A Antiguidade como Totalidade: a ambição histórica de Eduard Meyer
(p. 6): "Tanto por sua constituição física quanto por sua disposição mental, o homem não pode existir como um ser individual... o homem isolado... é uma construção sem qualquer realidade e, portanto, tão enganosa para a análise teórica das formas de vida humana quanto para o conhecimento histórico."
5 (p. 10-11): "Essa forma dominante de associação social, cuja essência contém a consciência de uma unidade completa e autossuficiente, chamamos de Estado."
(p. 11): "Devemos, portanto, considerar a associação estatal não apenas conceitualmente, mas também historicamente, como a forma primária da comunidade humana, ou seja, como a associação social que corresponde ao rebanho animal e é, por sua origem, mais antiga do que a própria humanidade..."
(p. 14): "As filas e fratrian, as tribos e cúrias, os clãs nunca foram estados, mas sempre apenas subdivisões de um estado ou de uma tribo..."
(p. 21): "Uma das formas mais difundidas é aquela que é designada por um nome infeliz e enganador como 'direito materno' ou mesmo 'matriarcado'. Não se trata de um verdadeiro governo das mulheres."
No estudo sobre a natureza do Estado a partir da obra de Eduard Meyer, o primeiro ponto a ser enfrentado diz respeito à tese central de que o Estado não deriva de unidades prévias como a família ou o clã, mas deve ser compreendido como uma forma de associação social mais originária do que essas. Meyer propõe uma inversão radical das teorias contratualistas e evolucionistas de seu tempo. Para ele, a tradição que remonta a Aristóteles, segundo a qual a pólis surge da união de famílias e aldeões, opera com um pressuposto falso: toma como primário o que é, na verdade, derivado. A família organizada sob o direito paterno, o clã baseado em laços de sangue ou em totens, as tribos e as fratrias são, todas elas, instituições que pressupõem um quadro normativo mais amplo, uma instância capaz de reconhecer, validar e, sobretudo, sancionar as regras que regem os casamentos, a filiação, a herança e a vingança. Esse quadro normativo é o Estado.
A argumentação de Meyer recorre a uma analogia de fundo zoológico ou etológico, mas que ele emprega com intenção estritamente estrutural. O homem, escreve Meyer, pertence aos animais de rebanho, isto é, àquelas espécies cujos indivíduos vivem em associações permanentes. Tal associação não é um somatório de indivíduos preexistentes, mas uma realidade anterior e condicionante. Cada membro do rebanho só se compreende como parte de uma totalidade que lhe impõe uma ordem, um conjunto de proibições e deveres, e uma direção da vontade coletiva. Nos termos de Meyer, essa instância é puramente espiritual, ainda que nasça de necessidades materiais: é a ideia do vínculo, a consciência de pertencer a um corpo social que sobrevive aos indivíduos. O Estado, definido como a forma dominante de associação social, dotada de unidade e de vontade própria, corresponde exatamente a essa camada mais profunda da existência humana. Ele não precisa de um contrato, pois não houve um instante histórico em que homens isolados tenham decidido unir-se; ele também não emerge da família, pois a própria família como instituição reconhecida, com direitos e deveres definidos, só existe porque o Estado a sanciona. Sem a coerção potencial que emana do todo, nenhuma regra de parentesco poderia impor-se diante dos impulsos contraditórios dos indivíduos. O raciocínio de Meyer, portanto, não é genético no sentido de reconstruir uma sequência temporal, mas sim transcendental no sentido kantiano do termo: as condições de possibilidade da vida social organizada são dadas pelo Estado. A família, o clã e a tribo são, na melhor das hipóteses, seus órgãos ou subdivisões.
Essa tese opõe-se frontalmente tanto ao contratualismo moderno, de Hobbes a Rousseau, quanto ao organicismo aristotélico e às teorias da escola histórica do direito que viam no clã a célula primordial. Meyer considera que o contrato social é uma ficção racionalista, útil para pensar a legitimidade do poder, mas inútil para compreender a gênese real das sociedades humanas. As pessoas nunca viveram em isolamento; sempre estiverem imersas em relações de dependência mútua e de sujeição a uma autoridade, ainda que difusa. Quanto à família, sua pretensa naturalidade é desconstruída por Meyer com exemplos etnográficos: há povos em que o pai não tem direitos sobre os filhos, outros em que o avô materno decide a herança, outros ainda em que o casamento não implica qualquer coabitação estável. Se a família fosse a unidade elementar, ela teria uma forma universal, o que não ocorre. O que universaliza certas formas de parentesco é a decisão do grupo — isto é, do Estado primitivo — de adotar uma regra em detrimento de outra. Assim, a analogia com os rebanhos serve para mostrar que a socialidade precede a individualidade consciente, e que o Estado, como vontade coletiva organizada, é a condição para que qualquer regra, seja de casamento, seja de propriedade, seja de vingança, adquira força vinculante.
Passando à crítica do Mutterrecht, ou direito materno, Meyer empreende uma análise minuciosa das teorias etnológicas de seu tempo, em particular aquelas que viam no matriarcado uma fase universal do desenvolvimento humano. Para ele, o conceito de “direito materno” é um equívoco terminológico de consequências graves. A ideia de que existiria um “governo das mulheres” em algum estágio da história não passa de uma projeção fantasiosa. Nos casos citados pelos defensores dessa teoria, o que se observa não é a supremacia feminina, mas uma regra específica de filiação e herança: os filhos pertencem ao clã da mãe, e a linhagem é contada por via materna. No entanto, a autoridade dentro desse clã, a gerência dos bens comuns, a representação política e a liderança militar continuam, em todos os casos documentados, nas mãos dos homens — os irmãos da mãe, os tios maternos, e não as mulheres. O chamado “matriarcado” seria, então, um nome impróprio para designar um sistema de parentesco matrilinear. Meyer insiste que mesmo nesses sistemas, a mulher permanece subordinada ao controle masculino do grupo; sua liberdade maior em relação ao marido, que muitas vezes vem de outra tribo, não significa liberdade política.
Os principais equívocos apontados por Meyer são dois. O primeiro, teórico, consiste em tomar uma regra de filiação e herança como prova de uma estrutura de poder global. O segundo, empírico, reside na seleção tendenciosa de exemplos exóticos, ignorando a imensa variedade de arranjos familiares e a presença ubíqua do poder masculino mesmo nas sociedades ditas matriarcais. Meyer cita vários autores contemporâneos que tentaram reconstruir o desenvolvimento da família a partir de um estágio promíscuo, passando pelo matriarcado e culminando no patriarcado, e os acusa de construir uma história imaginária sem base factual. Para ele, a diversidade de formas de parentesco é tal que nenhuma delas pode ser considerada mais primitiva que as outras; cada uma é uma solução institucional para os problemas da reprodução e da transmissão de bens, solução que depende das condições materiais e das decisões históricas de cada grupo. O Estado primitivo intervém ativamente nessa regulação: ao definir quem é considerado pai, quem é mãe, quem herda, quem deve casar com quem e quem está proibido de fazê-lo, o Estado cria as categorias de parentesco, e não o contrário. A prova mais clara disso, segundo Meyer, é que a filiação biológica pode ser substituída por atos simbólicos: a adoção, o contrato de sangue, a geração fictícia por um substituto do marido. Se o parentesco fosse natural, tais substituições seriam impossíveis. Logo, o que chamamos de família ou clã é sempre uma construção jurídica, e o direito é uma emanação da autoridade estatal, ainda que esta autoridade se apresente sob a forma difusa da tribo ou da aldeia.
Quanto à posição real da mulher nas sociedades ditas maternais, Meyer a caracteriza como ambivalente, mas nunca equivalente à dos homens. A mulher pode ter direitos de propriedade, pode ter certa autonomia na escolha do parceiro e pode, em alguns casos, ocupar posições rituais importantes. No entanto, a esfera pública, a guerra, a justiça e a chefia política são vedadas às mulheres na quase totalidade das sociedades primitivas. Os raros exemplos de rainhas guerreiras, como a lendária Zenóbia ou as amazonas citadas por Heródoto, são interpretados por Meyer como exceções devidas a circunstâncias extraordinárias, geralmente no âmbito de dinastias em que a herança por via feminina se impôs por falta de varões. Essas exceções confirmam a regra: o poder político, como regra geral, é exercido por homens. O “direito materno”, portanto, não altera a subordinação estrutural da mulher; apenas transfere a autoridade masculina do pai para o irmão ou tio materno. A mulher continua sendo objeto de troca entre clãs, seu corpo é regulado pela aliança política, e seus filhos são incorporados ao grupo do irmão dela, não ao grupo do genitor. Desse modo, a crítica de Meyer ao matriarcado inscreve-se em uma estratégia mais ampla de desnaturalização das instituições: nada é mais enganoso do que acreditar que a ordem social reflete um impulso natural; ela é sempre o resultado de uma imposição normativa, e essa imposição é o Estado.
No que concerne à tríade Moral, Sitte e Recht, Meyer propõe uma distinção analítica precisa. A moral abrange os preceitos que o indivíduo sente como obrigações interiores, oriundas da consciência de pertencer a uma comunidade. Seu critério é a intenção; sua sanção é interna, o remorso ou a aprovação da própria consciência. A Sitte, ou costume, diz respeito ao comportamento exterior padronizado, aquilo que se faz porque sempre se fez assim. Sua sanção é social: a desaprovação coletiva, o ridículo, a exclusão informal. O direito, por sua vez, distingue-se por sua pretensão à coercibilidade externa organizada. O direito não apenas descreve o que deve ser feito, mas estabelece um aparato de juízes, procedimentos e penas capazes de impor a observância de suas regras, mesmo contra a vontade do indivíduo. Meyer ressalta que essas três esferas se sobrepõem parcialmente; um mesmo conteúdo, como o dever de não matar, pode ser ao mesmo tempo moral, costumeiro e jurídico. No entanto, a origem e o modo de coerção diferem: o direito apela ao temor da punição institucional, o costume ao temor da vergonha, a moral ao temor da própria consciência ou de uma instância transcendental.
O conflito entre essas esferas emerge quando a sociedade atravessa transformações. Por exemplo, uma prática consagrada pelo costume pode tornar-se moralmente intolerável para uma minoria iluminada, antes que o direito a proíba. Nesse caso, há um dissenso entre o plano dos valores individuais (a moral) e o plano das práticas coletivas (o costume). Ou, inversamente, uma lei pode ser editada pelo Estado que contraria tanto o costume quanto a moral dominante, gerando resistência passiva ou ativa. Meyer dá o exemplo das leis que obrigam a enterrar os mortos em uma época em que o costume ainda favorece a cremação. Os cidadãos podem obedecer à lei por medo da pena, mas considerá-la imoral e contra a tradição. O conflito mais agudo, porém, ocorre quando uma nova moral, surgida de uma reforma religiosa ou filosófica, exige a abolição de práticas consagradas pelo direito e pelo costume, como ocorreu com a condenação dos sacrifícios humanos. Nessas situações, a tensão entre os três planos torna-se um motor de transformação social. Meyer insiste que nenhum dos três é redutível aos outros; são dimensões distintas da vida normativa, e sua história é a história de suas imbricações e rupturas.
A função social dos feiticeiros, na análise de Meyer, é ambígua e central. Nas sociedades primitivas, o Zauberer é o indivíduo que possui acesso a um conhecimento oculto sobre as forças que povoam o mundo: sabe quais ritos aplacam os espíritos, como curar doenças invocando poderes sobrenaturais, como prever o futuro, como descobrir a autoria de um crime, como influenciar a caça e a fertilidade. Esse saber o coloca em uma posição única: ele é ao mesmo tempo um técnico da eficácia simbólica e um guardião da tradição. Meyer compara os feiticeiros aos primeiros especialistas, anteriores mesmo aos artesãos, pois sua atividade lida com o problema fundamental da insegurança humana diante das forças naturais e sociais. Eles detêm um monopólio do contato com o invisível, e esse monopólio lhes confere um enorme poder social, que pode rivalizar com o dos chefes políticos. Os feiticeiros transmitem seu conhecimento por meio de aprendizado e iniciação; assim, criam uma tradição que atravessa gerações, acumulando observações sobre plantas, doenças, comportamentos animais e fenômenos celestes. Nesse sentido, eles conservam e transmitem elementos de proto-ciência, proto-medicina e proto-cronologia.
Todavia, Meyer adverte que o domínio da feitiçaria pode se tornar um obstáculo ao progresso. Quando o sistema de crenças mágicas se torna excessivamente rígido, e quando os feiticeiros, como grupo de interesse, resistem a qualquer inovação que ameace sua autoridade, a sociedade fica enredada em uma teia de superstições que bloqueia a experimentação e o pensamento causal independente. Um exemplo citado por Meyer é o da cultura asteca, onde o predomínio do pensamento mágico-sacrificial gerou uma barbárie cerimonial que inviabilizou o desenvolvimento técnico e político. Em contrapartida, sociedades que conseguiram limitar a influência dos feiticeiros, ou que desenvolveram formas de racionalidade autônoma, puderam avançar. A diferença entre uma cultura que estagna e uma que progride não está na ausência de magia, mas na capacidade de instaurar instâncias de controle sobre o saber mágico, subordinando-o a fins socialmente definidos. Assim, o Zauberwesen não é nem um estágio necessário nem um obstáculo intransponível; ele é um campo de forças em que a conservação da tradição e a inovação entram em conflito.
A definição de deuses em oposição a espíritos, na obra de Meyer, é um esforço sistemático de delimitação conceitual. Para ele, a diferença crucial reside na permanência da personalidade e na regularidade da relação com os homens. Os espíritos (Geister) são entidades instáveis, caprichosas, que podem manifestar-se em um fenômeno natural passageiro ou em um sonho, mas desaparecem sem deixar traços. Eles são objeto do temor e da magia ocasional, mas não de um culto estável. Os deuses, ao contrário, possuem uma personalidade contínua, reconhecível e duradoura; eles estão associados a uma esfera determinada da experiência (o céu, a guerra, a fertilidade, a água corrente) ou a um grupo humano específico. Essa duração da personalidade permite que se estabeleça com eles uma relação contratual, mediada pelo culto regular. O culto é exatamente o conjunto de práticas que renovam e estabilizam a presença do deus na vida da comunidade. Sem culto, um ser pode ser temido ou invocado, mas não se torna uma divindade plena.
Meyer acrescenta que a relação entre deus e associação humana é recíproca: o deus protege e garante a prosperidade do grupo, mas o grupo, por sua vez, garante a existência do deus através das oferendas e dos ritos. Se o grupo perece ou abandona o culto, o deus morre ou se torna um mero espírito errante. Essa definição permite a Meyer evitar tanto o animismo universal quanto as teorias que derivam todo deus de um ancestral morto. A importância para a história das religiões é evidente: permite distinguir entre sistemas religiosos em que predominam espíritos e demônios, que resistem à institucionalização, e sistemas em que prevalecem deuses com cultos organizados, que são o alicerce das religiões cívicas e das igrejas. Além disso, a definição de Meyer explica o fenômeno da interpretatio graeca ou romana: quando um povo encontra deuses de outro povo, ele os identifica com os seus próprios se os cultos, as funções e as personalidades divinas forem suficientemente análogas, pois a duração da personalidade permite o reconhecimento de um mesmo deus sob nomes diferentes.
Quanto às duas classes de deuses, Meyer propõe uma divisão que tem consequências profundas para a análise da religião antiga. A primeira classe é composta pelos deuses universais, cósmicos, que estão associados aos grandes fenômenos da natureza que se repetem regularmente: o céu, o sol, a lua, a terra, o mar, os ventos, as estações. Esses deuses existem independentemente de qualquer culto humano; eles manifestam sua potência independentemente de serem invocados ou não. Por isso, muitas vezes são tratados como forças impessoais ou como divindades marginalizadas nos cultos locais. Meyer menciona o exemplo de Re no Egito antes da V dinastia, que era uma grande divindade cósmica sem um culto organizado, ou o deus supremo dos índios norte-americanos, reverenciado mas raramente objeto de sacrifícios regulares. A segunda classe compreende os deuses ligados a uma associação humana específica (estado, tribo, clã, família) ou a um lugar concreto (um bosque, uma fonte, uma pedra, um templo). Esses deuses são, em grande medida, produtos do culto: eles adquirem personalidade porque são invocados regularmente, recebem oferendas e assumem um caráter protetor ou punitivo em relação ao grupo que os venera. A diferença fundamental está na dependência do ato humano: os deuses cósmicos existem mesmo sem crentes; os deuses étnicos ou locais morrem se o culto cessar.
Meyer insiste que a história das religiões é, em grande parte, a história da progressiva assimilação dos deuses da primeira classe pelos da segunda, e vice-versa. Quando um deus local adquire atributos cósmicos, como um deus das tempestades que também comanda os exércitos e garante a fertilidade da terra, ele tende a se tornar universal, absorvendo funções de outros deuses. É o caso de Javé, que começou como um deus do vulcão Sinai para uma tribo específica e depois foi proclamado criador do céu e da terra. Inversamente, deuses cósmicos podem ser integrados a panteões nacionais, ganhando santuários e sacerdotes, como Zeus Olímpio ou Marduk na Babilônia. O culto, portanto, não cria os deuses cósmicos, mas os domestica; os deuses étnicos, ao contrário, devem sua existência como deuses ao culto. Essa distinção permite a Meyer explicar por que algumas religiões, como o antigo xintoísmo ou as religiões da Grécia arcaica, estão repletas de divindades locais de bosques e fontes, enquanto outras, como o zoroastrismo ou o cristianismo, enfatizam deuses universais e criadores. A passagem de um modelo a outro, na análise de Meyer, ocorre quando um grupo étnico expande seu poder e transforma seu deus nacional no deus do mundo inteiro, uma operação que exige intensa atividade teológica e política.
Desse modo, o estudo sistemático das categorias de Meyer revela um autor que procura construir uma gramática das formas sociais e religiosas, a partir de uma posição que recusa tanto o evolucionismo linear quanto o relativismo cultural extremo. Sua insistência na prioridade do Estado sobre o clã, sua crítica ao matriarcado como categoria explicativa, sua distinção entre as esferas normativas e seu conceito duplo de divindade formam um edifício teórico coerente, embora atravessado pelas polêmicas de seu tempo. Para o estudioso atual, o valor dessas distinções reside menos na sua validade empírica irrestrita e mais na força heurística que possuem para desnaturalizar as instituições que tendemos a tomar como evidentes. Meyer nos força a perguntar: toda ordem social repousa sobre uma decisão que só pode ser coletiva e coercitiva, e toda crença religiosa se ancora em práticas rituais que instituem a permanência das personalidades sobrenaturais. As questões sobre a origem do Estado, a natureza do direito, o papel da magia e a definição dos deuses permanecem abertas, mas as respostas de Meyer têm o mérito de nos lembrar que nenhuma análise da antiguidade pode prescindir de uma antropologia explícita e de uma teoria da ação coletiva.
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(p. 33-34): "O Estado não surgiu delas [as associações de parentesco], mas, ao contrário, elas foram criadas por ele; e parece... que o agrupamento de grupos individuais dentro da totalidade da associação estatal... é mais antigo do que a família..."
(p. 38-39): "A questão, sempre disputada desde a época dos sofistas, se o direito surgiu da natureza... ou se é mera convenção humana (νόμος), só poderá ser respondida dizendo que a ideia de direito e justiça... é certamente algo dado com a própria natureza humana..."
(p. 46): "Através do direito de herança, a propriedade se torna um fator duradouro na vida da associação, que em seu efeito profundo talvez supere todos os outros. Ela intensifica e unifica os contrastes na posição social dos indivíduos..."
(p. 48): "Pelo contrário, como mulheres e crianças dependem do cuidado e proteção dos homens, eles também estão em dependência legal destes."
(p. 55): "A proteção e atuação externa e a manutenção da ordem jurídica interna são as duas tarefas essenciais da associação estatal..."
No estudo sobre a relação entre religião, Estado e moral na obra de Eduard Meyer, o primeiro movimento a ser realizado é a compreensão da tese central que inverte a ordem comumente aceita. Meyer parte de uma constatação empírica: em todas as sociedades arcaicas, a religião se apresenta como a fundamentação última das leis do Estado e dos preceitos da moral. Os deuses são os autores do código jurídico, os garantidores das promessas, os vingadores dos perjúrios. O rei governa por vontade divina; a assembleia delibera após consultar os augúrios; a guerra justa é aquela que obteve o favor dos deuses. Essa aparência, contudo, não deve enganar o historiador. Para Meyer, a realidade da gênese histórica é exatamente inversa. O Estado não surge da religião; ao contrário, a religião, tal como a conhecemos como instituição social, é moldada, utilizada e frequentemente criada pelo Estado para seus próprios fins. O soberano não obedece aos deuses porque eles existem independentemente; ele os invoca porque precisa de uma sanção transcendente para suas decisões terrenas.
Meyer sustenta que o Estado primitivo já possui uma organização coercitiva antes que qualquer culto adquira forma estável. As primeiras assembleias de guerreiros, os primeiros conselhos de anciãos, as primeiras chefias hereditárias não nasceram de uma revelação divina, mas da necessidade prática de regular a caça, distribuir o butim, decidir sobre a guerra e a paz. A religião entra em cena posteriormente, como um recurso poderoso para consolidar essa autoridade. O chefe que consegue fazer-se acompanhar por um sacerdote que anuncia sua eleição pelos deuses obtém uma vantagem decisiva sobre seus rivais. O Estado, portanto, usa a religião como instrumento de legitimação. Esse uso pode ser explícito, como na ideologia do faraó como filho de Rá, ou implícito, como na exigência de que os juízes prestem juramento pelos deuses antes de decidir uma causa. Em ambos os casos, a instância última de decisão permanece sendo a vontade do Estado, que escolhe quais deuses honrar, quais templos financiar, quais festivais promover. A religião oficial é, nessa perspectiva, uma religião de Estado.
O mesmo raciocínio se aplica à moral. Os mandamentos morais mais elementares — não matar, não roubar, não mentir — são exigências da vida em sociedade, sem as quais nenhum grupo humano pode subsistir. Eles precedem qualquer codificação religiosa. O que a religião faz é agregar a essas normas uma sanção suplementar: a ameaça de castigo divino após a morte ou em vida. Essa adição é importante para o controle social, mas não cria o conteúdo da moral. Meyer observa que, em muitas sociedades, a moral pode entrar em conflito aberto com a religião. Um exemplo clássico é o dos sacrifícios humanos: uma prática religiosa arraigada pode ser abolida por razões morais antes que qualquer deus a proíba. A consciência moral dos fiéis se revolta contra a ideia de que uma divindade exija sangue humano, e essa revolta acaba por transformar a própria religião. Os deuses aprendem, com o tempo, a desejar apenas oferendas simbólicas ou animais, não pessoas. A moral, desse modo, domina e transforma as representações religiosas ao longo dos séculos. Não são os deuses que ditam o bem; são os homens que redefinem o bem e depois atribuem essa nova definição aos deuses, alegando que sempre foi assim, ou que uma revelação posterior corrigiu os erros do passado.
Meyer aprofunda essa análise ao tratar do que chama de ethische Postulat, o postulado ético. Com o avanço da cultura, as sociedades desenvolvem uma exigência crescente de coerência entre o que os deuses são e o que eles devem ser. Nos estágios primitivos, os deuses são criaturas arbitrárias, poderosas, caprichosas, amoral como os fenômenos naturais que personificam. Eles podem ser cruéis, ciumentos, vingativos, libidinosos. A mitologia grega está repleta de exemplos de deuses que enganam, traem, violentam. O problema surge quando a moral se refina e começa a exigir que os deuses, sendo superiores aos homens, sejam também moralmente superiores. Como pode um deus que governa o universo ser menos justo do que um juiz terreno? Como pode a fonte de toda lei transgredir a lei? Nasce assim o postulado ético: os deuses devem ser justos, devem recompensar o bem e punir o mal, devem agir de acordo com um plano racional e benevolente.
O conflito entre a tradição mitológica, que apresenta deuses arbitrários, e esse postulado ético é um dos motores da história religiosa. Meyer identifica várias tentativas de resolver ou mitigar esse conflito. A primeira é a crença em uma vida após a morte. Se a justiça não é feita neste mundo, ela será feita no outro. Os maus prosperam aqui, mas sofrerão eternamente no inferno; os bons sofrem aqui, mas gozarão de felicidade no paraíso. Essa solução, que Meyer encontra em muitas religiões, incluindo o judaísmo tardio, o cristianismo e o islamismo, tem a vantagem de preservar a bondade divina, transferindo o ajuste de contas para um além onde as provas materiais não podem contradizer a fé. Sua desvantagem é que depende inteiramente de uma crença não verificável e posterga a justiça para um plano inacessível à crítica racional. Além disso, não responde à questão de por que um deus bom permitiria o sofrimento dos inocentes, mesmo que temporariamente.
Uma segunda tentativa, mais sofisticada, é a da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. A filosofia propõe que o deus, ou o divino, não é uma pessoa arbitrária, mas a própria ordem racional do cosmos. O Bem não é algo que os deuses decidem; os deuses são subordinados ao Bem. O mal não é uma punição divina, mas uma consequência necessária da matéria imperfeita ou da ignorância humana. Nessa perspectiva, o postulado ético é satisfeito pela eliminação do deus pessoal em favor de um princípio impessoal de justiça imanente. Contudo, Meyer observa que essa solução é demasiado abstrata para a maioria dos crentes. A filosofia permanece um privilégio de elites intelectuais, incapaz de alimentar a piedade popular. Além disso, o problema do sofrimento gratuito — o justo que perece na miséria, o inocente esmagado por uma catástrofe — permanece insolúvel mesmo para a filosofia, que só pode resignar-se ou transformar o sofrimento em disciplina da alma.
A terceira tentativa, que Meyer analisa com particular atenção, é a expressa no livro de Jó. Aqui, o sofrimento do justo é confrontado sem subterfúgios. Jó não recebe uma explicação causal para seus males; não lhe é dito que pecou secretamente, nem que seus filhos mereciam morrer. A resposta divina, no turbilhão, é uma demonstração de poder e de transcendência: onde estavas tu quando eu fundava a terra? O sentido da resposta é que a sabedoria divina é inescrutável, e a criatura não pode exigir do criador contas de sua justiça. Essa solução preserva a fé, mas à custa de abandonar o próprio postulado ético. Se a justiça divina é inescrutável, então ela não é a justiça humana amplificada; ela é algo inteiramente outro, que pode incluir o sofrimento dos inocentes como parte de um plano que não nos compete avaliar. Para Meyer, essa solução é honesta, mas insatisfatória do ponto de vista moral, pois equivaleria a dizer que qualquer coisa que Deus faça é justa por definição, o que torna o termo justiça vazio de conteúdo.
Nenhuma dessas tentativas, conclui Meyer, é definitivamente satisfatória. O conflito entre a experiência do sofrimento inocente e a crença em uma divindade boa e onipotente permanece aberto. Cada época, cada cultura, cada indivíduo religioso precisa renegociar essa tensão. O postulado ético não é um problema a ser resolvido teoricamente, mas uma exigência prática que move a evolução religiosa. As religiões que ignoram esse postulado tendem a estagnar em formas arcaicas de magia e sacrifício; as que tentam satisfazê-lo plenamente acabam por dissolver o deus pessoal em um princípio abstrato ou em um silêncio místico. Meyer, com seu realismo histórico, parece inclinar-se a uma posição de resignação agnóstica: o historiador não tem a tarefa de resolver o problema da teodiceia, mas de descrever como os homens, em diferentes épocas, tentaram resolvê-lo e por que essas tentativas sempre deixaram resíduos de insatisfação.
No que concerne aos tipos de liderança religiosa, Meyer estabelece uma distinção nítida entre o sacerdote e o profeta, cada qual representando uma lógica oposta de relação com a tradição, a individualidade e a autoridade. O sacerdote é o funcionário do culto. Ele pertence a um grupo fechado, muitas vezes hereditário, que detém o monopólio do conhecimento ritual e da mediação com o divino. A teologia, como sistema organizado de doutrinas, é obra dos sacerdotes. Eles compilam os hinos, fixam o calendário das festas, redigem os manuais de sacrifício, decidem sobre a pureza ritual. Sua relação com a tradição é de conservação e sistematização. O sacerdote não se considera autor de novas verdades; ele se vê como guardião de um depósito antigo, recebido dos ancestrais. A individualidade, nesse contexto, é um perigo. O bom sacerdote é aquele que repete com exatidão as fórmulas recebidas, que não inova, que não introduz variações pessoais. A autoridade do sacerdote deriva de sua posição na hierarquia do templo e de sua fidelidade à tradição. Qualquer ruptura com essa tradição ameaça sua própria razão de ser.
O profeta, ao contrário, é a figura da ruptura. Ele não pertence necessariamente ao clero; muitas vezes vem de fora, das margens da sociedade. É um pastor, um camponês, um eremita. Sua autoridade não repousa em um cargo, mas em uma experiência pessoal de chamado divino. O profeta recebe uma revelação direta, que o obriga a falar. Sua relação com a tradição é ambivalente: ele se apresenta como aquele que restaura a verdadeira tradição, corrompida pelos sacerdotes, mas na prática introduz elementos novos que transformam a religião de dentro. A individualidade do profeta é o traço mais marcante: ele fala em seu próprio nome, ainda que atribua suas palavras a Deus. Sua mensagem trai sua personalidade, sua época, suas obsessões.
Meyer cita como exemplos principais os profetas de Israel: Amós, Oséias, Isaías, Jeremias. Esses homens não pertenciam ao sacerdócio levítico; Amós era criador de gado e cultivador de sicômoros; Isaías era um aristocrata de Jerusalém, mas não um sacerdote. Eles se levantaram contra o culto do Templo, contra os sacrifícios sem justiça, contra a confiança em rituais vazios. Sua pregação foi revolucionária e custou-lhes perseguição. Um segundo exemplo, menos conhecido, é Hesíodo de Askra, que Meyer considera um tipo de profeta leigo da Grécia arcaica. Hesíodo não era sacerdote; era um camponês beócio que se sentiu inspirado pelas Musas a compor a Teogonia e os Trabalhos e Dias. Em seus poemas, ele critica a injustiça dos reis, a corrupção dos juízes e estabelece uma teologia da justiça divina que contrasta com a mitologia homérica de deuses caprichosos. Meyer inclui também o faraó Aquenáton, o reformador do Egito, como um exemplo de líder religioso revolucionário que tentou impor o culto exclusivo de Áton contra o poderoso sacerdócio de Amon. Aquenáton falhou, porque não conseguiu criar uma base social para sua reforma; sua individualidade foi esmagada pela tradição sacerdotal após sua morte.
O conflito entre profeta e sacerdote é, para Meyer, uma das formas em que se manifesta a tensão mais geral entre individualidade e tradição. O sacerdote representa a continuidade, a segurança, a ordem estabelecida. O profeta representa o risco, a novidade, a desordem criadora. As religiões bem-sucedidas, na análise de Meyer, são aquelas que conseguem um equilíbrio instável entre essas duas forças. Se os sacerdotes dominam inteiramente, a religião petrifica em ritual vazio e perde contato com as exigências morais do postulado ético. Se os profetas triunfam sem freio, a religião se torna instável, sectária, incapaz de produzir instituições duráveis. O cristianismo, para Meyer, oferece um exemplo do ciclo completo: Jesus e Paulo como figuras proféticas revolucionárias; depois, a formação de uma hierarquia sacerdotal que transforma a mensagem em dogma e ritual; finalmente, novos movimentos proféticos de reforma que se chocam com a Igreja estabelecida. Nenhuma das posições, isoladamente, é suficiente; ambas são necessárias para que a religião permaneça viva e ao mesmo tempo coesa.
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(p. 64-65): "A história não está de modo algum pré-determinada na natureza de um país, por mais inegável que seja que esta constitui uma das premissas dadas da história; mas o decisivo em toda parte na vida humana são os fatores espirituais e individuais..."
(p. 72): "Em princípio, toda associação humana... é rigidamente delimitada para fora e de duração eterna... Na realidade, ao contrário, a existência de cada associação está em constante fluxo..."
(p. 77-78): "Apenas muito gradualmente, no curso do desenvolvimento histórico ascendente, forma-se, primeiro semiconscientemente, um sentimento de pertencimento mais próximo, uma representação da unidade da nacionalidade."
(p. 78-79): "Na realidade, dificilmente existem povos não misturados em qualquer lugar da terra, e quanto mais elevada a cultura, mais forte é geralmente a mistura."
(p. 79-80): "Esses efeitos levam ao surgimento de círculos culturais que conectam as formações estatais individuais entre si, para além das fronteiras da raça, da língua e da nacionalidade..."
No estudo sobre a transição das religiões nacionais para as religiões universais na obra de Eduard Meyer, o primeiro aspecto a ser considerado é a definição do que ele entende por religião nacional. Trata-se da forma religiosa em que a divindade está inextricavelmente ligada a um grupo étnico específico, a um território, a uma linhagem. O deus de Israel protege Israel; os deuses de Roma protegem Roma; os deuses de Atenas protegem Atenas. Fora do grupo, fora do território, o poder dessas divindades se enfraquece ou desaparece. A conversão, nesse quadro, não faz sentido: não se pode adorar o deus de outro povo a menos que se torne membro desse povo, adotando sua língua, seus costumes, suas leis. Meyer observa que essa forma religiosa é a mais antiga e a mais difundida na antiguidade. O rompimento desse vínculo entre religião e etnia é um fenômeno relativamente tardio e exige condições históricas específicas.
A passagem para religiões universais, como o cristianismo e o islamismo, não ocorre por um desenvolvimento interno e espontâneo de uma religião nacional, mas por uma confluência de fatores. O primeiro fator é a destruição do Estado nacional. Quando Israel perde sua soberania, primeiro com a queda do reino do Norte em 722 a.C., depois com a destruição de Jerusalém em 586 a.C., o vínculo entre Javé, a terra e o trono de Davi se rompe. Javé não pode mais ser adorado apenas no Templo de Jerusalém, porque o Templo foi destruído. Os judeus são deportados para a Babilônia. Nesse contexto, a religião precisa se reinventar. Os sacerdotes e escribas, em vez de associar Javé à monarquia e ao território, passam a associá-lo à Torá, à lei escrita, que pode ser levada para qualquer lugar. O judaísmo da diáspora é uma religião nacional sem Estado, mas ainda não é uma religião universal. Para se tornar universal, Meyer argumenta, seria necessário um segundo passo: a desvinculação da identidade étnica. O cristianismo dá esse passo ao proclamar que em Cristo não há judeu nem grego. Paulo de Tarso, um judeu da diáspora, rompe com a exigência da circuncisão e da observância integral da lei mosaica. O deus de Israel se torna o Deus de todos os povos, acessível pela fé, não pelo sangue.
O segundo fator é o sincretismo religioso do período helenístico e romano. Quando Alexandre o Grande conquista o Oriente, os deuses de diferentes nações começam a ser comparados, identificados, fundidos. Zeus se identifica com Amon, Afrodite com Astarte, Hermes com Toth. O culto dos mistérios, como o de Ísis ou de Mitra, propaga-se por todo o Mediterrâneo independentemente de origem étnica. Um comerciante da Gália pode ser iniciado nos mistérios egípcios sem se tornar egípcio. Essa circulação de deuses e ritos prepara o terreno para a ideia de que o divino transcende as fronteiras nacionais. Meyer enfatiza que o sincretismo não é uma simples mistura caótica, mas um trabalho ativo de reinterpretação. Os cultos orientais são helenizados para se tornarem compreensíveis ao público greco-romano; ao mesmo tempo, o pensamento grego é orientalizado para incorporar novas formas de piedade. O resultado é uma espécie de koine religiosa, um linguagem comum do sagrado, que permite a emergência de pretensões universalistas.
O papel do indivíduo nesse processo é decisivo. As religiões nacionais são herdadas; o indivíduo nasce dentro delas e pouco pode escolher. As religiões universais, ao contrário, exigem uma adesão pessoal, uma conversão. O profeta ou o fundador não é um porta-voz do consenso da tribo; ele é um indivíduo que desafia o consenso e propõe uma nova visão. Meyer menciona Buda, Zoroastro, Jesus, Maomé como figuras cuja força individual foi capaz de romper as barreiras da tradição étnica. Sem a decisão individual de Paulo em levar o evangelho aos gentios, o cristianismo teria permanecido uma seita judaica. Sem a personalidade de Maomé, o árabe politeísta não teria se transformado em uma comunidade monoteísta com pretensão universal. O indivíduo, portanto, não apenas transmite uma mensagem; ele encarna a ruptura que permite a universalização. A fé não é mais um atributo do nascimento, mas uma escolha existencial.
Entretanto, Meyer adverte que nenhuma religião universal se torna completamente independente de seu solo de origem. O cristianismo mantém as escrituras judaicas como Antigo Testamento; o islamismo mantém uma forte base árabe na língua do Alcorão e nos ritos da peregrinação a Meca. A universalidade é sempre uma tensão entre a pretensão de valer para todos e as marcas particulares de seu nascimento. É por isso que, nas religiões universais, surgem constantemente movimentos de reforma ou cisão que acusam a instituição de ter traído o universalismo original por um novo nacionalismo ou etnocentrismo disfarçado. Esse movimento pendular, na análise de Meyer, é o próprio ritmo da história religiosa.
Passando ao conceito de Individualität, Meyer o coloca no centro de sua filosofia da história. A individualidade é a capacidade de uma pessoa, de um grupo, de uma época ou de um povo de imprimir sua marca própria nos eventos, de agir de modo não inteiramente previsível a partir das condições gerais. Meyer se opõe a qualquer determinismo que pretenda reduzir os fenômenos históricos a leis, sejam elas geográficas, econômicas ou raciais. O clima, o solo, os recursos naturais oferecem possibilidades, mas nunca determinam qual delas será efetivamente realizada. As planícies fluviais do Egito e da Mesopotâmia poderiam ter gerado culturas muito diferentes daquelas que conhecemos; o fato de terem gerado exatamente os egípcios e os babilônios é devido à ação de indivíduos e grupos com suas escolhas singulares. Do mesmo modo, as condições econômicas podem criar tensões, mas a forma como essas tensões se resolvem em revoluções ou reformas depende de líderes, de ideias, de acasos. Meyer rejeita, assim, tanto o materialismo histórico quanto o determinismo geográfico de um Buckle ou um Ratzel.
O que torna a individualidade um fator decisivo é precisamente seu caráter inexplicável. Podemos enumerar as causas que agem sobre um indivíduo, suas heranças genéticas, sua educação, seu meio social. Podemos até mostrar por que ele agiu de determinada maneira em vez de outra. Mas há sempre um resto, uma opacidade, um ponto cego onde a análise causal se detém. É aí que reside a individualidade: naquilo que faz com que Alexandre decida invadir a Ásia em vez de contentar-se com a Grécia, com que César cruze o Rubicão em vez de se submeter ao Senado, com que Lutero afirme sua consciência na Dieta de Worms. Meyer não nega a importância das condições gerais; ele apenas insiste que essas condições nunca são suficientes para produzir o evento. Sempre falta o fator individual, que é contingente, imprevisível, singular. A história, portanto, não é uma ciência nomotética, que busca leis, mas uma ciência idiográfica, que descreve o singular em sua singularidade.
Essa posição se opõe frontalmente às teorias raciais que começavam a ganhar força na Alemanha do início do século XX. Meyer escreve em 1907, em um ambiente intelectual onde o racismo científico já tinha adeptos influentes. Ele não apenas rejeita essas teorias, mas as submete a uma crítica detalhada. Para Meyer, o conceito de raça é uma abstração vaga, que não corresponde à realidade dos povos históricos. O que observamos, quando examinamos a história, não é a pureza racial, mas a contínua mistura. Os egípcios, os gregos, os romanos, os persas, os árabes, os germanos são todos produtos de fusões entre populações diversas. Meyer ironiza a ideia de uma raça indo-germânica pura, lembrando que os próprios alemães resultam de uma mescla de celtas, eslavos, romanos e povos germânicos. A pureza de sangue, afirma ele, é uma fantasia, não um fato histórico. As populações isoladas em ilhas ou vales remotos podem desenvolver traços físicos homogêneos, mas isso é resultado do isolamento, não de uma pureza original. A grandeza histórica dos povos, argumenta Meyer, não depende da pureza racial, mas da capacidade de assimilar elementos estrangeiros e fundi-los em uma nova síntese.
O mesmo raciocínio se aplica ao conceito de Volkstum, ou nacionalidade. Meyer recusa a ideia romântica de que os povos são entidades metafísicas com uma essência imutável. Os povos se formam e se transformam ao longo do tempo. A França de hoje não é a França de Carlos Magno; a Inglaterra de hoje é uma mistura de celtas, anglos, saxões, dinamarqueses e normandos. O que chamamos de caráter nacional é, frequentemente, um conjunto de hábitos e instituições que podem mudar profundamente em poucas gerações. Meyer adverte contra a tentação de projetar no passado as identidades nacionais do presente. Os antigos não se viam como membros de uma nação no sentido moderno; sua lealdade primária era para a cidade, a tribo, o clã. O sentimento de pertencer a um povo unificado por língua e cultura é uma construção histórica relativamente tardia, que emerge em condições específicas, como a ameaça externa comum ou a formação de um Estado centralizado.
A crítica de Meyer ao racismo e ao nacionalismo ingênuo tem consequências metodológicas profundas. O historiador não deve pressupor a existência de entidades coletivas eternas como sujeitos da história. Os grupos humanos são formados, deformados, dissolvidos e refundidos em processos que envolvem migrações, guerras, casamentos mistos, conversões religiosas, adoção de línguas. A unidade de análise histórica, para Meyer, não é a raça ou o povo como essência, mas o indivíduo e o Estado concreto, com suas decisões contingentes. Essa posição o coloca próximo a uma tradição que vai de Tucídides a Ranke, para quem a história é o domínio da liberdade, não da necessidade. O determinismo racial ou geográfico é, aos olhos de Meyer, uma forma disfarçada de teologia secularizada: substitui a providência divina por leis naturais igualmente misteriosas, igualmente inescapáveis. Contra essa substituição, ele afirma a primazia do acontecimento singular, da escolha imprevisível, da individualidade criadora.
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(p. 82): "Toda cultura contém um elemento decompositor: ela dissolve as velhas ordens, muitas vezes sem ser capaz de criar novas e duradouras..."
(p. 94-95): "Muitas tribos caíram completamente sob o domínio deles [dos feiticeiros]; e com isso... toda esperança de alcançar um estágio cultural superior é cortada..."
52 (p. 102): "A vinculação da associação humana com a divindade através do culto é a expressão mais perfeita da ideia de causalidade que o pensamento mítico produziu."
(p. 113-114): "Nisso se baseia a representação da persistência e imperecibilidade do próprio eu, o que chamamos de crença na imortalidade. O homem mais primitivo... não pode pensar de outra forma senão que seu eu senciente e pensante, sua alma, ainda continua a existir."
(p. 119): "Essa exposição... mostra claramente quão equivocada e precipitada é a opinião predominante que quer derivar a crença nos deuses vivos... do culto aos mortos, da veneração dos ancestrais."
(p. 152-153): "Em todos esses processos, em contraste com o povo como um todo, o indivíduo vem para o primeiro plano: ele é confrontado com a escolha de a qual deus se dirigir, a qual ele quer servir."
Sobre a natureza da Geschichtswissenschaft, Eduard Meyer estabelece uma demarcação rigorosa entre a abordagem histórica e as abordagens da antropologia e das ciências naturais. Para ele, a antropologia ocupa-se das formas gerais do desenvolvimento humano, daquilo que se repete através das culturas, dos estágios típicos pelos quais passam as instituições, as técnicas e as crenças. O antropólogo procura regularidades, padrões, estruturas que possam ser abstraídos da multiplicidade dos casos particulares. A ciência natural, por sua vez, busca leis causais universalmente válidas, capazes de prever fenômenos futuros a partir de condições iniciais dadas. A história, ao contrário, não se interessa pelo geral, mas pelo singular, pelo que acontece uma única vez e nunca mais se repete exatamente da mesma maneira. O objeto da história é o evento individual em sua concretude irreprodutível. Por isso, Meyer nega que a história possa ou deva buscar leis, no sentido que as ciências naturais atribuem a esse termo. As chamadas “leis históricas” são, quando muito, generalizações empíricas de validade limitada, que não possuem o caráter necessário e universal das leis da física ou da química.
O argumento central de Meyer contra a possibilidade de uma história nomotética repousa em dois pilares: o acaso e o livre arbítrio. O acaso, Zufall, é aquilo que resulta da coincidência não planejada de séries causais independentes. Dois eventos, cada um com sua própria cadeia de causas, podem convergir em um mesmo ponto do espaço e do tempo produzindo um resultado que nenhuma das duas cadeias, isoladamente, poderia prever. A queda de uma telha que mata um transeunte é um acaso do ponto de vista do transeunte, mas também do ponto de vista da telha. Nada na estrutura da telha ou na biologia do transeunte explica que eles se encontrassem naquele exato momento. Na história, tais acasos são onipresentes. Uma batalha pode ser decidida por um cavalo que tropeça, uma mensagem que chega com atraso, um vento súbito que desvia uma frota. Nenhuma lei histórica poderia prever esses eventos, porque eles não estão inscritos em nenhuma regularidade anterior. O acaso introduz na história uma indeterminação fundamental, que a torna irredutível a qualquer sistema de leis.
O livre arbítrio, freier Wille, é o segundo e talvez mais importante fundamento da especificidade histórica. Para Meyer, a experiência da liberdade é imediata e inegável. O ser humano não reage apenas a estímulos externos, como uma pedra que cai ou um animal que responde a reflexos; ele projeta fins, escolhe meios, delibera entre alternativas. A escolha pode ser influenciada por causas, mas não é determinada por elas. As motivações pesam, mas o ato final de decisão pertence ao agente. Essa liberdade não é uma ilusão a ser dissolvida por uma neurociência vindoura; é a própria condição da ação humana tal como a experimentamos e tal como a narramos na literatura histórica. Sem o livre arbítrio, não haveria responsabilidade, não haveria mérito ou culpa, não haveria política nem ética. A história, como narrativa de ações humanas, pressupõe a liberdade. Se tudo fosse determinado, escrever história seria tão sem sentido quanto escrever a história de um terremoto ou de uma maré. Mas nós distinguimos entre o terremoto e a decisão de Nero de incendiar Roma. Essa distinção não é arbitrária; ela reflete uma diferença real entre eventos que têm um agente capaz de ter agido de outro modo e eventos que não têm.
A consequência dessa posição é uma rejeição absoluta de qualquer filosofia da história que pretenda descobrir um sentido imanente ou uma direção necessária do processo histórico. Hegel, Marx, Comte e os evolucionistas sociais do século XIX são criticados por Meyer por introduzirem na história conceitos emprestados da biologia ou da lógica especulativa. A história não tem um plano predeterminado; ela se faz por acasos e escolhas. O que chamamos de progresso é, na maior parte das vezes, uma interpretação retrospectiva de mudanças que poderiam ter sido diferentes. O historiador não deve procurar leis, mas compreender singularidades. Seu trabalho é mostrar como, dadas certas condições, certos indivíduos tomaram certas decisões, e como essas decisões produziram efeitos não antecipados. O método da história, portanto, é o da explicação por antecedentes e consequências, não o da subsunção a leis universais. Meyer está próximo, aqui, da tradição do historicismo alemão, de Droysen a Dilthey, para quem a história é uma ciência do espírito, cujo objeto é o singular, e cujo método é a compreensão interpretativa.
No que tange à crítica à Kulturgeschichte como história de massas, Meyer polemiza contra as tendências de seu tempo que queriam reduzir a história a processos econômicos, demográficos ou sociais, nos quais os indivíduos aparecem apenas como epifenômenos de forças coletivas anônimas. Para Meyer, essa abordagem é duplamente equivocada. Em primeiro lugar, ela confunde condições com causas. As condições econômicas, as estruturas de classe, as flutuações populacionais criam um cenário, mas não determinam o desfecho. Duas sociedades com condições materiais idênticas podem seguir trajetórias completamente diferentes por causa de decisões políticas ou culturais de seus líderes. Em segundo lugar, a própria história da cultura, em suas manifestações mais altas — arte, literatura, religião, filosofia —, é o produto de indivíduos excepcionais. Não há história da arte sem os artistas; não há história da filosofia sem os filósofos; não há história da religião sem os profetas, os fundadores, os reformadores. Reduzir esses criadores a meros portadores de tendências impessoais é destruir o objeto mesmo da história cultural.
Meyer polemiza, em particular, contra a ideia de que a história política seria a história de indivíduos, enquanto a história cultural seria a história de massas. Essa oposição é falsa. A política também é feita por massas, exércitos, multidões, e a cultura também é feita por indivíduos que pensam, escrevem, pintam, compõem sozinhos. O que distingue uma abordagem de outra não é o protagonismo do indivíduo, mas o foco temático. A questão metodológica central, para Meyer, é se o historiador deve explicar os eventos por leis gerais ou por ações singulares. Ele opta inequivocamente pela segunda alternativa. As massas, sozinhas, não produzem história; elas reagem, seguem, apoiam ou se opõem. O impulso inicial, a ideia nova, a decisão crucial vêm sempre de um indivíduo. Isso não significa que Meyer ignore a importância das condições sociais; ele apenas insiste que essas condições são transformadas em história por atos de vontade localizados. Sem Alexandre, o helenismo não teria se espalhado pelo oriente; sem César, a república romana teria perdurado talvez mais alguns séculos; sem Lutero, a reforma teria tomado um caminho completamente diverso. Essas afirmações não são meras especulações; são hipóteses contrafactuais que revelam o peso causal dos indivíduos.
A crítica de Meyer à história cultural como história de massas estende-se também à história econômica. Ele reconhece a importância dos processos econômicos, mas nega que eles possam ser tratados como um domínio autônomo de leis invariantes. A economia é moldada por decisões políticas, por inovações técnicas que dependem de inventores, por mudanças culturais de gosto e de valor. O desenvolvimento do capitalismo não é um processo automático determinado pela técnica; ele é o resultado de escolhas feitas por governantes, comerciantes, banqueiros, legisladores. A historicalidade da economia, para Meyer, reside precisamente na sua dependência de fatores contingentes e individuais. O historiador que se limita a aplicar esquemas gerais de análise econômica está, na verdade, abandonando a história em favor de uma sociologia ou de uma economia teórica. Essas disciplinas são legítimas, mas não substituem a tarefa específica da história, que é narrar o que aconteceu, com todas as suas singularidades.
Por fim, no capítulo sobre a crítica da tradição oral e a formação da saga, Meyer oferece uma análise detalhada dos processos pelos quais eventos reais se transformam em narrativas míticas ou heroicas. A transmissão oral não é um registro fiel do passado; é um trabalho contínuo de deformação e reconstrução. As testemunhas oculares já trazem um viés: veem o que esperam ver, destacam o que lhes parece impressionante, esquecem o que consideram irrelevante. Quando narram, simplificam, dramatizam, inserem explicações causais que muitas vezes são fantasiosas. O pensamento mítico, que Meyer descreve como a forma primária da consciência humana, opera por analogias antropomórficas. Uma tempestade torna-se a ira de um deus; uma vitória torna-se a intervenção de um herói; uma peste torna-se o castigo por um sacrilégio. Essas interpretações míticas não são adicionadas depois ao evento; elas já estão presentes na primeira transmissão, porque o observador primitivo não separa o fato natural da interpretação sobrenatural.
A transmissão geracional acentua ainda mais essa deformação. Cada narrador recontorna a história para adequá-la ao seu público, para torná-la mais memorável, para inseri-la em seu próprio horizonte cultural. Os nomes dos atores são esquecidos e substituídos por nomes mais famosos, ou por epônimos inventados. Os eventos são deslocados no tempo para criar sequências narrativas mais satisfatórias. Duas batalhas separadas por décadas podem ser fundidas em uma única campanha épica. Heróis de diferentes épocas tornam-se contemporâneos e interagem. Meyer compara esse processo ao trabalho da memória popular em sociedades ágrafas, onde não há documentos escritos que fixem uma versão canônica. A ausência de escrita significa que o passado é constantemente refeito para servir às necessidades do presente. Uma história que não serve a nenhum interesse atual simplesmente desaparece, porque ninguém tem motivo para repeti-la.
A consequência mais importante dessa análise é a constatação da extrema brevidade da memória histórica em sociedades primitivas. Meyer afirma, com base em amplo material etnográfico, que a tradição oral raramente ultrapassa duas ou três gerações. O neto ainda pode ouvir histórias do avô; o bisneto já ouve versões adulteradas. Depois de um século, a menos que a história tenha sido fixada em poemas, rituais ou monumentos, ela se perde ou se transforma em mito puro. A chamada memória de longo prazo dos povos ágrafos, que os românticos imaginavam capaz de preservar eventos de milênios, é uma ilusão. Os indígenas australianos ou os pigmeus africanos não têm a menor ideia de onde vieram seus antepassados há quinhentos anos; suas narrativas de origem são mitos, não história. Meyer cita o exemplo dos árabes pré-islâmicos, que eram capazes de recitar longas genealogias, mas essas genealogias eram artificiais, compostas para estabelecer alianças e reivindicar prestígio, não registros fidedignos de descendência biológica.
Essa posição tem implicações radicais para a metodologia do historiador da antiguidade. Quando encontramos uma narrativa épica, como a Ilíada ou os ciclos da Távola Redonda, não podemos simplesmente escavar o "núcleo histórico" sob as camadas de ficção. O que nos chega é já uma construção cultural, na qual elementos históricos e míticos estão irremediavelmente entrelaçados. A tarefa do historiador não é extrair uma suposta verdade factual, mas compreender como e por que essas narrativas foram produzidas, que funções sociais desempenhavam, que visão de mundo veiculavam. Meyer não defende um ceticismo absoluto — ele acredita que é possível, em alguns casos, recuperar informações históricas por meio da crítica combinada de fontes independentes. Mas suas advertências contra a credulidade ingênua das tradições orais continuam sendo um alerta necessário. A história começa com a escrita; antes da escrita, temos pré-história e mito, não história no sentido rigoroso. Essa distinção não é um juízo de valor sobre a dignidade dos povos ágrafos, mas uma constatação metodológica sobre os limites do conhecimento possível.
Desse modo, o estudo da natureza da ciência histórica em Meyer nos conduz por três movimentos complementares: a afirmação da singularidade e da liberdade contra o determinismo e a busca de leis; a defesa do papel do indivíduo, mesmo na história da cultura, contra as abordagens coletivistas; e a análise cética das tradições orais, que revela as profundas transformações sofridas pela memória antes de sua fixação escrita. Esses três pilares sustentam a visão de Meyer sobre o que a história é e sobre como o historiador deve trabalhar. Uma visão que, por sua ênfase na contingência e na agência, permanece atual em meio a tantas tentativas de reduzir o passado a um conjunto de estruturas anônimas ou de leis inexoráveis. O historiador, para Meyer, é aquele que resiste a essas reduções. Ele sabe que o mundo humano é feito de escolhas, de acasos, de narrativas frágeis e de memórias traiçoeiras. E é precisamente por causa dessa fragilidade que seu trabalho é necessário: sem a crítica histórica, o passado se dissolve em lenda ou em ideologia.
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(p. 183): "A liberdade da vontade e sua influência sobre o mundo externo são uma experiência imediata de nossa consciência. O homem não age segundo causas que atuam sobre ele externamente, mas segundo fins que ele mesmo estabelece."
Acerca de Heródoto e Tucídides na obra de Eduard Meyer, a primeira distinção a ser estabelecida diz respeito à diferença fundamental entre a abordagem do chamado "pai da história" e a do ateniense que completou a guerra do Peloponeso. Meyer trata Heródoto com respeito, reconhecendo sua originalidade e sua imensa contribuição para a criação de um gênero literário novo. Heródoto foi o primeiro a tentar reunir as tradições orais de diversos povos, a percorrer o Mediterrâneo em busca de informações, a contrastar versões conflitantes e a apresentar um quadro amplo das guerras entre gregos e persas. Sua obra é um monumento de curiosidade intelectual e de generosidade narrativa. No entanto, Meyer insiste que Heródoto ainda pertence a uma fase preparatória, anterior à verdadeira ciência histórica. As limitações de Heródoto são várias: ele aceita relatos sem submetê-los a uma crítica sistemática; incorpora lendas e mitos como se fossem fatos; atribui eventos à intervenção divina sem buscar causas naturais ou humanas; sua cronologia é vaga e frequentemente contraditória. Heródoto conta histórias maravilhosas porque as ouviu e porque elas lhe parecem interessantes, não porque tenha verificado sua plausibilidade.
Tucídides, ao contrário, é o criador da história científica porque introduziu três inovações decisivas. A primeira é a exigência de autópsia e de verificação das fontes. Tucídides declara explicitamente que só relata eventos dos quais foi testemunha ou que pôde confirmar através de múltiplos informantes, submetendo cada relato a um exame rigoroso de coerência e plausibilidade. Ele recusa o maravilhoso, o sobrenatural, o divino como explicação para eventos humanos. A guerra do Peloponeso não é resultado da ira de Zeus ou de um oráculo mal interpretado; é resultado de causas políticas, econômicas, psicológicas, que podem ser investigadas pelo historiador. A segunda inovação é a busca pelas causas profundas, não apenas pelos pretextos imediatos. Tucídides distingue entre a causa aparente, próphasis, e a causa verdadeira, alethestate prophasis. O pretexto para a guerra, como as queixas de Corinto e Mégara, não é o mesmo que sua causa real, que foi o medo do crescimento do poder ateniense por parte de Esparta. Essa distinção ainda hoje é ensinada nas escolas de relações internacionais. A terceira inovação é a tentativa de construir uma cronologia precisa, utilizando anos de guerra, estações do ano, e eventos astronômicos como eclipses para datar episódios. Tucídides quer que seu leitor saiba não apenas o que aconteceu, mas quando aconteceu, em que ordem, com que intervalos.
A técnica dos discursos, Reden, representa para Meyer um paradoxo fascinante. Tucídides admite que não tem registro literal do que foi dito em cada ocasião. Ele não dispunha de estenógrafos ou de atas oficiais das assembleias. Seus discursos são, portanto, composições livres, nas quais o historiador coloca na boca dos personagens aquilo que lhes seria apropriado dizer, o prepon, dadas as circunstâncias. Isso poderia parecer uma violação da objetividade histórica, um convite à ficção. Meyer argumenta o contrário. A técnica dos discursos permite a Tucídides expor, de forma concentrada e dramática, os motivos, os cálculos, as paixões, os valores que orientam a ação dos protagonistas. Um discurso não é uma transcrição, mas uma interpretação. Ele revela o sentido que o historiador atribui ao evento, a lógica interna que ele percebe sob a superfície dos fatos. Ao fazer isso, Tucídides alcança um nível de objetividade superior à simples narrativa de palavras ditas. A objetividade não está na reprodução mecânica do que foi dito, mas na adequação entre o discurso e a situação, entre as palavras e o caráter do personagem, entre a argumentação e o curso subsequente dos eventos. O leitor de Tucídides compreende não apenas o que aconteceu, mas por que aconteceu, quais alternativas foram consideradas, quais escolhas foram feitas. Essa inteligibilidade, para Meyer, é o núcleo da objetividade histórica.
A obra de Tucídides permanece, assim, como um modelo insuperado. Meyer observa que todos os historiadores subsequentes, até os dias atuais, medem-se por padrões que Tucídides estabeleceu. A separação entre relato e interpretação, entre causa e pretexto, entre evento singular e contexto geral, todas essas distinções estão presentes na História da Guerra do Peloponeso. Que Tucídides tenha cometido erros factuais, que sua análise das causas tenha sido parcial, que seus discursos sejam mais atenienses do que espartanos — tudo isso é irrelevante para a questão da fundação do gênero. O que importa é o método, a postura crítica, a recusa da tradição oral não verificada, a busca de uma verdade que não seja confortável nem patriótica. Heródoto, por mais encantador que seja, ainda está de um lado da linha divisória; Tucídides, do outro.
No que se refere à cronologia e ao calendário egípcio, Meyer faz uma análise técnica de grande fôlego. Ele começa por expor as dificuldades inerentes a qualquer sistema de datação no mundo antigo. As sociedades agrícolas precisam saber quando semear e colher; as sociedades religiosas precisam saber quando celebrar seus festivais. Os fenômenos naturais que oferecem referência são o dia, o mês lunar e o ano solar. O problema é que esses três ciclos são incomensuráveis: o dia não se encaixa exatamente no mês, o mês não se encaixa exatamente no ano. Qualquer calendário é uma convenção que aproxima, arredonda, compensa por meio de intercalações. Os calendários lunisolares, como o grego e o judaico, tentam manter o mês lunar (29 ou 30 dias, alternadamente) e ao mesmo tempo ajustar o ano solar por meio da inserção periódica de um mês extra. Esse sistema acarreta dificuldades práticas: a duração do ano varia de 354 a 384 dias; o início de cada mês depende da observação empírica do primeiro crescente; os festivais móveis deslocam-se em relação às estações. Para o historiador, os calendários lunisolares são uma fonte de dor de cabeça. As datas gregas não são diretamente comparáveis entre cidades diferentes, pois cada pólis tinha seu próprio calendário com nomes de meses diferentes e regras de intercalação distintas. Reconstruir a sequência exata de eventos, correlacioná-los com fenômenos astronômicos ou com outros calendários, exige um trabalho de engenharia reversa que muitas vezes falha por falta de dados.
O calendário egípcio, ao contrário, é uma conquista fundamental porque rompeu com o mês lunar e adotou um ano fixo de 365 dias, composto por 12 meses de 30 dias mais 5 dias epagômenos. Esse ano não precisa de intercalações; ele é regular, previsível, administrativamente simples. O historiador pode converter datas egípcias em datas julianas com relativa facilidade, contanto que saiba o ponto de partida de cada reinado. O preço dessa simplicidade é que o ano civil egípcio se desloca lentamente em relação ao ano solar: a cada quatro anos, ele atrasa cerca de um dia; a cada 1461 anos, ele completa um ciclo completo, a chamada "era sotíaca", quando o início do ano civil coincide novamente com o nascer helíaco de Sirius, o evento que marcava a enchente do Nilo. Para os egípcios, esse deslize não era um problema grave, pois a agricultura dependia da enchente do Nilo, não de um calendário fixo. A enchente era anunciada pela observação direta de Sirius, independentemente da data civil. O calendário servia para a administração, para os registros de impostos, para os aniversários dos reis. A separação entre calendário civil e observação astronômica era tolerada. Para o historiador moderno, essa separação é uma bênção: as datas egípcias são estáveis e comparáveis ao longo de milênios, permitindo a construção de cronologias absolutas quando combinadas com registros astronômicos.
Meyer enfatiza a importância do chamado "ciclo sotíaco" para a fixação da cronologia egípcia. Os textos mencionam, em intervalos regulares, a coincidência entre o primeiro dia do ano civil e o nascer helíaco de Sirius. Essas menções fornecem pontos de ancoragem astronômicos que permitem datações absolutas com erro de alguns anos. Sem o calendário egípcio, a cronologia do antigo Oriente seria muito mais incerta. O calendário grego, ao contrário, é um pesadelo para qualquer tentativa de estabelecer sequências precisas antes da era helenística. As listas de arcontes atenienses ou de éforos espartanos oferecem sequências relativas, mas convertê-las em anos absolutos depende de tabelas e de suposições sobre intercalações que muitas vezes são conjecturais. Meyer não esconde sua admiração pela engenhosidade dos egípcios: eles criaram o primeiro ano civil artificial da história, desvinculado das fases da lua, uma verdadeira revolução intelectual que antecipa em milênios o calendário juliano e o gregoriano.
Por fim, o conceito de Kulturkreise é um dos mais originais da introdução de Meyer. Ele define círculos culturais como conjuntos de povos ou estados que, embora separados por fronteiras políticas e linguísticas, compartilham um conjunto básico de técnicas, idéias, instituições e formas artísticas, devido a contatos prolongados e a uma história comum. Esses círculos não são raças nem nações; são formações históricas, resultado de processos de difusão, imitação, conquista e assimilação. Sua importância para uma história sincrônica da Antiguidade é imensa. Em vez de tratar isoladamente os egípcios, os babilônios, os fenícios, os hititas, os gregos e os romanos, o historiador deve estudá-los como partes de uma única trama, onde as influências vão e vêm, onde as inovações em um ponto se espalham para outros, onde as guerras e os comércios criam interdependências. Meyer afirma que a história do antigo Oriente Próximo e do mundo greco-romano forma, de fato, uma única unidade, que ele chama de "círculo dos povos do Mediterrâneo". Essa unidade começa a se formar nos terceiro e segundo milênios antes de Cristo, quando as civilizações do Egito, da Mesopotâmia e do Egeu entram em contato por meio do comércio marítimo e das guerras de conquista. Ela se consolida no primeiro milênio, com a expansão dos fenícios, a criação do império persa, a conquista de Alexandre e a subsequente dominação romana. O Mediterrâneo torna-se um lago interior que conecta, em vez de separar, as culturas de suas margens. A partir de certo ponto, nenhuma história do Egito, da Grécia ou da Itália pode ser escrita sem referência às outras.
Em contraste, o Extremo Oriente, com sua civilização centrada na China, segue um desenvolvimento separado. As razões para esse isolamento não são apenas geográficas, embora as montanhas e os desertos da Ásia central ofereçam uma barreira formidável. Meyer aponta também razões culturais: a China desenvolveu uma escrita logográfica, um sistema estatal burocrático, uma filosofia moral confucionista, e uma visão de mundo centrada na harmonia cósmica, tudo de forma autóctone, sem dependência significativa do Ocidente. Os contatos através da Rota da Seda existiam, mas eram esporádicos e limitados a bens de luxo e algumas tecnologias. Não há, antes da era moderna, um intercâmbio intelectual intenso entre a China e o Mediterrâneo, nem uma fusão de tradições religiosas ou científicas. O budismo, que veio da Índia, foi incorporado pela China, mas a Índia mesma, embora em contato com o Ocidente através do império persa e de Alexandre, nunca se tornou parte integral do círculo mediterrâneo. Meyer considera a Índia como uma zona de fronteira, que recebe influências de ambos os lados mas não os integra em uma síntese duradoura.
A consequência dessa periodização baseada em círculos culturais é que a história universal no sentido forte só pode começar com a expansão europeia dos séculos XV e XVI, quando o Mediterrâneo, a Índia, o Extremo Oriente e a América são pela primeira vez conectados em um único sistema global de trocas. Antes disso, temos histórias regionais separadas, cujas interações são importantes mas não hegemônicas. O historiador da Antiguidade, portanto, deve ter a modéstia de reconhecer os limites de seu objeto. Ele pode escrever a história de um círculo cultural, não a história do mundo. Mesmo dentro desse círculo, as lacunas são enormes. Não sabemos quase nada sobre as línguas e culturas da Europa setentrional ou da África subsaariana durante a Antiguidade. O que não nos impede de construir uma narrativa coerente para o Mediterrâneo, desde o Egito dos faraós até a queda de Roma. Meyer acredita que essa narrativa, quando bem feita, é superior às histórias nacionais isoladas porque revela interdependências que de outra forma permaneceriam ocultas. O florescimento da Grécia no século V a.C. não pode ser compreendido sem a influência do Egito e da Babilônia; a ascensão de Roma não pode ser compreendida sem a helenização do Mediterrâneo ocidental. O círculo cultural é, assim, o verdadeiro sujeito da história antiga, muito mais do que as nações ou os Estados individuais.
Desse modo, as três questões abordadas neste estudo convergem para uma visão unificada do projeto de Meyer. Tucídides funda a história científica ao introduzir método crítico, análise causal e objetividade interpretativa através do discurso apropriado. O calendário egípcio, por sua perfeição técnica, permite ancorar essa história em uma cronologia absoluta, superando as confusões dos calendários lunisolares. E o conceito de círculos culturais fornece o quadro geográfico e temporal adequado para uma história sincrônica da Antiguidade mediterrânea, distinguindo-a do desenvolvimento separado de outras civilizações. Esses três elementos — método, cronologia, quadro espacial — são interdependentes. Sem cronologia, não há história sequencial; sem método crítico, não há história confiável; sem o círculo cultural, não há unidade temática. Meyer, ao articulá-los, oferece ao leitor não apenas uma introdução à história antiga, mas uma verdadeira filosofia da história, fundamentada na prática dos grandes historiadores e na reflexão sobre os instrumentos técnicos da disciplina.
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