fôlego sobre a cultura política argentina, na qual o peronismo aparece não como uma ruptura súbita, mas como a cristalização de um imaginário anterior. No centro dessa interpretação está o conceito de “mito da nação católica”, entendido não como uma simples constatação sociológica sobre práticas religiosas, mas como uma narrativa totalizante que oferece sentido, ordem e hierarquia à vida coletiva. Para Zanatta, esse mito opera como uma representação ideal da comunidade nacional, segundo a qual a Argentina seria, por essência histórica e vocação providencial, uma nação organicamente católica. Trata-se de uma visão que atribui à religião um papel fundador da identidade nacional, projetando sobre o passado uma unidade moral e espiritual que serviria de critério para julgar o presente e orientar o futuro. Antes do surgimento de Perón, essa narrativa já desempenhava um papel central no debate público, funcionando como referência para setores intelectuais, eclesiásticos e militares que viam na modernidade liberal uma ameaça à coesão social e à ordem moral.

A importância desse mito para a identidade argentina reside no fato de ele oferecer uma alternativa ao projeto liberal de nação, baseado no pluralismo, na cidadania jurídica e na neutralidade religiosa do Estado. No imaginário católico, a nação não é uma construção contratual entre indivíduos, mas uma comunidade histórica dotada de um destino comum, guiada por valores considerados transcendentes. Essa visão remonta ao século XIX, mas ganha força renovada no início do século XX, quando as transformações sociais, a imigração em massa e a urbanização acelerada parecem dissolver os referenciais tradicionais. Zanatta mostra que, nesse contexto, a ideia de uma Argentina essencialmente católica funciona como resposta à sensação de desagregação, prometendo restaurar uma harmonia perdida. O mito não descreve a realidade empírica do país, marcada por diversidade religiosa e práticas seculares, mas oferece um ideal normativo que pretende moldar essa realidade segundo um modelo considerado legítimo.

É nesse ponto que Zanatta introduz a distinção fundamental entre uma Argentina “de fato católica” e uma Argentina “miticamente católica”. A primeira remete ao grau efetivo de religiosidade da população, às práticas sacramentais, à observância dos preceitos e à influência real da Igreja na vida cotidiana. A segunda refere-se a uma construção discursiva que atribui ao catolicismo um papel identitário absoluto, independentemente da vivência concreta da fé. Para o autor, essa diferença é decisiva para compreender a estratégia política de Perón, pois o peronismo não se apoia necessariamente em uma sociedade profundamente praticante, mas em uma sociedade predisposta a aceitar o catolicismo como fundamento moral da comunidade nacional. O mito permite mobilizar a religião como linguagem política, mesmo quando a experiência religiosa individual é irregular ou fragmentada.

A Argentina miticamente católica funciona, portanto, como um recurso de legitimação. Ela autoriza a intervenção do Estado na vida social em nome de valores superiores e justifica a marginalização de correntes vistas como estranhas ao espírito nacional, como o liberalismo, o socialismo e o comunismo. Perón compreende esse potencial e o explora com habilidade, apropriando-se de um repertório simbólico já existente para construir sua própria narrativa de redenção nacional. Ao apresentar-se como defensor da justiça social e da harmonia entre classes, ele dialoga com a tradição do catolicismo social, reinterpretando-a em chave nacional-popular. A distinção proposta por Zanatta revela, assim, que o peronismo não cria o mito, mas o reinscreve em um novo contexto, adaptando-o às exigências de uma sociedade de massas.

A crise do liberalismo na década de 1930 desempenha um papel decisivo nesse processo. A quebra da ordem constitucional em 1930, a instabilidade política e os efeitos da crise econômica mundial abalam a confiança nas instituições liberais e no modelo agroexportador que sustentara o país até então. Para muitos atores, o liberalismo passa a ser associado ao individualismo, à fragmentação social e à perda de valores morais. Zanatta argumenta que essa crise abre espaço para o fortalecimento do imaginário católico na política argentina, na medida em que a Igreja se apresenta como depositária de uma tradição capaz de restaurar a ordem. O discurso católico oferece uma crítica abrangente da modernidade liberal, propondo uma visão orgânica da sociedade, baseada na colaboração entre corpos intermediários e na primazia do bem comum.

Nesse cenário, a Igreja intensifica sua presença no debate público, não apenas como instituição religiosa, mas como ator político interessado na redefinição do papel do Estado. A década de 1930 assiste à difusão de ideias corporativistas, inspiradas em experiências europeias e em encíclicas papais, que defendem uma reorganização da sociedade segundo critérios funcionais e hierárquicos. Zanatta mostra que essas ideias encontram eco em setores do Exército, que compartilham a preocupação com a unidade nacional e a disciplina social. A convergência entre crítica ao liberalismo e busca por um novo ordenamento favorece a aproximação entre militares e eclesiásticos, preparando o terreno para eventos posteriores.

O golpe militar de 1943 aparece, na leitura de Zanatta, como uma verdadeira incubadora dessas ideias. Longe de ser apenas uma intervenção circunstancial, ele expressa a maturação de um projeto que visa redefinir a identidade nacional a partir de valores católicos e nacionalistas. O novo regime promove uma política de reaproximação entre Estado e Igreja, restaurando privilégios, incentivando o ensino religioso e conferindo à moral católica um lugar central na vida pública. Esse período é marcado por um intenso intercâmbio entre oficiais do Exército e intelectuais católicos, que compartilham a convicção de que a Argentina precisa ser moralmente regenerada. O golpe funciona como laboratório institucional, no qual se experimentam formas de colaboração que mais tarde serão incorporadas pelo peronismo.

Zanatta enfatiza que essa união entre Exército e Igreja não se baseia apenas em interesses conjunturais, mas em uma visão comum da nação. Ambos concebem a Argentina como uma comunidade ameaçada por forças dissolventes, internas e externas, que precisam ser combatidas por meio de um Estado forte e orientado por valores morais claros. O imaginário da nação católica fornece a linguagem que permite articular essa visão, transformando-a em programa político. O regime de 1943, ao promover essa linguagem, contribui para sua difusão e legitimação, criando as condições para que Perón, então figura emergente, se aproprie dela com eficácia.

A afirmação de Zanatta de que a Igreja buscava uma “reconquista espiritual” da sociedade argentina por meio do Estado é central para entender essa dinâmica. Segundo o autor, a hierarquia eclesiástica percebia que a influência direta da religião na vida social havia diminuído ao longo das décadas anteriores, em razão da secularização e da pluralização cultural. Diante disso, a Igreja passa a ver o Estado como instrumento privilegiado para restaurar sua autoridade moral. Essa estratégia não implica a simples submissão da política à religião, mas uma parceria na qual o Estado assume a tarefa de promover valores considerados cristãos, enquanto a Igreja oferece legitimidade moral ao poder político.

Essa reconquista espiritual supõe uma concepção particular de laicidade, distinta daquela defendida pelo liberalismo. Em vez de separar rigidamente as esferas religiosa e política, ela propõe uma cooperação orientada para o bem comum, entendido à luz da doutrina católica. Zanatta argumenta que essa visão encontra terreno fértil na Argentina dos anos 1940, marcada por demandas de integração social e por um desejo de ordem. O peronismo herda esse projeto e o reconfigura, subordinando a Igreja ao Estado, mas mantendo muitos de seus pressupostos. A tensão entre colaboração e controle atravessa toda a relação entre peronismo e catolicismo, revelando os limites dessa aliança.

"Perón não inventou a doutrina social da Igreja, mas a transformou na coluna vertebral de sua ideologia política: a justiça social."

No quadro interpretativo trabalhado por Loris Zanatta e por outros historiadores da cultura política argentina, o debate público entre o final do século XIX e meados do século XX foi fortemente influenciado por um núcleo de intelectuais católicos que buscaram redefinir a identidade nacional, criticar o liberalismo e propor uma ordem social inspirada na doutrina da Igreja. Esses intelectuais não formaram um bloco homogêneo, mas compartilharam referências comuns, espaços institucionais e um vocabulário político-moral semelhante. Entre os mais relevantes, destacam-se:

Em primeiro lugar, Gustavo Franceschi, sacerdote e jornalista, figura central do catolicismo argentino do entreguerras. Como diretor da revista Criterio, Franceschi exerceu enorme influência na formação de uma intelligentsia católica que articulava religião, nacionalismo e crítica social. Ele defendia a ideia de uma Argentina organicamente católica, hostil ao individualismo liberal e aberta a soluções corporativas para a questão social. Sua escrita ajudou a difundir a noção de que a crise política era, antes de tudo, uma crise moral.

Outro nome fundamental é Julio Meinvielle, talvez o mais radical entre os intelectuais católicos do período. Sacerdote, teólogo e polemista, Meinvielle foi um dos principais ideólogos do nacionalismo católico argentino. Sua obra insistia na oposição entre a civilização cristã e a modernidade liberal, identificada com o racionalismo, o secularismo e o cosmopolitismo. Ele defendia uma visão teológica da história e via o Estado como instrumento necessário para restaurar a ordem cristã na sociedade. Sua influência foi particularmente forte em círculos militares e nacionalistas.

Também merece destaque César Pico, filósofo e ensaísta, ligado ao tomismo e ao pensamento católico integralista. Pico atuou como mediador entre a reflexão filosófica europeia e o debate argentino, enfatizando a crítica ao liberalismo político e à democracia representativa. Para ele, a nação era uma comunidade espiritual anterior ao Estado liberal, ideia que dialogava diretamente com o mito da nação católica analisado por Zanatta.

Outro intelectual relevante foi Tomás Casares, jurista e pensador católico que desempenhou papel importante na tentativa de conciliar direito, moral cristã e política. Casares defendia que o ordenamento jurídico deveria refletir valores éticos objetivos, enraizados na tradição católica. Sua atuação mostra como o catolicismo intelectual não se limitava à teologia ou ao ensaio cultural, mas penetrava o campo jurídico e institucional.

No campo da historiografia e do pensamento nacional, destaca-se Manuel Gálvez, escritor e ensaísta que, embora não fosse um pensador sistemático da teologia, contribuiu para a difusão de uma visão espiritualizada da nação argentina. Em seus textos, a Argentina aparece como portadora de uma missão histórica ligada ao catolicismo e à herança hispânica, em oposição ao liberalismo de inspiração anglo-saxã.

É importante mencionar ainda Atilio Dell’Oro Maini, intelectual e político católico que ocupou cargos públicos durante o regime de 1943. Ele foi um dos principais defensores da reaproximação entre Estado e Igreja, atuando diretamente na implementação de políticas educacionais e culturais inspiradas no ideário católico. Sua trajetória ilustra a passagem do pensamento católico do plano intelectual para a ação governamental.

Por fim, deve-se lembrar que muitos desses intelectuais atuaram de forma articulada em revistas, universidades, associações leigas e círculos militares, criando uma rede de produção e difusão de ideias. Publicações como Criterio e espaços como a Ação Católica funcionaram como plataformas fundamentais para a consolidação desse pensamento no debate público.


A Ascensão de Perón e a Aliança com a Igreja

Na interpretação desenvolvida por Loris Zanatta, Juan Domingo Perón demonstrou grande habilidade ao incorporar elementos centrais da Doutrina Social da Igreja em seu discurso político, valendo-se especialmente da encíclica Rerum Novarum como instrumento de legitimação moral e histórica de seu projeto de justiça social. Publicada em 1891, a encíclica oferecia uma crítica simultânea ao liberalismo econômico e ao socialismo revolucionário, defendendo a dignidade do trabalho, a função social da propriedade e a necessidade de harmonia entre as classes. Perón apropriou-se desse repertório doutrinário para apresentar suas políticas trabalhistas não como uma ruptura ideológica, mas como a tradução política de princípios cristãos universalmente válidos. Ao fazê-lo, o peronismo passou a ser apresentado como uma alternativa moralmente superior aos modelos concorrentes, capaz de responder à questão social sem recorrer ao individualismo liberal nem ao materialismo marxista. Essa operação discursiva permitiu a Perón situar-se como mediador entre capital e trabalho, afirmando que o Estado tinha a responsabilidade ética de garantir direitos sociais, salários dignos e proteção aos trabalhadores. Segundo Zanatta, ao recorrer à Rerum Novarum, Perón reforçava a ideia de que suas reformas não eram arbitrárias, mas expressão histórica de uma doutrina anterior, dotada de autoridade moral reconhecida, o que lhe permitia ampliar seu poder político sem romper explicitamente com o universo cultural católico dominante.

Nesse mesmo horizonte interpretativo, o ensino religioso nas escolas públicas ocupa lugar estratégico na consolidação da aliança inicial entre o regime peronista e o clero. Instituído em 1943, no contexto do governo militar que antecedeu a eleição de Perón, o ensino religioso foi mantido e valorizado durante seu governo como parte de um projeto mais amplo de reorganização moral da sociedade. Para a Igreja, a presença da religião na escola pública representava uma oportunidade histórica de recuperar influência sobre a formação das novas gerações, após décadas de avanço do laicismo e da secularização institucional. Para o peronismo, essa política educacional funcionava como um gesto concreto de reconhecimento da centralidade do catolicismo na identidade nacional. Zanatta observa que o ensino religioso não se limitava à transmissão de conteúdos confessionais, mas operava como mecanismo de socialização política, reforçando valores de ordem, autoridade e comunidade. Ao legitimar a intervenção religiosa no espaço escolar, o Estado peronista reconhecia implicitamente a Igreja como instância privilegiada de definição moral, ao mesmo tempo em que se beneficiava do apoio clerical para neutralizar correntes ideológicas consideradas ameaçadoras, como o socialismo e o comunismo. Essa convergência reforçava a percepção de continuidade entre tradição religiosa e projeto político, criando um terreno comum no qual regime e clero podiam cooperar sem eliminar suas diferenças estruturais.

A construção da imagem de Perón como líder providencial insere-se nesse mesmo processo de sacralização do poder político. Zanatta destaca que essa representação não se apoiava apenas em mecanismos clássicos de propaganda, mas dialogava com uma cultura política predisposta a interpretar a história nacional em chave moral e redentora. Perón era apresentado como aquele que surgira no momento exato para salvar a Argentina de uma dupla ameaça: a desagregação social provocada pelo liberalismo e o avanço do comunismo identificado com o ateísmo. O discurso oficial insistia na ideia de que a nação se encontrava em perigo e que apenas uma liderança forte, dotada de autoridade moral, poderia garantir sua sobrevivência. Nessa narrativa, Perón aparecia como defensor da fé, da ordem social e da unidade nacional, atributos que lhe conferiam uma aura de missão histórica. A oposição política era frequentemente associada ao caos, à imoralidade ou à influência estrangeira, reforçando a polarização entre um projeto nacional autêntico e forças vistas como alheias à tradição argentina. Essa construção do líder providencial permitia ao peronismo justificar a concentração de poder em nome de um bem superior, identificado com a preservação da comunidade nacional e de seus valores cristãos.

É nesse contexto que emerge o conceito de “Cristianismo Peronista”, entendido por Zanatta como uma tentativa de fundir identidade política e fé religiosa em uma narrativa unificadora. O Cristianismo Peronista não pretendia substituir a doutrina da Igreja, mas reinterpretá-la a partir das necessidades do projeto nacional-popular. Nele, a justiça social peronista era apresentada como realização concreta do mandamento cristão de amor ao próximo, enquanto o líder político surgia como instrumento histórico dessa realização. Essa fusão buscava superar a distinção entre esfera religiosa e esfera política, afirmando que ambas deveriam convergir para a construção de uma comunidade harmoniosa. O resultado era uma religião politizada e uma política moralizada, nas quais a adesão ao peronismo adquiria traços de compromisso ético. Zanatta ressalta que essa operação gerava ambiguidades profundas, pois ao mesmo tempo em que aproximava o regime da Igreja, também subordinava o discurso religioso à lógica do poder estatal. O Cristianismo Peronista funcionava, assim, como linguagem de integração e de controle, capaz de mobilizar afetos religiosos em favor do projeto governamental.


Conflitos de Poder e Identidade

"O peronismo pretendia ser não apenas um partido, mas uma religião cívica que reivindicava a lealdade total de seus seguidores."

Na interpretação de Loris Zanatta, uma das operações mais decisivas do debate historiográfico sobre o peronismo consiste em rejeitar as leituras que o descrevem como um fenômeno puramente laico, secular e orientado pela modernização. Para o autor, tais interpretações tendem a projetar sobre o peronismo categorias analíticas derivadas de experiências europeias de Estado moderno ou de processos clássicos de secularização, ignorando a especificidade da cultura política argentina. Zanatta sustenta que o peronismo não pode ser compreendido adequadamente se for reduzido a um populismo pragmático ou a uma ideologia de industrialização tardia. As evidências reunidas em Perón y el mito de la nación católica apontam para a permanência de uma matriz religiosa profunda, que atravessa o discurso, os rituais, a linguagem moral e a própria concepção de comunidade nacional mobilizada pelo regime. O peronismo, segundo essa leitura, não elimina o sagrado da política, mas o reorganiza, deslocando-o do campo estritamente eclesiástico para o campo estatal e nacional-popular.

Zanatta identifica no peronismo características típicas de uma “religião política” ou de um “messianismo secular”, expressões que procuram captar a fusão entre fé coletiva, liderança carismática e promessa de redenção histórica. Entre as evidências centrais estão a retórica da missão nacional, a representação do povo como comunidade moral unificada e a figura de Perón como mediador entre essa comunidade e um destino superior. O discurso peronista não se limita a administrar interesses ou a propor políticas públicas; ele oferece uma narrativa total da história argentina, marcada por queda, sofrimento e redenção. A justiça social aparece como realização de uma promessa histórica, e não apenas como programa governamental. A mobilização de rituais públicos, celebrações massivas e fórmulas de lealdade reforça essa dimensão, criando uma experiência coletiva que ultrapassa os limites da política ordinária. Para Zanatta, esses elementos afastam o peronismo de uma concepção estritamente secular e o aproximam de formas modernas de sacralização do poder.

Essa leitura ajuda a compreender por que a aliança entre Perón e a Igreja era, desde o início, inerentemente instável, apesar das afinidades ideológicas existentes. Embora compartilhassem a crítica ao liberalismo, a rejeição ao individualismo e a defesa de uma comunidade nacional orgânica, Perón e a hierarquia eclesiástica divergiam quanto ao controle do sagrado. A Igreja buscava recuperar influência moral sobre a sociedade por meio do Estado, preservando sua autoridade própria e sua capacidade de definir o conteúdo da fé. Perón, por sua vez, aceitava a linguagem religiosa enquanto ela reforçasse sua liderança e legitimasse seu projeto político. Quando o peronismo começou a ocupar o espaço de mediação espiritual entre o povo e a história, a colaboração inicial deu lugar à desconfiança. Zanatta mostra que a instabilidade dessa aliança não decorre apenas de conflitos pontuais, mas de uma incompatibilidade estrutural entre duas pretensões de autoridade moral total.

Nesse processo de sacralização da política, o papel de Eva Perón foi decisivo. Zanatta analisa sua figura como elemento central na construção de um culto à personalidade que dialogava diretamente com a sensibilidade religiosa das massas. Eva não era apresentada apenas como primeira-dama ou dirigente política, mas como encarnação do sacrifício, da entrega e da compaixão. Sua imagem pública era associada à dor do povo, à proteção dos humildes e à mediação entre Perón e os descamisados. A narrativa construída em torno de sua vida enfatizava a renúncia pessoal em favor da comunidade, produzindo uma identificação afetiva intensa. Esse culto não se limitava à propaganda estatal; ele se manifestava em práticas sociais, homenagens públicas e formas de veneração que lembravam tradições religiosas profundamente enraizadas. Para Zanatta, Eva Perón tornou-se eixo fundamental de uma mística peronista que competia com a imaginação católica tradicional.

Essa competição explica, em grande medida, as reações de ciúme e resistência por parte da hierarquia eclesiástica. À medida que o peronismo avançava na sacralização da política, a Igreja percebia que seu monopólio sobre o sagrado estava sendo desafiado. O Estado peronista não apenas adotava valores cristãos em seu discurso, mas produzia seus próprios rituais, seus próprios mártires e suas próprias narrativas de salvação coletiva. Zanatta destaca que essa dinâmica gerava inquietação entre os bispos, que viam na devoção a Perón e a Eva uma forma de religiosidade desviada, orientada para o poder temporal. A lealdade política começava a assumir tonalidades morais absolutas, reduzindo o espaço para uma autoridade espiritual independente. A sacralização da política, que inicialmente havia favorecido a aproximação entre regime e clero, transformava-se em fator de ruptura.

Essa tensão culmina na tentativa de Perón de criar algo próximo a uma “Igreja Nacional” ou a uma religião civil subordinada ao Estado. Zanatta analisa essa tentativa não como projeto formal explícito, mas como conjunto de práticas e discursos que visavam integrar o clero ao aparelho estatal e reduzir sua autonomia. O peronismo buscava moldar o catolicismo argentino de acordo com suas necessidades políticas, promovendo sacerdotes alinhados ao regime e pressionando a hierarquia a apoiar decisões governamentais. A religião civil peronista não pretendia negar o catolicismo, mas absorvê-lo, reinterpretando seus valores à luz do projeto nacional-popular. Nesse modelo, o Estado aparecia como instância suprema de integração moral, enquanto a Igreja deveria ocupar um papel auxiliar, disciplinado e funcional.

Para Zanatta, essa tentativa revela o núcleo autoritário do peronismo enquanto religião política. Ao reivindicar para si a capacidade de definir o sentido último da comunidade nacional, o regime entrava em choque inevitável com uma instituição que também se entendia como portadora de uma verdade universal. A ruptura entre Perón e a Igreja, nos anos finais de seu governo, não surge de divergências ocasionais, mas do esgotamento de uma convivência marcada por ambiguidade e disputa. O peronismo havia se apoiado no imaginário católico para legitimar sua ascensão, mas, ao transformar esse imaginário em instrumento exclusivo do poder estatal, provocou a reação de uma Igreja que se recusava a ser reduzida a braço ideológico do regime.


A Ruptura e a Queda


"O conflito começou quando a Igreja percebeu que o peronismo já não era seu braço político, mas seu competidor espiritual."

"Perón tentou nacionalizar o catolicismo, subordinando a hierarquia eclesiástica aos interesses da Revolução Nacional."

"Em 1954, a lua de mel havia se transformado em uma guerra aberta pelo controle das almas argentinas."

"A legalização do divórcio e a supressão do ensino religioso foram ataques diretos ao coração do poder social da Igreja."

"A queima das igrejas em junho de 1955 foi o ato final de uma tragédia política onde o mito se voltou contra seu criador."


Na interpretação de Loris Zanatta, o rompimento definitivo entre Juan Domingo Perón e a Igreja em 1954 não foi resultado de um episódio isolado, mas de uma acumulação progressiva de decisões legais, disputas políticas e choques de autoridade que tornaram insustentável a convivência anterior. Entre os principais gatilhos jurídicos, destacam-se a aprovação da lei do divórcio civil e a autorização para a reabertura de prostíbulos, medidas que sinalizaram uma inflexão clara na orientação moral do Estado peronista. Essas decisões foram percebidas pela hierarquia eclesiástica como uma agressão direta à doutrina católica e como demonstração inequívoca de que o governo já não se sentia obrigado a respeitar os limites impostos pela moral cristã. No plano político, o conflito foi agravado pela crescente tentativa do regime de subordinar organizações leigas católicas ao controle estatal, bem como pela hostilidade aberta de Perón a setores do clero que se recusavam a alinhar-se ao discurso oficial. Zanatta sublinha que, a partir de 1954, a tensão deixa de ser latente e se transforma em confronto explícito, no qual o Estado passa a legislar deliberadamente contra posições defendidas pela Igreja.

A legalização do divórcio e a reabertura dos prostíbulos tiveram um impacto profundo na relação com o Vaticano porque tocaram em pontos sensíveis da identidade moral do catolicismo argentino. Essas medidas não eram apenas reformas administrativas ou respostas pragmáticas a demandas sociais; elas eram carregadas de forte significado político. Ao aprová-las, o governo afirmava sua pretensão de definir autonomamente a ordem moral da sociedade, sem mediação eclesiástica. Para a Santa Sé, tais decisões indicavam que o peronismo já não se apresentava como aliado na defesa da moral cristã, mas como poder concorrente. Zanatta observa que o choque não se limitou ao conteúdo das leis, mas à mensagem implícita nelas contida: o Estado peronista reivindicava para si o direito de estabelecer normas éticas fundamentais, deslocando a Igreja para uma posição subordinada. Essa ruptura afetou profundamente a confiança mútua e acelerou o distanciamento institucional entre Buenos Aires e Roma.

Nesse contexto de deterioração acelerada, o conflito com a Ação Católica desempenhou papel central na erosão da base de apoio de Perón. A Ação Católica representava um espaço de mobilização leiga relativamente autônomo, fortemente vinculado à hierarquia e comprometido com a formação moral dos fiéis. Para o regime, essa autonomia era vista com suspeita, pois escapava ao controle estatal e podia funcionar como foco de oposição organizada. A repressão a atividades da Ação Católica e a perseguição a seus dirigentes geraram indignação em amplos setores do catolicismo argentino. Paralelamente, a formação do Partido Democrata Cristão ofereceu uma alternativa política para católicos que rejeitavam tanto o liberalismo tradicional quanto o peronismo autoritário. Zanatta enfatiza que a emergência dessa força política revelou a fragmentação do campo católico e mostrou que a adesão religiosa ao peronismo nunca foi total. A perda de apoio entre leigos engajados e intelectuais católicos enfraqueceu significativamente a legitimidade moral do governo.

A excomunhão de Perón, decretada em meio a esse clima de confronto, contribuiu de forma decisiva para a legitimação do golpe de Estado de 1955, conhecido como Revolução Libertadora. Embora a excomunhão não tenha sido amplamente divulgada de forma oficial, seu efeito foi poderoso no imaginário coletivo. Para muitos setores da sociedade, especialmente aqueles influenciados pela cultura católica, a sanção religiosa reforçava a ideia de que o governo havia ultrapassado limites morais inaceitáveis. Zanatta argumenta que a ruptura com a Igreja forneceu aos opositores de Perón uma justificativa ética para a deposição do presidente. O golpe deixou de ser visto apenas como intervenção militar e passou a ser interpretado como restauração de uma ordem moral violada. A oposição pôde apresentar-se como defensora da fé e da tradição nacional, apropriando-se de um discurso que antes havia sido monopolizado pelo peronismo.

A queima das igrejas em Buenos Aires, em 1955, marcou um ponto de não retorno nesse processo. Esse episódio traumático teve um impacto devastador sobre a relação entre Estado e Igreja e sobre a própria ideia de uma nação unificada em torno do catolicismo. Para Zanatta, a violência contra templos religiosos evidenciou o colapso definitivo do projeto de conciliação entre peronismo e mito da nação católica. As igrejas incendiadas tornaram visível a profundidade da fratura social e moral que atravessava o país. O que antes se apresentava como comunidade espiritual coesa revelou-se um campo de conflito aberto, no qual o sagrado havia se transformado em objeto de disputa política. A partir desse momento, a noção de uma identidade católica compartilhada deixou de funcionar como eixo integrador da vida nacional.

Zanatta demonstra ainda que o antiperonismo possuía raízes católicas profundas desde os primeiros anos do regime. Diversos setores do catolicismo argentino se opuseram a Perón desde o início, mesmo durante a fase de aproximação institucional. Entre eles estavam segmentos do episcopado mais sensíveis à autonomia da Igreja, intelectuais católicos que desconfiavam da instrumentalização da fé pelo Estado e grupos leigos comprometidos com uma visão plural da política. Esses setores criticavam o personalismo do líder, a sacralização do poder estatal e a tendência a confundir lealdade política com compromisso moral. Para esses católicos, o peronismo representava uma ameaça à liberdade religiosa, pois submetia a fé a uma lógica de mobilização política. A oposição católica ao regime não era, portanto, simples reação tardia aos conflitos de 1954 e 1955, mas expressão de uma divergência de fundo sobre o lugar do sagrado na política.

Análise Crítica e Legado

Na leitura proposta por Loris Zanatta, a tese do mito da nação católica ultrapassa o caso argentino e oferece uma chave interpretativa fecunda para compreender outros movimentos políticos latino-americanos que emergiram acompanhados de forte retórica religiosa. O argumento central do autor é que, em sociedades marcadas por processos incompletos de secularização, a política tende a buscar no repertório religioso uma linguagem capaz de conferir sentido moral, unidade coletiva e legitimidade histórica. Um exemplo comparativo particularmente elucidativo pode ser encontrado no varguismo brasileiro, sobretudo durante o Estado Novo. Assim como no peronismo, o regime de Getúlio Vargas recorreu a uma retórica de conciliação social, valorizou a ideia de comunidade nacional orgânica e promoveu uma reaproximação entre Estado e Igreja. A defesa da família, da ordem social e do trabalho como vocação moral dialogava com o catolicismo social difundido no período. Ainda que o contexto brasileiro apresentasse diferenças institucionais e culturais relevantes, a instrumentalização de valores cristãos para sustentar um projeto nacional-centralizador revela um mecanismo semelhante ao analisado por Zanatta: a transformação da religião em matriz legitimadora de um poder político que se apresenta como redentor das fraturas sociais. Esse paralelo permite compreender como a retórica religiosa pode operar como linguagem política transversal na América Latina, adaptando-se a contextos nacionais distintos sem perder sua eficácia mobilizadora.

A partir dessa perspectiva comparativa, torna-se mais clara a crítica que Zanatta dirige à historiografia que interpreta o peronismo apenas como um movimento fascista. Para o autor, essa leitura tende a reduzir o fenômeno a influências europeias dos anos 1930, enfatizando elementos como o culto ao líder, o corporativismo e a mobilização de massas, enquanto negligencia as raízes católicas profundas que moldaram o imaginário político argentino. Zanatta não nega a existência de convergências formais entre o peronismo e certos regimes autoritários europeus, mas sustenta que tais convergências são insuficientes para explicar a especificidade do caso argentino. O peronismo não surge em um vazio cultural, nem se limita a importar modelos externos; ele se insere em uma tradição local marcada pela ideia de uma nação dotada de missão moral e espiritual. Ignorar essa dimensão religiosa significa perder de vista o modo como o peronismo dialogou com expectativas coletivas já sedimentadas, oferecendo-se como resposta a uma crise percebida não apenas como política ou econômica, mas também como crise de valores. Para Zanatta, a insistência exclusiva no rótulo de fascismo empobrece a análise e obscurece o papel central desempenhado pelo catolicismo na formação da cultura política peronista.

Essa dimensão religiosa do mito da nação católica também ajuda a compreender a persistência e a transformação da violência política na Argentina nas décadas de 1960 e 1970. Zanatta argumenta que o colapso do projeto de unidade moral sustentado pelo mito não eliminou suas categorias fundamentais, mas as radicalizou. A ideia de uma comunidade nacional ameaçada por inimigos internos continuou a operar como esquema interpretativo poderoso. Em um contexto de polarização ideológica e instabilidade institucional, diferentes atores políticos passaram a reivindicar para si a defesa autêntica da nação e de seus valores últimos. A violência tornou-se, então, justificável como instrumento de purificação da comunidade. Setores da direita nacionalista, muitos deles herdeiros de tradições católicas integristas, interpretaram a repressão como cruzada moral contra a subversão. Ao mesmo tempo, segmentos da esquerda peronista reinterpretaram categorias religiosas em chave revolucionária, associando libertação social a vocabulários de redenção. O mito da nação católica, esvaziado de sua função integradora, sobreviveu como estrutura mental que facilitava a legitimação da violência, pois oferecia uma visão maniqueísta do conflito político, no qual o adversário era percebido como ameaça existencial à comunidade.

Nesse sentido, Zanatta sugere que a violência política não pode ser compreendida apenas como resultado de ideologias importadas ou de disputas conjunturais. Ela se enraíza em uma cultura política marcada pela sacralização do conflito e pela dificuldade de aceitar o pluralismo como valor legítimo. A persistência do mito, mesmo em forma fragmentada, contribuiu para a naturalização da ideia de que a política envolve a defesa de uma verdade moral absoluta, diante da qual o compromisso e a negociação aparecem como fraqueza. Essa herança ajuda a explicar por que a Argentina experimentou níveis tão elevados de confronto interno ao longo do século XX, mesmo após o declínio do peronismo clássico.

Ao estender essa análise para o presente, a obra de Zanatta oferece instrumentos valiosos para compreender a relação atual entre populismo latino-americano e valores religiosos. Muitos movimentos contemporâneos, embora operem em contextos formalmente democráticos, continuam a recorrer a linguagens morais e religiosas para legitimar lideranças carismáticas e projetos de poder personalistas. A promessa de restaurar a dignidade do povo, defender valores tradicionais e combater inimigos internos ressoa com padrões analisados no caso argentino. Zanatta não sugere uma repetição mecânica do passado, mas aponta para a permanência de estruturas culturais que facilitam a reativação de discursos religiosos na política. Em sociedades marcadas por desigualdade, fragilidade institucional e desconfiança em relação às elites, a religião oferece um repertório de significados capaz de conferir profundidade histórica e autoridade moral a projetos populistas.


"Sem entender a raiz católica do peronismo, é impossível compreender sua persistência na cultura política argentina."


"A queda de Perón em 1955 não foi o fim do mito, mas sua fragmentação em novas formas de militância religiosa e política."




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